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  VELA
  Maré cheia
A regata volvo ocean race é a corrida de aventura da vela: oito barcos tentam resistir, durante nove meses, no limite dos esforços - físico, estratégico e psicológico - e navegando para dar a volta ao mundo mais rápido que seus adversários. e é Torben Grael quem lidera o pelotão

(MARIO MELE)

A 22 MÃOS: A tripulação do Ericsson 4 trabalha para aproveitar as boas rajadas

A tripulação do Ericsson 4 administrava com cuidados os riscos de sustentar uma velocidade média de 45 quilômetros por hora durante tanto tempo. "O casco desses barcos é achatado, parece uma prancha. Eles são projetados para andar a favor do vento. Ao pegar um mar agitado, com o vento contrário, há sempre o risco de alguma peça se soltar devido às pancadas nas ondas", explica Torben. Isso não aconteceu durante o recorde de singradura, mas sim em janeiro, durante a quarta etapa da Volvo Ocean Race, quando uma forte tempestade, acompanhada por ondas enormes e rajadas de ventos de até 40 nós, atingiram a flotilha. Ao saírem de Cingapura rumo à China pelo estreito de Malaca, a principal passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico, o mau tempo não teve dó dos veleiros Telefonica Black, Ericsson 3 e Delta Lloyd, que por pouco não naufragaram.

Eles tiveram rachaduras violentas no casco e foram obrigados a abandonar a etapa. O Ericsson 4, de Torben, teve um pedaço do convés arrancado e por pouco não teve o mesmo destino. Através do blog mantido por sua equipe, a Ericsson Race Team, Torben informava as baixas: eles tinham perdido as comunicações por radar e AIS (aparelho que fornece dados preciosos sobre os navios que trafegam em determinada área), e diversas velas já começavam a se desmantelar. Para completar, a descarga do banheiro estava com problemas. O Ericsson 4 terminou o trecho em terceiro, e só chegou à China graças ao "curativo" feito pelo timoneiro Horácio Carabelli, que tapou o estrago parafusando duas chapas de fibra de carbono que foram levadas para serem usadas em ocasiões como essa. "Se o barco eventualmente afunda, só os outros adversários podem te socorrer, já que há lugares que estão longe de qualquer rota de navegação", explica.

SEGURANÇA: O proeiro Phil Jameson checa o cabo de aço que prende o mastro; abaixo, sorriso a bordo, um sinal de que as coisas vão bem

TORBEN SE JUNTOU AO ERICSSON 4 somente quando faltavam alguns meses para o início da regata. "O comandante norte-americano que tinha sido escalado inicialmente abandonou o navio de última hora e me chamaram", conta Torben. Ele aceitou o convite, exigindo apenas levar Horácio Carabelli consigo. "Trata-se de uma pessoa primordial a bordo. Além de nossa amizade e entrosamento, ele é um velejador com uma habilidade incrível e um engenheiro naval que conhece toda a parte de construção e regulagem do barco".

Ter ao lado uma pessoa de confiança é fundamental nos momentos difíceis da regata. Aos 41 anos, Horácio já ganhou títulos mundiais júnior, na classe snipe, e velejou na olimpíada de Seul, em 1988. Na edição passada da Volvo Ocean Race, ele não só foi um membro da tripulação como também o responsável pela coordenação técnica do projeto do barco Brasil 1. Pergunto a Torben se em algum momento da Volvo Ocean Race ele teve medo. Afinal, são várias semanas sem pisar, ou mesmo ver, um pedaço de terra.

Sem contar o desafio que é manobrar um veleiro nos cabos Horn e da Boa Esperança, onde o fim de diversas expedições experientes já foi decretado bem antes da hora. "Meu maior receio é de que aconteça algum acidente, porque tudo no barco está preso com muita tensão, e se alguma coisa arrebentar, pode machucar um tripulante seriamente", diz ele, não se demonstrando muito preocupado em ter o convés atingido por um mau tempo extremo.

Torben participa de regatas expedicionárias (a modalidade endurance da vela) e olímpicas (as que mais exigem força e técnica), há mais de três décadas. Com isso, testemunhou o crescimento profissional de seu esporte pelo mundo. "O Robert [Scheidt], que é da geração um pouco mais nova que a minha, viveu outra fase. Ele costumava participar de todos os campeonatos de laser que tinham pelo mundo, que eram vários num mesmo ano". Torben acredita que essa especialização seja uma tendência moderna não só nos esportes, mas em qualquer área. "Um cara é especialista em ortopedia de mão, outro em coração, e assim vai", tenta justificar. Para ele, o lado positivo foi ter adquirido um conhecimento extremamente amplo.

E, como vem demonstrando nesta regata, ele talvez hoje seja mesmo a pessoa mais indicada para extrair a velocidade máxima de um veleiro, seja qual for a classe e tamanho. Em terra, Torben é de poucas palavras. Não gosta de olhar o passado com tanta empolgação e nem se acha dono de marcas insuperáveis. "Quem diria que depois do Emerson Fittipaldi viria o Nelson Piquet, e depois ainda o Ayrton Senna?", compara-se, sem falsa modéstia.

Na água, ele ainda está sedento por conquistas. "Não ganhei uma volta ao mundo e nem uma America's Cup", enumera. A primeira delas pode estar esperando-o no porto de São Petersburgo (Rússia), onde as 37.125 milhas náuticas (cerca de 68.760 quilômetros) da Volvo Ocean Race 2008- 09 serão finalmente concluídas, no fim de junho. Até lá, só isso é capaz de lhe tirar a tranquilidade.

[Até o fechamento desta matéria, o Ericsson 4 seguia na liderança da Volvo Ocean Race, logo após a conclusão da sexta etapa, em Boston (EUA), abrindo 13 pontos em relação ao segundo colocado, o veleiro espanhol Telefonica Blue. Acompanhe as atualizações em volvooceanrace.org.]

Leia mais na edição de maio de Go Outside

 

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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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