
Mas eu estou pronto para agir, não para morrer. É hora de arrumar uma ancoragem melhor, que eu possa usar para montar um sistema capaz de mover essa rocha. Parece que tem uma pequena protuberância triangular numa prateleira uns dois metros acima de mim. Mas minhas tentativas de jogar uma correia sobre a protuberância vão por água abaixo. A correia se solta todas as vezes.
Uma fissura no lado direito da protuberância atrai minha atenção. No lançamento seguinte, na hora que o nó está prestes a passar por ela, coloco o guia da correia na boca e dou leve puxão nela - ela se prende no lugar. Aha! Coloco um anel metálico de rapel na corda amarela, formando um laço com um anel na parte de baixo. Passei duas horas só armando a ancoragem, mas o esforço foi um sucesso até agora. Bom trabalho, Aron. Agora você só precisa mover a rocha. Não vá parar agora.
Cortando dez metros de corda de escalada, passo uma das pontas ao redor da chockstone e a prendo em mim mesmo. Depois passo a outra ponta pelo anel de rapel - consigo alcançá-lo bem no limite que meu braço preso permite. Puxo a corda. Nada. Bom, pelo menos a ancoragem está agüentando.
Preciso de uma vantagem mecânica melhor. Focando a atenção, invoco minha experiência com resgates e os dois sistemas de içamento que usávamos para tirar pessoas de faces verticais. Decido usar um sistema Z-pulley modificado com uma linha de içamento para que eu possa levantar a rocha puxando pra baixo. Adiciono um nó Prussik, prendendo uma correia ao redor da corda em um nó corrediço que, quando solto, desliza pela corda, mas se aperta quando se coloca peso sobre ele. Então prendo os laços aos mosquetões, conectando a corda em si mesma. Com essas duas mudanças de direção eu teoricamente tripliquei a força aplicada no ponto de içamento. Mas a rocha ignora meus esforços. Mesmo após horas de trabalho intenso, ela não se moveu nem um centímetro.
Finalmente, paro para dar uma descansada e olho meu relógio. Já passou de uma da tarde e estou suando e bufando. De repente, ouço vozes distantes ecoando pelo cânion. Eu penso um palavrão, surpreso, e meu fôlego se prende na minha garganta seca. Segurando a respiração, escuto atentamente. "SOCORRO!" Os ecos de meu grito se espalham e desaparecem no cânion. Fazendo força para não respirar, espero uma resposta. Nada. "SOCORROOOO!"
O desespero em meu grito me perturba. Prendo a respiração mais uma vez. Depois que o som dos meus gritos já desapareceu, não há nenhum som em resposta, exceto o do meu coração batendo. Um momento se passa e eu sei que não há mais ninguém neste cânion. Minha esperança se esvai. Minha moral cai por terra, como na primeira vez que uma garota me partiu o coração. Então ouço os sons novamente. Logo eles se revelam como os sons de um rato-canguru em sua toca.
2 DA TARDE. PELA PRIMEIRA VEZ, PENSO SERIAMENTE EM AMPUTAR MEU BRAÇO. Colocando minhas coisas nas superfícies ao meu redor, penso nos possíveis usos de cada item em uma cirurgia. Minhas duas maiores preocupações são achar uma ferramenta de corte que dê conta do recado e um torniquete que vai me impedir de sangrar até morrer. Das lâminas do canivete suíço, a de 4 cm é mais afiada que a de 9 cm. É melhor usar a maior para cavar a rocha e guardar a menor para a possível cirurgia.
Mesmo com a lâmina mais afiada, eu sei instintivamente que ela não vai ser capaz de cortar meus ossos - e eu não tenho nada que seja ao menos parecido com uma serra rudimentar. O método mais plausível disponível para amputar meu braço, cortando a cartilagem mole da junta do cotovelo, simplesmente não me ocorre. Volto minha atenção ao torniquete. Experimento com a mangueira do meu CamelBak vazio. Arranco-a e consigo prendê-la com um nó simples no meu antebraço, logo abaixo do cotovelo. Mas não consigo apertá-lo direito, o plástico é duro demais. Essa idéia já era.
Tem um pedaço de fita roxa que coloco ao redor do meu antebraço. Um esforço de cinco minutos resulta em um nó duplo, mas os laços estão frouxos demais para interromper a circulação. Preciso de um galho ou um mosquetão para apertar mais o laço. Coloco o gancho do meu último mosquetão não utilizado no laço, dou duas voltas nele. A correia aperta meu braço e a pele próxima ao meu pulso fica pálida. Ver meu equipamento médico improvisado funcionar me traz uma súbita sensação de satisfação. Bom trabalho, Aron.
Apesar do meu otimismo, percebo que há um lado sombrio na minha corrente de pensamento. Até descobrir como cortar os ossos, a amputação não é uma opção prática. Mas me pergunto se tenho coragem suficiente, caso cortar fora meu braço se torne um plano de ação de fato. Como um teste, encosto a lâmina curta do canivete na minha pele. A ponta cutuca entre tendões e veias alguns centímetros acima do meu pulso preso, afundando minha carne. A visão me causa repulsa. O que você tá fazendo, Aron? Tira a faca do seu pulso! O que tá tentando fazer - se matar? Isso é suicídio! Vai sangrar até morrer. Cortar seu pulso dá na mesma que enfiar uma faca na barriga. Não consigo.
Imagino meu sangue derramado nos paredões do cânion, os músculos rasgados do meu braço pendurado nos dois ossos brancos cheios de marcas, o resultado de meus esforços finais de serrar meu braço. E então vejo minha cabeça caída sobre meu torso e meu corpo sem vida pendurado pelos ossos marcados a faca. Largo o canivete e sinto vontade de vomitar. Odeio essa pedra. Odeio este cânion. Odeio esse negócio gelado apertando meu antebraço direito. Odeio o cheiro de musgo da gosma verde que cobre o fundo do paredão do cânion atrás das minhas pernas. "Eu... odeio... isso!" digo, pontuando cada palavra com tapas da minha mão esquerda na chockstone, enquanto meus olhos se enchem de lágrimas.
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