Publicidade
 
 
GoOutside
 
  ok
 
 
Imprimir
   
  PROZAC
  Felicidade Interna Bruta
Com seu incrível dedão, Eric Hansen pega carona pela Islândia pós-crise durante a escuridão do inverno e descobre nativos estranhamente empolgados

FOTO CATHERINE KARNOW/CORBIS
CALOR HUMANO: Garotas numa das piscinas térmicas naturais perto de Reykjavik, capital da Islândia

"QUÃO FELIZ VOCÊ ESTÁ este ano, numa escala de zero a 10, sendo que 10 é muito feliz e zero é... sem grana para comer?" Eram três da tarde de quarta-feira, 17 de dezembro, no extremo sudeste da Islândia. Um grupo de pôneis islandeses estavam parados, mudos, num pasto encravado entre o ancoradouro de Höfn e a vasta e nevoada geleira Vatnajökull. O branco vibrante de suas crinas se destacava sobre um fundo de nuvens esbranquiçadas e rodopiantes. Nos últimos três dias eu não estive deitado nas águas quentes das famosas termas islandesas ou passeando nas geleiras. Eu estive pegando carona. Em tempo integral, o dia inteiro.

Todas as quatro horas do dia. Começando logo no limite da cidade de Reykjavík, peguei caronas no sentido antihorário na Rodovia 1, esperando atravessar todos os 1.335 quilômetros do anel viário que circula a ilha, em uma semana. No caminho, eu perguntava a todo mundo que encontrava a mesma questão a respeito da felicidade.

O mais feliz até agora era o Joey, fazendeiro de ovelhas, com 9. O menos feliz, com 6,5, era um encanador desempregado chamado Gylfi. No começo, as caronas vinham doces e regulares como notas em uma canção de Gershwin, mas aqui, a 320 quilômetros de Reyky, apenas um caminhão basculante ou outro passavam pelo meu caminho. "Vou tomar seu silêncio como sendo felizes", disse aos pôneis. "Um dez. Tão felizes que até perderam a fala". Logo, um microscópico 4x4 encostou na estrada de duas faixas, parando ao lado das minhas malas.

Dele, saíram Gorducho e Magrelo. "Gódan daginn", gritei. Gorducho era Peter e Magrelo era Krispin. Ambos eram monges capuchinhos a caminho de volta de uma sessão de "renovação espiritual" na capital. Sem esperar, mandei a pergunta da felicidade. "Dez", disse Krispin. "A vida é bela". Como mágica, Krispin materializou charutos cubanos. As janelas se fecharam e nos dirigimos para o norte numa caixa quente durante quatro horas, passando por manadas de renas soltas e o imenso e vasto cenário de fiordes.

A CADA POUCOS ANOS, pesquisadores de organizações como o Pew Research Center fazem o que eu fiz - bom, provavelmente sem os charutos - e pesquisam uma vasta faixa dessa bagunça chamada humanidade, para descobrir quais nações são as mais felizes. Norteamericanos como eu estão perseguindo a felicidade, mas parece que não somos tão bons nisso. Nos últimos 50 anos, nossos níveis de felicidade permaneceram inalterados.

O país mais rico do mundo, os Estados Unidos, não está nem nos 15 mais. Por outro lado, a Islândia tem consistentemente aparecido como um dos lugares mais felizes sob o sol - ou sob as nuvens, no caso. As 300 mil almas nesta pequena e árida ilha no meio do tempestuoso Atlântico Norte ficam à frente dos irlandeses, dos brasileiros e até dos italianos que vivem la dolce vita. Pelo menos até o ano passado. Em outubro, a Islândia implodiu.

Depois da evaporação do crédito internacional, os três bancos nacionais faliram, incapazes de garantir os depósitos nas agências espalhadas pela Europa. Os britânicos responderam com piadas - Qual é a capital da Islândia? A capital eu não sei, mas o capital deve ser £6,50! - e depois declararam o país como terrorista, e congelaram seus bens até que os ingleses tivessem seu dinheiro de volta.

Com rumores circulando de que a Rússia iria comprálos, os islandeses engoliram o sapo e aceitaram o empréstimo de 2,1 bilhões de dólares do FMI. Enquanto isso, construções pararam no meio, aposentadorias e pensões foram interrompidas e houve um alarmante aumento no desemprego e na inflação.

"A Islândia está quebrada", concluiu um artigo da revista norteamericana Time, "mas tem aquecimento geotérmico, então pelo menos ninguém vai morrer de frio". De repente a Islândia se tornou um campo de provas da felicidade. Como eles estavam aguentando? Será que a bancarrota amargou os ânimos da nação? Eu decidi ir até lá e descobrir.

Eu não fazia ideia de como os islandeses responderiam para um ianque xereta, mas eu esperava encontrá-los felizes. E, à medida que a economia dos Estados Unidos entrava mais e mais na recessão, eu também esperava, talvez muito inocentemente, descobrir algumas fórmulas.

PASSEI OS PRIMEIROS dois dias em Reykjavík, "colocando meu dedo no pulso da cidade" - por exemplo, enchendo a cara em bares enquanto entrevistava o pessoal da moda. A pequena capital parecia estar ok. Num shopping cheio de gente, um artista vestindo calças prateadas cantava para as crianças enquanto os pais faziam compras. Várias Range Rovers da época das vacas gordas (agora apelidados de "Game Overs") continuavam rodando pelas ruas.

E, às cinco da manhã de domingo, lindas mulheres com seus vestidos de noite ainda cambaleavam para fora dos bares para vomitar nas ruas nevadas. Mas nem tudo estava como deveria. Um amigo fotógrafo teve seu fi- nanciamento congelado. Ninguém estava tirando férias no Caribe. E na tarde de sábado, uns mil manifestantes reuniram-se em frente do prédio do parlamento com faixas onde se lia "não à corrupção".

Uma hora depois, eles largaram as faixas e empurraram seus carrinhos de bebê para encontrar seus amigos nos cafés. Apesar da ira demonstrada nas ruas - que em janeiro levou ao pedido de demissão do Primeiro Ministro Geir Haarde -, as pessoas pareciam suficientemente felizes. A média estava em 7,5, incluindo respostas de mesa de bar, que iam de 5 a 9,4, às vezes vindas de uma mesma pessoa.

Depois da crise, a Islândia parecia um campo de provas de felicidade. Como é que eles estavam segurando a onda?

Botei o pé na estrada na segunda-feira, quando um amigo me deixou num posto de gasolina ermo, 25 quilômetros a sudeste da cidade. Aqueci meus jeans úmidos no secador de mãos do banheiro e lá fui eu. O motorista de uma van vermelha que abastecia fez um sinal para que eu subisse. "Ég heiti Eric", eu disse, no que acreditava ser islandês perfeito. "Meu nome é Lalli", respondeu, desculpando-se por seu inglês, que era perfeito.

Ziguezagueamos por montanhas nevadas. Enorme carpinteiro de fala macia, da quarta geração de uma família de carpinteiros, Lalli disse que "qualquer um pode ser um carpinteiro, mas um bom carpinteiro consegue corrigir os erros". Sem nenhum contexto, fiz a pergunta da felicidade.

Ele sorriu, ficou pensativo e se deu conta de que eu o estava filmando a 60 centímetros de distância, mirando minha câmera na sua cara como um lança mísseis de ombro. "Comigo está tudo bem", disse, com jeito de estar muito desconfortável.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>

   
  Imprimir
   
 
Edição nº 54 - Novembro/09
 
Sumário atual Anteriores Estilo Radar Destino Especial Reportagens Notícias
 
Newsletter
  Cadastre-se e receba nossas novidades.
 
 
Ok
 
 
   
 
Contato
Contato Assine Publicidade Expediente Indique o site
 
 
Rocky Mountain Editora
Copyright © 2008 - Editora Rocky Mountain Ltda. - Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.
powered by ContentStuff