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NA BRAÇADA: Ana Satila rema para a vitória, de olho nas Olimpíadas de Londres |
ELA COMEÇOU A REMAR HÁ TRÊS ANOS. É pouco, muito pouco, ainda mais se você tivesse só 10 anos de idade em 2006. Mas a mato-grossense Ana Satila Vargas, de Primavera do Leste, a 340 quilômetros de Cuiabá, é destaque de toda competição de que participa. Aos 13 anos, ela é a atual campeã da categoria Sênior - leia-se adulto - de canoagem slalom, modalidade olímpica praticada com caiaques ou canoas em águas rápidas, em percursos que variam entre 250 e 300 metros, definidos por "portas", que o canoísta deve percorrer sem faltas e no menor tempo possível.
Foi o que Ana fez em sua primeira vez numa competição de grande porte, o Campeonato Brasileiro de Canoagem Slalom, realizado em Três Coroas, no Rio Grande do Sul, no fim do ano passado. A jovem conquistou uma marca excelente na somatória de suas descidas nas corredeiras do rio Paranhana, que exige um alto nível técnico dos atletas. Com apenas 12 anos de idade e dois de treinamento, ela chegou com o tempo total de 243,57 segundos, apenas 18,71% a mais que o melhor tempo da competição, obtido pelo campeão brasileiro Gustavo Selbach, um dos melhores atletas da história da modalidade no Brasil. Surpreso? Nós também. É o melhor percentual da história feminina na canoagem slalom em campeonatos brasileiros. "Agora, com mais incentivo e mais treinamento, certamente Ana evoluirá ainda mais", diz Darci Oberdan, presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso. "Encontramos um talento que precisamos saber trabalhar, principalmente na questão psicológica, porque técnica e fisicamente ela está num caminho eficaz", completa Argos Rodrigues, superintende da Confederação Brasileira de Canoagem.
Motivo de orgulho para a família, a cidade - ela desfilou em carro aberto quando voltou da sua primeira conquista no Brasileiro - e a Federação de Canoagem de Mato Grosso, Ana tem uma rotina puxada. Ela acorda todo dia, menos no domingo, às 4h30. Toma o café da manhã e é levada pelo pai, Cláudio, e o treinador, Romoaldo Junior, até o rio das Mortes, de corredeiras violentas, ou até a lagoa. Esse primeiro treino de remadas técnicas vai das 5h as 6h30. Ana então vai pra escola, onde cursa a 7a série e é celebridade. Das 11 horas ao meio-dia, ela faz relaxamento com o pai na piscina do clube onde se interessou pelo remo. "Meu pai nadava ali. Eu vi uma aula de remo e gostei", conta ela. "No começo, não saía do lugar, capotava, mas fui pegando o jeito. Comecei numa competição municipal com 10 anos e fiquei em 4º lugar. Depois fiz um estadual, e dois anos depois o Brasileiro. Escolhi o slalom por causa da velocidade, das corredeiras. É mais divertido."
Após a natação, Ana almoça e estuda até as 16h. Então vem mais um treino de remadas, na lagoa ou rio, dessa vez com tiros de 2 minutos, até as 18h. De lá, vai pra academia, onde corre na esteira por 15 minutos e faz musculação. Duas horas depois, é hora de jantar e dormir. "Ana já chegou num nível avançado porque o pai a treinava na natação", diz Romoaldo. "O jeito que ela segurava o remo, a intimidade que possuía com a água... Ela já chegou muito forte. O que a fez se destacar foi a estrutura familiar e o apoio do município."
Quando Ana se interessou pela canoagem, o município de Primavera do Leste contava apenas com o voluntariado de Romoaldo como professor de remo para meia dúzia de alunos. "Hoje temos infraestrutura e 18 alunos, todos equipados", orgulha-se o treinador. Primavera do Leste sediou inclusive a disputa da 1ª etapa da Copa Brasil de Canoagem Slalom, em abril. "Pena que só disputo uma prova por mês. Às vezes, fico quatro meses sem competir", resmunga Ana, cujo objetivo é estar na Olimpíada de Londres, em 2012, quando já terá idade para participar de provas internacionais.