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    Paraísos PERDIDOS
PERDIDOS ALGUNS DOS LUGARES MAIS ESTUPENDOS DO MUNDO SÃO VERDADEIROS DESTINOS SUICIDAS. ENQUANTO OS CONFLITOS NÃO ACABAM, APRENDA E SONHE COM ESSAS PAISAGENS

POR MARCELO DELDUQUE

UM VILAREJO APARENTEMENTE CALMO E AGRADÁVEL TRAZIA TODOS OS DIAS UM ASSASSINADO A VELAR
POR MÁRCIA BIZZOTTO

PABLO CORRAL VEGA/CORBIS/LATINSTOCK
VALE ENCANTADO: Na divisa com o Equador, perto da cidade El Angel, o trekking é motivado pela rica variedade de plantas, pássaros e outros animais silvestres

CHEGUEI EM TERRALTA NUMA TARDE TÍPICA DAQUELE vilarejo de Córdoba, no norte da Colômbia. O calor úmido deixava a pele pegajosa e fazia as roupas grudarem no corpo. Trabalhadores conversavam pelas calçadas, como se o dia fosse de festa. E na pequena igreja no meio da praça mais um morto começava a ser velado. Cada dia seria assim, com a descoberta de algum novo assassinato.

Estive na cidade por um mês, em junho de 2001, para fazer uma reportagem sobre os refugiados internos da Colômbia. Terralta tem um dos maiores índices de êxodo interno do país, culpa do conflito civil que já dura mais de 60 anos. O município é dominado por paramilitares e cercado de povoados controlados por guerrilheiros. Os dois movimentos armados se enfrentam entre si e ainda combatem o exército. Como todos se conhecem na região, qualquer rosto estranho é suspeito. E como cada estrada é controlada ou por paramilitares ou por guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), muita movimentação também desperta suspeitas. A situação é delicada e deixa os civis sob constante ameaça.

Para ter proteção durante meu trabalho como jornalista e ganhar a confiança da população, busquei ajuda da igreja e da Cruz Vermelha, que costumam ter certa neutralidade e respeito dentro de um conflito. Os padres jesuítas me hospedaram e me orientaram a mentir minha profissão. Eu conversava com as pessoas disfarçada de assistente social.

Todos os dias eles repetiam que eu devia manter minha câmera fotográfi ca bem-guardada. Por isso, deixei de registrar a beleza do lugar, uma região salpicada por coqueiros, com grandes campos de banana e inúmeras nascentes de água. Queria fotografar as árvores de onde as crianças colhiam frutas exóticas e as típicas casas rurais colombianas, paredes de barro e teto de palha. Mas uma inocente foto poderia me condenar: talvez a casa fosse uma base paramilitar e o campo de graviola apenas a fachada para uma plantação de coca.

Os padres também insistiam para eu não sair do perímetro urbano sem a companhia de algum deles. A recomendação me parecia exagerada em um vilarejo de ruas calmas, com mais bicicletas que carros, com vendedores ambulantes de frutas e pessoas de sorrisos fáceis. Também era difícil seguir esses conselhos, já que o perímetro urbano não passava de umas nove quadras. Todo o demais era área rural, com casinhas espalhadas por estradas de terra que cortam a mata tropical, rodeadas por grandes campos de banana e inúmeras nascentes de água. Toda essa tranqüilidade aparente era uma tentação. Até as noites pareciam calmas, iluminadas por vaga-lumes e um céu sempre estrelado, embaladas pela salsa caribenha, que os locais dançavam alegremente em cima das mesas nos bares.

Infelizmente, a alegria daquele povo vive em risco: às vezes apareciam tantos defuntos, vítimas de assassinatos, que os velórios tinham que ser realizados simultaneamente dentro da igreja e na frente dela, na rua. A sucessão de funerais e as histórias que eu ouvia diariamente nos campos de refugiados me obrigavam a acreditar que a realidade por trás daquele ambiente era bem diferente da falsa aparência de paz.

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Edição nº 53 - Outubro/09
 
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