Não dá para comprálo nas lojas, não dá para encomendá-lo
pela internet, não dá para conhecer o autor (há milhares deles) e provavelmente
não vai dar para lê-lo caso consiga encontrá-lo, já que grande parte está
escrita em hebraico. Nosso repórter segue a trilha de uma lenda underground
global: a bíblia de viagem que está ao mesmo tempo em toda parte e em
parte nenhuma da juventude israelense, cansada do exército e doida para
vagabundear livre pelo mundo
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| Mulher quéchua em Cuzco, Peru. Ao lado: um volume muito usado do
Livro, o guia de viagem mais underground do mundo, da hospedaria El
Lobo, em La Paz, na Bolívia |
As páginas do Livro estão amareladas agora - não pelo
tempo (o que são 16 anos?), mas pelo manuseio descuidado de leitores demais.
Milhares de mãos sujas passaram seus dedos oleosos por essas páginas.
Os embriagados, os entediados, os irritados e os excitados de muitos países
o folhearam, usaram-no como apoio de copo e derrubaram migalhas de comida
em suas dobras. Os cantos estão amassados e a capa foi coberta com papel
marrom de padaria, como se fosse uma revista de sacanagem que ninguém
quer ser pego dando umas espiadas.
Este livro - um volume específico de uma série incontável - nasceu em
7 de outubro de 1989, em um restaurante de La Paz, na Bolívia, quando
alguém com tempo de sobra escreveu a primeira dica. Escrito em inglês,
por uma mão não muito firme, o autor recomendava o hotel Torino como "provavelmente
um dos hotéis mais baratos no centro de La Paz", apesar de alguns probleminhas
("os quartos não têm janela... escuro e desbotado... fedorento e sujo").
Já nesse primeiro registro estavam as musas que sempre dominaram o Livro:
a Parcimônia e sua assistente, a Imundice. Havia mais um conselho na primeira
página. Alguém rabiscou por cima do texto anterior: "O porteiro noturno
me passou a perna, aquele BABACA!!!".
Há outros guias e compêndios para viajantes igualmente estranhos, obscuros
e clandestinos por aí - a "Trilha dos Apalaches" tem um monte de registros
excêntricos, a web transborda de blogs e páginas com dicas para todo tipo
de viagem. Mas nenhum deles pode se gabar de ter o mesmo alcance global
ou ser tão envolvente, desvairado e perceptivo quanto o Livro,
o melhor guia desconhecido do mundo.
O Livro não tem um único autor, editor ou empresa que o publique.
Fisicamente falando, não passa de um conjunto de cadernos feitos à mão,
descentralizados e frouxamente associados, ocultos em todas as mecas dos
andarilhos na América Latina e Ásia - um conjunto desorganizado de dicas
de viagem, números de telefone, esquemas para conseguir descontos, ilustrações
alucinadas, teorias de conspirações, notas difamatórias pelas margens
e reminiscências etílicas, escritas pelos e para os mochileiros do mundo
todo que viajam por aí sem um tostão furado no bolso.
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Retratos
de jovens viajantes israelenses ao longo da rota do Livro,
na Bolívia e no Peru, intercalados por cenas da "estrada" boliviana |
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