VER UM FALCÃO MERGULHAR de um penhasco de 750 metros de altura é lindo. Presenciar um homem correr até a beirada de um precipício e jogar seu corpo sem asas no vazio é de dar frio na barriga. Primatas não foram projetados para fazer uma coisa dessas, mas nem tente dizer isso a Ted Davenport, 28 anos. Quando esse nativo de Aspen, estado do Colorado (EUA), começou a fazer base jump há alguns anos, ele descobriu qual era seu destino nesta vida. "Sempre quis voar. Adoro tudo que tem a ver com o ar", explica Davenport, que também é campeão de esqui.
Nesta manhã de inverno no oeste de Colorado, meus cabelos são jogados no meu rosto por um vento de 40 quilômetros por hora. Estamos no topo de uma elevação de terra que Ted chama de Hotel W, por causa da forma da sombra que suas valas formam na superfície do penhasco. Davenport e seis amigos estão na beira do precipício, com as mãos nos bolsos, sem conseguir ficar parados. Os caras estão apreensivos - alguns mais que outros.
Esses sete amigos, a maioria dos quais vive perto de Denver, capital do Colorado, fazem muita coisa doida juntos, como ir até o deserto de Moab, no estado de Utah, para pular em cânions, fazer enormes fogueiras e praticar tiro ao prato, ou saltar do topo de hotéis em Denver e tentar escapar da polícia. Mas não foi para observar seus saltos e sim seus cérebros que vim para cá. O que faz uma pessoa querer pular de um penhasco e outra querer ficar em casa assistindo tevê?
"Fazer coisas estúpidas e perigosas faz parte de nossa genética do mesmo jeito que cabelos ruivos e gosto por amendoins"
Mesmo entre praticantes de esportes de aventura, pergunto por que alguns hesitam na hora H e outros não? Nos últimos cinco anos - e em especial no ano passado -, os cientistas têm usado imagiologia médica de alta tecnologia, neuroquímica avançada e até mesmo videogames para encontrar a resposta para esta questão. Desse modo, estão abrindo uma janela para um dos traços mais misteriosos da humanidade: o modo como ouvimos o chamado para a aventura.
No topo do penhasco, Collin Scott, 34, tenta acender um medidor de vento - na verdade um papel enrolado que ele vai jogar no abismo. Mas Ted não quer esperar a medição. "Está ventando pra caralho", avalia. E, virando-se para Matt Hecker, 24, diz: "Coloca seu equipamento, seu maricas". Ted não diria a mesma coisa para os outros, mas sabe que Matt tem a mesma experiência que ele e curte a mesma visão de mundo: a do chão se aproximando a uma velocidade terminal.
Ted coloca um capacete e um paraquedas, enfia um rádio walkie-talkie em um bolso da calça e uma garrafa de água no outro. Após sorrir para a foto, ele me pede para mandála para sua família, caso seja esta a última imagem antes de sua morte, e dá uma bela gargalhada. Depois, ele fica sério, faz uma pausa de um segundo, caminha ligeiro até a beirada e se lança no ar de barriga.
Alguns segundos depois, seu paraquedas se abre e ele pousa suavemente no lado rochoso de uma ravina. A galera no topo se debruça sobre o rádio. A voz de Ted surge em meio aos chiados, como se estivesse a quilômetros de distância. Ele vai direto ao assunto. "Não vou mentir para vocês", diz. "A turbulência está jogando para tudo quanto é lado. Mantenham distância do paredão. Aqui embaixo não tem vento nenhum. Animal!"
Collin balança a cabeça. "Tomei uma decisão", diz. "Não vou saltar." Ele é vendedor de software, e o único com uma aliança no dedo. Peter Konrad, um piloto de 34 anos que até pouco tempo trabalhava para uma empresa de telecomunicações de Denver, concorda. Peter sofreu um acidente de carro há apenas três semanas e os pontos em sua testa ainda estão vermelhos. O empreendedor imobiliário de Denver chamado Kevin Cochran também não pretende fazer o salto. Então tem gente nessa turma com algum juízo, afinal de contas.
Mas os outros não desistem. O próximo a saltar é Jacob Fuerst, um ex-fuzileiro naval de 25 anos que, após sete meses no Iraque, encontrou um pouco de paz saltando de lugares altos e tirando fotos, às vezes os dois ao mesmo tempo. Depois Matt, sem perder mais tempo, joga-se no vazio. Três anos atrás ele ficou 16 dias em coma depois que seu paraglider se enroscou em Boulder, também no Colorado, mas isso não parece ter diminuído seu ritmo. Jeremy Puhal, 30, quer saltar, mas está esperando uma calmaria no vento que não chega nunca. Finalmente, ele balança seus braços gelados, corre até o precipício e sai voando.
Quem pula de lugares fixos para o vazio já deve estar acostumado a fazer esse tipo de coisa maluca. Ted calcula que já foi parar no prontosocorro umas 30 vezes, de uma queda na aula de ginástica aos cinco anos de idade até sérias fraturas sofridas esquiando. Quando era criança, Collin costumava pular com um guarda-chuva da casa na árvore que havia em seu quintal. No verão passado, Peter e dois amigos penduraram um sofácama em um balão. "A gente testou antes para ter certeza que não ia se enrolar", explicou, como se isso resolvesse o problema. Eles se deitaram em travesseiros a 1.650 metros de altura e depois pularam da cama.
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