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  SKATE
  Outra arma
Há seis anos, o australiano Oliver Percovich foi morar no Afeganistão. Numa tarde, saiu para dar um rolê de skate pelas ruas de Cabul e acabou transformando - para melhor - a vida de muitas crianças e adolescentes afegãos

(MARIO MELE)

FOTOS MAX HENNINGER
ALUNO APLICADO: o afegão Shams Razi começou como aluno, e hoje é um dos instrutores da skateistan

OS MESMOS PRINCIPAIS JORNAIS MUNDIAIS - como o norte-americano The New York Times, o inglês The Guardian e o australiano The Age - que publicam diariamente notícias do Afeganistão ligadas à invasão norte- americana, principalmente depois da queda das Torres Gêmeas, em 2001, deram recentemente espaço em suas páginas para outro assunto sobre o país da Ásia central: o skate. E o responsável por radicalizar, no bom sentido, as ruas da capital Cabul é Oliver Percovich, um australiano de 34 anos que foi parar por acaso no país no começo de 2007, e hoje vem promovendo o esporte entre as crianças e os adolescentes do país.

Acompanhando sua namorada que fora transferida a trabalho para lá, um dia Oliver resolveu pegar o skate que havia levado na bagagem e sair às ruas para se divertir, como fazia há 28 anos, enquanto não conseguia arrumar um emprego. Em poucos minutos, o australiano se viu cercado de crianças, que perguntavam insistentemente "o que é isso, o que é isso?". "Os meninos e as meninas me pediam para dar uma volta e não se intimidavam com os tombos", conta Oliver. "Comecei a achar que ensiná-los a andar de skate poderia ser uma boa forma de interação". Não demorou até ele ter a ideia de montar uma escola de skate, que atualmente atende crianças e adolescentes, de quatro a 17 anos.

Batizada de Skateistan - uma junção de "skate" com "Afghanistan", Afeganistão, em inglês -, a escola ainda não tem estrutura física. Por enquanto, as aulas são ministradas numa grande fonte de concreto desativada, construída na época da invasão soviética, nos anos de 1980. Mas, recentemente, Oliver e sua equipe promoveram um leilão on-line de shapes de skate pintados por artistas mundialmente renomados, como o dinamarquês Leif Sylvester e o norte-americano Todd James, para angariar fundos para a nova sede. A seguir, Oliver conta como foi o começo do projeto, as barreiras de estar num país islâmico - as meninas, por exemplo, são obrigadas a parar de praticar o esporte depois de completarem 12 anos - e os planos para construir a primeira pista de skate do Afeganistão.

GO OUTSIDE: Você foi a primeira pessoa a andar de skate em Cabul?
Oliver Percovich: Eu conheci uns caras que tiveram skate na década de 1980, comprados na Europa, mas eles andavam somente dentro dos condomínios em que moravam.

E essas crianças e adolescentes que hoje andam de skate conheciam o esporte antes da Skateistan?
Algumas já tinham visto na televisão. Eles sabem quem são Danny Way, Renton Millar ou Bob Burnquist? As crianças afegãs ainda não fazem a menor ideia de quem são essas pessoas. Nós não estamos introduzindo a cultura do skate do ocidente. Estamos apenas levando a modalidade para eles criarem seus próprios costumes nesse esporte. Os jovens daqui estão procurando uma nova identidade, e talvez o skate os ajude a encontrar.

Foi difícil conseguir uma permissão para abrir uma escola de skate aí?
Ainda não arrecadamos dinheiro suficiente para a construção de uma escola, portanto nossas aulas são informais e acontecem no subúrbio, nos bairros de Macrorayan e Wazir Akbar Khan, num orfanato e num circo infantil, respectivamente.

Quantas pessoas compõem hoje a equipe da Skateistan?
São três pessoas além de mim: o australiano Max Henninger, que é nosso assessor de imprensa, mais dois afegãos, Shams Razi, que cuida da logística e é o nosso tradutor, e Mirwais Mohsen, que atualiza nosso site e blog, trabalhando de casa e do escritório. Todos são também instrutores de skate. Da Austrália, Sharna Nolan, a cofundadora da Skateistan, é nossa conselheira. Ela recruta voluntários e redige propostas. Alexandra Bald, de Berlim, na Alemanha, é nossa designer. Temos também representantes que apresentam a Skateistan para órgãos públicos e marcas em busca de patrocínio na Austrália, Estados Unidos, Inglaterra, Noruega, Dinamarca, Alemanha, República Tcheca e Áustria.

Você acredita que a Skateistan ajuda a mudar a imagem ligada à guerra que os ocidentais têm do Afeganistão?
Se você vê apenas imagens de moleques carregando lança-foguete nos ombros, pode ter a impressão de que todas as crianças afegãs são terroristas. Mas crianças afegãs são iguais às crianças de qualquer outro lugar do mundo. O que acontece com menos de 1% da população pode estar manchando a imagem da maioria dos cidadãos, que quer apenas levar a vida em paz. As imagens divulgadas de nosso trabalho certamente ajudarão a desfazer essa concepção equivocada.

Você já teve algum tipo de problema com os pais dessas crianças?
Nunca ouvi nenhuma reclamação, mas mesmo assim sei que alguns pais não aprovam a ideia. E não entendo as razões para isso. Nós não temos, por exemplo, nenhuma aluna com mais de 12 anos, pois a partir dessa idade as meninas são proibidas de praticar esportes com os meninos. Tínhamos uma aluna que parou de andar depois que completou 13 anos. Ela ainda aparece por lá, mas coberta da cabeça aos pés, e agora diz que não se interessa mais por skate.

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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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