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  VELA
  Maré cheia
A regata volvo ocean race é a corrida de aventura da vela: oito barcos tentam resistir, durante nove meses, no limite dos esforços - físico, estratégico e psicológico - e navegando para dar a volta ao mundo mais rápido que seus adversários. e é Torben Grael quem lidera o pelotão

(MARIO MELE)

FECHOU O TEMPO: A flotilha larga para a etapa entre Cingapura e Qingdao, na China, a mais conturbada da regata até agora

TORBEN GRAEL ESTÁ EM TERRA FIRME, mais precisamente na Marina da Glória, um dos principais portos marítimos do Rio Janeiro, escolhido como a metade da Volvo Ocean Race - a mais competitiva regata de volta ao mundo dos dias atuais. E ele parece excepcionalmente tranqüilo para quem está há seis meses no meio de uma disputa movida pelos desejos do vento, pela tecnologia dos barcos e pela técnica das equipes.

A regata largou dia 11 de outubro de Alicante, na Espanha, e ainda tem muito mar pela frente: faltam 9.425 milhas náuticas (17.455 km) até a chegada, em junho, em São Petersburgo (Rússia). De mochila nas costas, vestindo camiseta pólo e calças azuis (uniforme oficial do Ericsson 4, veleiro que ele capitaneia nesta regata), Torben caminha entre os alojamentos que foram especialmente montados para receber as sete tripulações que ainda seguem na disputa (das oito que começaram). Mas o maior colecionador de medalhas da história do iatismo olímpico não consegue dar mais do que dez passos sem ter que corresponder a alguma saudação.

Mesmo que seja apenas para comentar como o dia amanheceu bom, todos querem iniciar uma conversa com Torben. Um homem que já passou por tantas marés deve ter mesmo muita história pra contar. De 1984 a 2004, ele participou de todas as seis olimpíadas, e durante esses vinte anos conquistou cinco medalhas, sendo quatro na classe star (duas de ouro e duas de bronze) e uma na classe soling (prata). É também tetracampeão mundial - três vezes competindo na classe snipe e uma vez na star - além de já ter participado de regatas tradicionalíssimas como a Sydney Hobart, de 63 anos de existência, e a America's Cup, uma das mais prestigiadas competições de veleiros do mundo, que acontece desde 1851. A regata de volta ao mundo acontece a cada três anos desde 1973, mas a partir desta edição será bianual. Em 2001, ela deixou de se chamar Whitbread Round the World Race e se tornou a Volvo Ocean Race. Torben fez sua estreia na regata passada, o que lhe deixou no mar durante alguns meses entre 2005 e 2006.

À bordo do Brasil 1, que contava com o trabalho de velejadores de cinco países, ele ficou em terceiro lugar nessa primeira participação. "O barco holandês que ganhou tinha vantagens de projeto e design que o tornavam mais veloz. Portanto, não havia muito que fazer", lembra. A quebra do mastro do Brasil 1 o impediu de brigar pela segunda colocação. Desta vez no comando do barco sueco Ericsson 4, Torben só foca a vitória. A consagração máxima nesta Volvo Ocean Race seria mais um bilhante item a ser acrescentado ao seu currículo. No entanto, vencendo ou não, ele já é considerado um dos velejadores mais ativos e versáteis do planeta. O Ericsson 4 parece estar correspondendo bem às expectativas do capitão Torben e de sua tripulação, que conta com o brasileiro João Signorini e o uruguaio radicado no Brasil, Horácio Carabelli, além de cinco velejadores neozelandeses, dois ingleses e um australiano.

Após a chegada no Rio de Janeiro, eles mantiveram a primeira colocação geral da regata, mesmo tendo terminado a etapa em segundo. Depois de enfrentar, por quarenta dias, a perna mais longa da regata, que saiu de Qingdao, na China, atravessou o oceano Pacífico, dobrou o cabo Horn, no extremo sul das Américas, e finalmente subiu pela costa brasileira, Torben atracou na Marina da Glória há pouco mais de uma semana. É por ali que ainda vejo ele distribuir os últimos cumprimentos a velejadores e fãs antes de finalmente chegar ao refeitório da Ericsson, um provisório e enorme salão de vidro totalmente climatizado onde aconteceria esta entrevista.

Com a barba devidamente feita e o cabelo bem aparado, Torben já não exibe mais o visual "Robson Crusoé" de quando chegou. E, se não fosse pelas mãos extremamente ressecadas e calejadas, sintomas do trabalho árduo no convés, puxando cabos e controlando o timão, daria para achar que ele passou o último mês se energizando no resort de alguma ilha paradisíaca do Pacífico, bem longe de uma regata tão dura e estafante como essa.

CONTINÊNCIA: Depois de 40 dias consecutivos em alto mar, o comandante Torben Grael desembarcou no Rio de Janeiro e conseguiu relaxar um pouco quando soube que seu barco ainda se mantinha na liderança da regata

"SOU MAIS QUIETO NA TERRA DO QUE NO MAR", disparou de primeira, logo depois de ser questionado sobre o estilo caladão pelo qual geralmente é lembrado. "Porque num barco tem que haver uma hierarquia, um comando, e é lógico que alguém tem que tomar decisões", completa. Além do bom desempenho do barco, que tem que ser leve, este tipo de competição exige soluções rápidas e táticas.

O trabalho a bordo é ininterrupto, e a tripulação se reveza para dormir por poucas horas sempre que pode. Resumindo, a regata volta ao mundo é uma competição em que se dorme pouco, come-se mal e trabalhase sempre, por quase nove meses. "Não levo nem livro na bagagem porque é pesado", explica Torben. A habilidade e a capacidade da tripulação de lidar com situações imprevisíveis são constantemente postas em xeque. E, na maioria das vezes, o que determina o sucesso ou o fracasso de um barco é a sensibilidade de saber quando e o quanto acelerar, para conseguir o melhor do equipamento sem arriscar-se a ter problemas com ele.

"Essa é a principal técnica que um velejador olímpico tem que aprender caso queira disputar uma regata longa. Na raia olímpica, é comum exigir o máximo do veleiro o tempo inteiro. Raramente você tem que maneirar", compara. Nas regatas longas, a leveza excessiva pode significar um barco frágil demais para agüentar meses de mares revoltos. Mas não adianta exagerar na resistência do barco. "Numa volta ao mundo, um veleiro fórmula 1 inquebrável também não cruzaria a linha de chegada em primeiro lugar". Em outras palavras, é praticamente impossível ter um barco veloz e imune às avarias ao mesmo tempo.

Resta ao capitão e aos projetistas achar o tênue meio-termo entre esses dois extremos. Para o espectador que acompanha a Volvo Ocean Race, talvez seja difícil acreditar que um veleiro de 70 pés (21,3 metros) fique com o casco frágil como uma casca de ovo quando o mar se irrita. Ainda mais sabendo que, no 18º dia de competição, o Ericsson 4 não só assumiu a liderança da regata, como quebrou o recorde de singradura. Ou seja, num período de 24 horas, o barco completou a maior distância já percorrida nesta prova: 598 milhas náuticas, o que equivale a 1.080 quilômetros. "Na verdade, não foi um, e sim três dias consecutivos velejando nesse ritmo", Torben faz questão de corrigir.

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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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