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    A rota dos cabritos
Turistas esquiadores vão em massa para a tradicional Haute Route da França ou da Suíça. Mas ROB STORY e seus colegas queriam mais. Então eles pegaram seus esquis e subiram, desceram e se irritaram através dos Alpes mais ocidentais - com uma ajudazinha de 59 teleféricos e do já falecido jornalista gonzo norte-americano Hunter S. Thompson

TRIO: Rob Story, B.J. Brewer e Lance McDonald em Geneva

VOCÊ SENTIU?", perguntou Lance franzindo o cenho, com os olhos arregalados por trás da máscara de esqui e o rabo de cavalo chicoteando com o vento. "O quê?", perguntei, atento apenas à minha dificultosa respiração, centenas de metros acima da mais alta área de esqui dos Alpes, Val Thorens. "Eletricidade estática!" gritou Lance, apontando os esquis que estavam presos à minha mochila, formando um A sobre minhas costas. "Ela está se movendo entre os seus esquis. Preste atenção e vai ouvir o chiado". O céu de abril já estava negro e arremessava raios sobre os picos ao redor. Estamos agarrados às pedras logo abaixo dos 3.560 metros do cume da Aiguille de Peclet, esperando conseguir escalar a aresta afiada e descer a geleira do outro lado. Mas não se isso significar brincar de mosca com o matador de insetos atmosférico hipercarregado.

O zumbido soa como bacon fritando. Nossos parceiros, Lee e Beej, chegam ao nosso poleiro, seguidos por dois praticantes de snowboard belgas. Depois de uma hora de skinning (técnica em que se usam tiras grudadas embaixo dos esquis que permitem subir pela encosta de neve sem escorregar de volta para baixo; antigamente eram utilizadas tiras de pele de foca, mas atualmente as peles são sintéticas, apesar de manterem o mesmo nome) mais 15 minutos de caminhada montanha acima, ninguém tem vontade de ser prudente e voltar atrás. Um dos belgas tira um baseado da jaqueta e acende. "Alguém quer fumar?", oferece. Um silêncio se instala.

Os alpinistas que normalmente assombram a Peclet - profissionais rigorosamente treinados pela Associação Internacional das Federações de Guias de Montanhas (IFMGA) e seus clientes - nem sonhariam em dar um tapinha. Tínhamos que levar o protocolo em consideração. Além disso, eu preciso de um tempo para liberar meus dedos da luva. Como diz o ditado francês, Quand les choses deviennent bizarres, les bizarres deviennent professionnels. Ou "quando as coisas ficam bizarras, os bizarros viram profissionais".

Descemos hesitantes, arrastando os esquis - o que os esquiadores chamam de curvas de sobrevivência - até chegarmos a uma rampa de neve afofada pelo sol. Soltamos os freios e rasgamos curvas gigantes, flutuando em nossos esquis sobre moléculas de água, surfando e esquiando ao mesmo tempo

ESTE É O LEMA da nossa viagem, uma travessia de 15 dias e 320 quilômetros por três países (mas principalmente na França), que na maior parte do tempo está sendo feita esquiando fora da pista e autoguiando através dos picos mais altos dos Alpes. Carregando apenas os esquis e o que quer que caiba dentro de nossas mochilas de 55 litros, estamos cruzando uma das regiões mais montanhosas da França: o antigo ducado da Saboia, atualmente dividido em dois départements, Savoie e Haute-Savoie. Depois de pegarmos um trem para Grenoble, no sudeste da França, e cruzarmos para Savoie do alto da estação de esqui Les Deux Alpes, nos dirigiremos para o norte, antes de desviar para a Itália, passar pelo Mont Blanc e terminar onde o Haute-Savoie faz fronteira com a Suíça.

Apesar de algumas curtas caronas ligarem alguns pontos, a travessia será feita principalmente pela neve. No alto das montanhas, encontraremos uma congregação medonha de pedras e gelo, com zero árvore para ajudar a navegação em meio aos frequentes nevoeiros. A configuração de 360 graus encontrada na maioria das estações de esqui europeias significa neve afetada pelo sol e normalmente instável (durante 2005 e 2006, avalanches mataram 57 pessoas só nos Alpes franceses). É por isso que apenas os profissionais da IFMGA - que sabem diferenciar as encostas nevadas esquiáveis das assassinas, além de ter noções de primeiros socorros na montanha e saber falar alguns dialetos - são legalmente qualifi- cados a guiar nas geleiras europeias. Mas os guias profissionais têm seus inconvenientes.

Como cobrar pelo serviço, por exemplo. E resmungar. E, ah, não curtir os momentos. Melhor é gastar a verba que temos nos mapas do Instituto Geográfico Nacional da França, que não fica pedindo gorjeta. O único especialista de montanha que queremos é o falecido morador de Aspen, Hunter S. Thompson, que nos agraciou com seu lema, quand les choses...

"É HORA DE LEVAR a porca para um passeio", grunhiu Lance, colocando sua mochila nos ombros. Nossas bolsas estão tão estufadas - pesam 18 a 20 quilos - que tivemos de andar no vagão cargueiro do trem de Genebra a Grenoble. É o primeiro dia em Les Deux Alpes, nosso ponto de partida.O L2A é uma autêntica megaestação francesa: quase 2 mil metros verticais, morenas lindas e incrivelmente bronzeadas e salgados de cafeteria que parecem ser de frango, mas que na verdade são de coelho.

Caminhamos 20 minutos na fronteira de Savoie até La Grave - ou, segundo os norte-americanos paranoicos que imaginaram ter descoberto o lugar no começo dos anos 1990, Vallée X -, lar das encostas mais verticais e assustadoras da Europa. Sem cidadezinhas, boates ou patrulha de esqui, La Grave segue sendo um burgo cheirando a esterco, com 2 mil metros verticais de terreno rústico, não tratado, sem espaço para iniciantes. Infelizmente, a sombra chega a La Grave algumas horas antes de nós. A neve úmida de primavera já se havia transformado em um quebradiço arrecife de corais de gelo. Esquiar sobre esse terreno faz com que nossos dentes se pareçam com castanholas.

Mas estamos acostumados aos revezes do montanhismo. Eu participei de todo tipo de expedições com meu velho amigo Lee Cohen, fotógrafo, de 50 anos, que passou os últimos 30 atacando as encostas de Alta, em Utah (EUA). O nativo de Utah, B.J. "Beej" Brewer, de 30 anos, venceu o campeonato nacional de esqui telemark (modalidade em que o calcanhar da bota fica solto do esqui, para facilitar caminhar com o esqui por áreas fora de pista) em 2001 e é patrocinado pela marca Rossignol; nós esquiamos juntos nos Alpes suíços dois anos atrás.

E Lance McDonald, de 45 anos, que trabalha num emprego comum para o governo da cidade de Telluride, no estado do Colorado (onde eu vivo), mesmo assim consegue tempo para esquiar várias grandes montanhas. A pouca neve que La Grave tem termina bem antes do fundo do vale, e nos últimos 90 minutos deslizamos por uma estradinha lamacenta. Uma escorregada me faz derrapar 10 metros abaixo, por uma lama melequenta que mais se parece com milk-shake de chocolate.

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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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