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    Dúvida: Será que um surfista reescreveu a física?

Por Evan Ratcliff Fotos Dan Winters

CABEÇA: Garrett Lisi em Tahoe, EUA, com um modelo da partícula E8

ATÉ MESMO PARA UM OBSERVADOR leigo como eu, há várias peculiaridades óbvias na vida e no trabalho de Garrett Lisi. Por exemplo, apesar de ter 40 anos e ser ph.D. em teoria da física, teve poucos empregos fixos - e esses poucos foram de guia de caminhada ou instrutor de snowboard. Aventureiro que tem seus momentos de maior felicidade quando está descendo ondas ou montanhas nevadas, a rotina de Garrett é passar as manhãs surfando ou praticando snowboard, e as tardes debruçado sobre seu notebook, quebrando a cabeça com matemática de alto nível. E isso ele faz levando uma vida sem raízes e ascética, dormindo em sofás, trabalhando como caseiro ou vivendo numa van estacionada perto das ondas de Maui, no Havaí.

Mas o mais peculiar de tudo é que ele está sentado na sala de jantar de sua última casa emprestada, com vista para o lago Tahoe, explicando-me que não será o próximo Albert Einstein. Só alguém muito arrogante ou iludido seria capaz de se comparar ao antigo examinador de patentes de cabelos desgrenhados. Mas Garrett não parece ser nem um, nem outro. Ele parece "bem normal", diz John Baez, matemático da Universidade da Califórnia (a UCLA, nos EUA). "O que não é exatamente comum dentre as pessoas que tentam desvendar os mistérios da física."

Em 2007, Garrett publicou um artigo acadêmico chamado "An Exceptionally Simple Theory of Everything" (Uma Excepcionalmente Simples Teoria Sobre Tudo) no arxiv.org, um site para cientistas que é mantido pela Universidade Cornell (EUA) - baixe o artigo no http://arxiv.org/abs/0711.0770. O artigo citava sua tentativa de criar uma teoria que colocaria toda a física do universo em um pacote organizado. Por meio século, pesquisadores procuraram reconciliar a gravidade com as três forças que atuam dentro dos átomos, onde a gravidade parece não exercer a menor influência (veja em "O guia da física incompreensível para idiotas", na página 98.) Ninguém - nem mesmo Einstein, que passou seus últimos anos de vida tentando - conseguiu explicar como essas quatro forças coexistem.

Para entender completamente a tentativa de Garrett de resolver o dilema, é necessário que se tenha um conhecimento de matemática bem além do que a maioria dos mortais tem, mas a premissa básica é que todas as forças físicas e partículas podem ser explicadas por meio de seu mapeamento em uma estrutura geométrica complicadíssima, conhecido como E8. Se Garrett estiver certo, sua teoria daria uma aparência muito elegante à física do cosmos, e o E8 se tornaria tão significativo quanto o E=MC2. Isto seria um fato notável vindo de qualquer um dos físicos mais conhecidos. Vindo de um surfista vagabundo, seria mais do que extraordinário.

Garrett começou apresentando sua teoria em conferências em 2007 e muitos físicos respeitados acharam-na interessante e até plausível. Então ele publicou o artigo, esperando comentários. Com isso, desencadeou uma perigosa onda de aplausos e críticas, difícil de dropar. "Brother surfista chama a atenção de físicos com a Teoria de Tudo", alardeou o jornal inglês London's Telegraph. A Discover Magazine perguntou: "Poderá um surfista ser o novo Einstein?".

Neste meio-tempo, mais do que meia dúzia de físicos recorreu aos blogs para criticar sua ideia. "Uma grande piada", um disse. "Sem nexo", disse outro. Alguns buscaram o supremo insulto científico: "aloprado". Críticos mais minuciosos argumentaram que o modelo E8 não acomodaria todas as partículas do universo.

Apesar de ter seus difamadores, Garrett também tem fãs, aqueles que aceitam a ideia de que ainda é possível que exista um gênio independente da física. "Eu e algumas outras pessoas achamos que o mundo acadêmico sofre por não ser mais inclusivo com pessoas desse tipo", diz Lee Smolin, pesquisador muito respeitado do Instituto Perimeter de Física Teórica, baseado em Waterloo, Canadá, que tem se correspondido com Garrett. "Não estamos falando de um aloprado. Ele é ph.D. por um bom programa e seu trabalho está dentro dos parâmetros de uma boa pesquisa".

O burburinho ainda está quente quando encontro Garrett em Tahoe. Ele me recebe calçando um par de pantufas de pata de urso e tem uma aparência de surfista, com ombros e pescoço largos. Faz pouco tempo que ele começou a raspar o cabelo, para se livrar do que restava dos cabelos louros. Talvez por isso tem a tendência de, enquanto pensa, esfregar a cabeça - e ele tem tido muito em que pensar nesses últimos tempos.

Garrett sabe que, só de tocar no assunto de se comparar a Einstein, corre o risco de parecer um louco, mas muitas pessoas usaram o nome do santo cientista para que Garrett o ignorasse totalmente. "Tá bom, sou um cara que trabalha em física fora do meio acadêmico", diz, esfregando suas patas de urso no carpete de madeira. "Mas eu não chego nem aos pés do Einstein. Nem pelo que eu consegui e também porque esta teoria pode estar errada. Não é uma comparação justa".

Não é nada incomum em Garrett declarar que ele pode estar equivocado. Afinal, apenas uma grande representação teórica da realidade pode estar correta - e ser matematicamente consistente e experimentalmente validada perante o mundo real. Todo o resto são rabiscos em papel. O que é realmente peculiar é que este vagabundo científico, um homem que abandonou a segurança da vida acadêmica para arriscar-se como um físico nômade, tenha qualquer possibilidade de estar correto.

"Tento fazer o resto da minha vida ser tão bom que, mesmo que as teorias
físicas não funcionem, elas não terão sido perda de tempo"

GARRETT CRESCEU EM SAN DIEGO (Califórnia, EUA), alternando entre dropar ondas e "nerdear". Quando moleque, diz, "minha mãe nunca conseguia me tirar da praia", mas quando chegou à adolescência, no começo dos anos 1980, ele havia trocado o mar por um Apple II, programando e desenhando videogames em seu quarto. Quando fez 16 anos, seu pai, um advogado de família e sucessões, lhe deu uma velha perua VW, e Garrett voltou à praia e passou a dedicar seu corpo ao surf e sua mente à busca da ciência.

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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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