Manter o corpo em atividade por longos períodos, suportar variações de temperatura, aguentar pressão psicológica e saber trabalhar em equipe são habilidades imprescindíveis para os esportistas de longa duração. Mas há uma outra categoria que também depende dessas capacidades, só que profissionalmente: os bombeiros. O bombeiro é a única pessoa capacitada a atender casos de desabamentos, incêndios, acidentes de carro e enchentes. Em muitas dessas situações, ele tem de fazer até o atendimento pré-hospitalar. Autoridade máxima nas situações de maior risco, ele tem a missão de proteger a vida, o meio ambiente e o patrimônio, sempre zelando pela sua segurança e a das vítimas. E, para isso, assim como os corredores e esportistas de aventura, o bombeiro precisa de força, resistência física e mental, e conhecimento técnico.
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RELAX: Robyn, à esquerda, se diverte com as colegas de profissão |
O uso de habilidades semelhantes faz com que as sensações e as experiências vividas por bombeiros e esportistas de endurance sejam muito parecidas. Inclusive alguns atletas encontraram nessa profissão - a mais sonhada pelos garotos, depois da carreira de jogador de futebol - a chance de trabalhar usando seu preparo físico e psicológico, aprimorando conhecimentos técnicos e ajudando pessoas. "Trouxe a experiência adquirida ao longo da minha vida esportiva para o curso, e isso me ajudou a superar os treinamentos físicos e as situações de estresse", conta o recém-formado soldado Carlos Alberto Passini. Antes de decidir ser bombeiro, Cacá competiu em provas de aventura com mais de 500 quilômetros, completou um IronMan, disputou uma prova de 24 horas de corrida, nadou 25 quilômetros em águas abertas, pedalou de São Paulo à Bolívia e escalou montanhas de mais de 5 mil metros. "Entrei para o corpo de bombeiros porque é um serviço com que me identifico. É muito gratificante, depois de um dia de trabalho, você perceber que fez a diferença", declara.
A inspiração da norte-americana Robyn Benincasa, 45, corredora de aventura há 14 anos, para se tornar bombeira veio justamente do prazer em viver no ambiente ao ar livre. Depois de ser dispensada de um trabalho na área de vendas, Robyn optou por seguir o caminho do fogo há 10 anos e comemora. "Foi a melhor coisa que podia acontecer na minha vida, porque me fez perceber que meu trabalho deveria combinar com meu estilo de vida". Robyn é de San Diego, Califórnia (EUA), e entre os momentos mais marcantes de sua vida como bombeira está o combate a um incêndio nas florestas ao redor da cidade, em 2008. Robyn esteve no Brasil para três edições do Ecomotion PRO (2005, 2006 e 2008), sendo sempre a capitã da sua equipe, que disputou as primeiras colocações nos três anos.
Trocar a farda por uma camiseta de prova é o caminho oposto, mas que não tem nada de contramão. Depois de suarem a camiseta pelo menos duas vezes por semana nas aulas de educação física durante o curso básico, um bombeiro já formado tem a obrigação de treinar no mínimo uma hora por dia, no quartel que integra, para garantir que estará sempre apto a suportar a exigência física de uma ocorrência. Muitos treinam também nos horários de folga, de olho em competições, como as provas de natação e de corrida da corporação, travessias aquáticas abertas ao público, corridas de rua e triathlons.
Do ponto de vista psicológico, a disciplina e a concentração adquiridas no treinamento de traços militares, mais a capacidade de manter a calma mesmo nas situações mais estressantes são habilidades que os bombeiros levam para as provas longas. Afinal, disputar uma competição como o IronMan significa passar em média 11 horas gerenciando dores e administrando esforços para cruzar a chegada. "Durante a prova, chego a me sentir em uma ocorrência. Penso na segurança e tenho cuidado para não machucar a mim e aos outros na água. Durante a bike, procuro não me desgastar demais para o restante da prova. Também tenho que equilibrar a alimentação e vencer o cansaço. Cruzar o pórtico é como ver a expressão de tranquilidade de uma vítima salva por um bombeiro", explica, sorriso no rosto, o tenente Miguel Jodas, bombeiro há 14 anos que disputará seu terceiro IronMan em maio.
Os bombeiros que optam pelas provas de aventura levam também na bagagem conhecimentos específicos valiosos. Nas competições mais técnicas, as habilidades adquiridas, por exemplo, durante o curso de altura - montar uma pedaleira, realizar um autorresgate ou saber fazer uma ascensão sem desperdiçar energia - representam uma vantagem significativa. "Já utilizei muito meus conhecimentos técnicos de altura nas provas de aventura. Mas acredito na soma das valências do bombeiro. Ele tem conhecimentos de navegação, técnicas verticais e primeiros socorros, e calma para gerenciar crises", afirma o capitão Robson Góes, 39, bombeiro há 15 anos e corredor de aventura há 10, tendo participado da primeira Expedição Mata Atlântica (EMA) em 2001 e de mais de cinco provas de mais de 500 quilômetros.
E há também o companheirismo cultivado na corporação. Um bombeiro trabalha sempre em dupla: em qualquer tipo de atividade, ele tem sempre o seu "canga" - palavra que dá nome à haste de madeira que prende os dois bois ao arado ou a um carro-de-boi, mantendo-os em sinergia. Para os bombeiros corredores de aventura Robyn e Robson, essa é a mais importante semelhança entre as provas outdoor e o trabalho de combate a incêndios. "Tanto na corrida de aventura quanto nas ocorrências, você tem de se manter em pequenos grupos por muito tempo, superando situações muito duras. É um grande exercício de convivência", diz Robyn.
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SEXO FORTE: Para Robyn, passar dias apagando incêndio fica mais fácil com sua experiência em provas longas |
PARA SE TORNAR SOLDADO do Corpo de Bombeiros, Cacá Passini passou por um curso básico de policiamento militar de seis meses, e depois se inscreveu para o concurso do Corpo de Bombeiros. Engenheiro civil, ele teve facilidade nos testes de matemática, passou por entrevista, exames psicotécnico e médico, e tirou nota máxima no teste físico. Durante os quatro meses de treinamento integral, Cacá morou no Centro de Ensino e Instrução dos Bombeiros (CEIB), a maior escola de bombeiros da América Latina, que fica em Franco da Rocha e tem recursos para simular, com realismo pleno, as situações enfrentadas pelos bombeiros.
Como 70% dos chamados é para atendimentos pré-hospitalares, metade das quase 500 horas de curso é investida em aulas para esse tipo de socorro e de combate a incêndio. Os futuros bombeiros têm aulas teóricas e práticas de funções dos órgãos, anatomia, uso de desfibriladores, principais lesões por acidentes automobilísticos, e até partos. Já nas aulas práticas de combate a incêndio, eles aprendem o procedimento correto para conter o fogo. "Não é só jogar água. Tem técnica para a aproximação: deve-se levar em conta a direção do vento, localizar o foco do incêndio e fazer a extinção com segurança", explica o sargento Paulo Ricardo dos Santos, instrutor do curso, que tem em seu currículo o socorro ao acidente com um avião da TAM em frente ao aeroporto de Congonhas (SP), em julho de 2007.
" JÁ UTILIZEI MUITO MEUS CONHECIMENTOS TÉCNICOS DE ALTURA NAS PROVAS DE AVENTURA. ACREDITO NA SOMA DAS VALENCIAS DO BOMBEIRO. ELE TEM CONHECIMENTOS DE NAVEGAÇAO, TÉCNICAS VERTICAIS E PRIMEIROS SOCORROS, E CALMA PARA GERENCIAR CRISES " ,
AFIRMA O CAPITAO ROBSON GÓES |
A equipe da Go Outside presenciou uma simulação de combate a incêndio no curso para sargentos comandado por Ricardo. Munidos dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI) - capacete, capa, calça, luvas, botas -, quatro homens dividiam-se em duas mangueiras e eram orientados pelo Chefe da Guarnição, figura que fica no meio das duas duplas e determina o posicionamento de cada um durante a ocorrência. Nessa simulação, o combate era ao incêndio de um carro em chamas. Em casos de ambiente fechados, onde há fumaça, é preciso usar também o Equipamento de Proteção Respiratória (EPR) - máscara, cilindro de ar comprimido e suporte para o cilindro, e o bombeiro chega a carregar 25 quilos de equipamento preso ao corpo.
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