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  Ultramaratonas
  O ano do Brasil na França
Catorze brasileiros participaram da sétima edição da mais dura e desejada das ultramaratonas de montanha, disputada no fim de agosto nos Alpes. Dois deles tiveram resultados expressivos - ou melhor, duas. Estará o Brasil entrando firme no circuito internacional das corridas de trilha? (ANDREA ESTEVAM)

Foto divulgação

ÉRAMOS 14, e formávamos a maior delegação brasileira já vista na pequena cidade francesa de Chamonix, às vésperas da Ultra Trail du Mont Blanc (UTMB). Nos dividíamos entre as três opções de percurso solo da prova: a Courmayer-Champex-Chamonix (CCC), com 98 quilômetros e 11.200 metros de desnível total; a Les Traces des Duques de Savoia (TDS), de 105 quilômetros e 13.400 de desnível, e a corrida-mãe, UTMB, com 166 quilômetros e 18.800 de desnível, que dá a volta completa pelo maciço do Mont Blanc (cujo cume tem 4.807 metros de altura), e passa pela Itália e pela Suíça antes de voltar para a França. A UTMB é considerada a ultramaratona de montanha mais dura do mundo - não tanto pela distância, já que há provas mais longas, mas pelo terreno altamente técnico e desníveis enormes, com singletracks infinitos sobre abismos monstruosos e diversos tamanhos de pedras (desde aquelas pequenas, aglomeradas e prontas para causar uma lesão, até as enormes que necessitam ser transpostas com a ajuda das mãos).

A competição é disputada anualmente desde 2003. Mas foi só em 2006, na quarta edição, que o Brasil estreou pelos corajosos pés de André Arruda e Décio Ribeiro Júnior, que de cara se jogaram na UTMB. Os dois chegaram empatados em 357º lugar dos 1.686 atletas que largaram de Chamonix (somente 1.152 completariam o percurso). No ano seguinte, a dupla voltou para melhorar seus tempos - e desta vez tiveram dois compatriotas, Tani Oreggia e Fernando Dezem, engrossando o caldo brasileiro. Décio obteve a melhor colocação brasileira na prova até hoje: um 146º lugar entre os 1.437 corredores, com o louvável tempo de 31h05min39s - o recorde verde-amarelo. Tani e Fernando terminaram os 166 quilômetros juntos, em 1.188º lugar.

Em 2008, fui a primeira brasileira em Chamonix, estreando modestamente na CCC com um 794º lugar entre 1.315 competidores. A experiência foi extraordinária, e o relato publicado na edição 41 da Go Outside [que você pode ler em nosso site] parece ter animado a turma dos corredores de trilha brasileiros. Assim, formou-se a tropa de 2009: 9 marmanjos e 5 mulheres, em sua maioria vindos da corrida de aventura, divididos em sete inscritos na UTMB, sete na TDS e um no CCC, sem contar os dois agregados gringos (um francês e um norte-americano) que completavam a delegação. A maior parte se conhecia e todos haviam passado os últimos meses se virando nos 30 para treinar morando a centenas de quilômetros de uma montanha de 2 mil metros de altura.

CENAS DE UM DESAFIO: Nas três fotos destas páginas a onipresença dos picos do maciço do Mont Blanc durante a prova

Cristina de Carvalho, Caco Alzugaray e José Caputo tiveram como centro de treinamento a Pedra Grande, em Atibaia (SP), e as trilhas de Juquitiba (SP). Mateus Ferraz Gil, Gustavo Albuquerque, João Bellini, Sabrina Koester, André Iervolino e eu aproveitamos as trilhas de reflorestamento perto da capital paulista, e "filamos" alguns treinos com o time da Pedra Grande. Sílvia "Shubi" Guimarães treinou na serra do Mar, nas trilhas perto de Itamambuca, em Ubatuba (SP). Tani e Acácio usaram as trilhas de Campinas (SP). Ramon Valls Martim foi com a cara, a coragem e pouco treino, enquanto Fernanda Maciel se deu bem e aproveitou a recente mudança para a Espanha para treinar nos Pirineus.

Para uma turma que não tinha a especificidade das grandes montanhas nem muita experiência, a brasileirada mandou muito bem. Dos 15, somente quatro não conseguiram terminar seus percursos - média superior às das provas, que têm de 40 a 50% de abandono. E duas mulheres (sim, foram elas) subiram ao pódio. Cristina de Carvalho conquistou um impressionante 7º lugar feminino na disputadíssima UTMB, em que competem as mais fortes corredoras de montanha do mundo, e fechou a volta do Mont Blanc em 33h23min13s (a campeã, Krissy Moehl, bateu o recorde feminino com 24h56min01s e foi a 11ª colocada na classificação geral). Fernanda Maciel venceu a TDS em 17h17min43s, mais de 20 minutos à frente da segunda colocada.

COM EXCEÇÃO DO "REINCIDENTE" Tani e de mim, ninguém sabia mensurar direito o tamanho das pedreiras (sem metáfora) que estavam prestes a enfrentar. Conheciam os números, mas era difícil transferi-los para a realidade - ou você, sem nunca ter feito nada parecido, consegue imaginar o que é subir nove montanhas de mais de 2 mil metros, com até 12% de inclinação, em 166 quilômetros, sob temperaturas que variam dos 25º C durante o dia ao 0º C nas duas noites de prova?

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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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