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DESAPEGO: Pasquale se barbeia em pleno rio Omo, na Etiópia
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CIDADÃO: O documento de identidade de Pasquale na Etiópia |
PASQUALE SCATURRO VIVE UMA VIDA DUPLA. Cara grandalhão, tosco, passional e desbocado, de sobrenome siciliano, Scaturro é um geofísico de explorações que viaja o mundo prospectando reservas de petróleo. Esta é a personalidade mercenária de Pasquale, um papel que o levou a localidades inóspitas como Ogaden, a área devastada e sem lei entre a Etiópia e a Somália, e à antiga república soviética da Geórgia, que ele chama de Capital Mundial do Sequestro. O trabalho pode ser perigoso - ele precisou de proteção militar nos dois serviços - e é bem recompensado por isso. Recentemente recebeu seu brevê e está de olho num Cessna 206. Sua casa nos arredores de Denver (Colorado, EUA) está quitada. Ele possui um rancho de 14 mil hectares na Namíbia, onde mantém um Land Rover equipado para safáris. Está no pico de sua condição física, tem um casamento feliz, três filhos adultos de um casamento anterior, cinco netos e um amplo círculo de amigos e contatos ao redor do mundo. A vida é boa.
Mas também é curta, como ele costuma comentar, e, aos 54 anos - ponto no qual outros estão tentados a diminuir o ritmo -, Pasquale tem um relógio interno do Juízo Final que corre como se não houvesse o amanhã. "Ele tem essa história do tempo correndo", conta sua esposa Kim. "Não é como uma crise de meia--idade, mas ele sabe que o corpo vai começar a bater pino em algum momento". Antes que isso aconteça, parece que seu objetivo é acumular o máximo de experiências possível - nos moldes de seus heróis do século 19, os exploradores do rio Nilo Samuel Baker e Richard Francis Burton.
O hobby de Pasquale, que parece estar se transformando em uma segunda carreira de período integral, é organizar e liderar expedições extremas, das do tipo muito longas, desafiadoras, remotas, logisticamente complicadas ou nunca antes realizadas - algumas vezes com todas as características citadas. Ele intitulou seu negócio de Exploration Specialists International (Especialistas da Exploração Internacional), que engloba quase tudo que ele faz, por diversão e por dinheiro. Trabalhar 25% do seu tempo como geofísico permite que ele gaste os outros 75% alimentando sua vontade de correr o mundo. Ele esteve no Everest três vezes e chegou ao cume em sua segunda tentativa, em 1998. Em 2001, ele liderou uma equipe grande na montanha, com o principal objetivo de colocar o primeiro escalador cego, Erik Weihenmayer, no cume. Pasquale se viu obrigado a dar meia- -volta aos 8.300 metros devido a uma recaída de malária, que ele tinha contraído na África. Mas Weihenmayer fez o cume e voltou vivo, juntamente com seus 19 companheiros de equipe, inclusive Sherman Bull, de 64 anos, o montanhista mais velho a chegar ao topo do Everest, na época.
Três anos mais tarde, em 2004, ele se tornou uma celebridade da aventura quando duas produtoras de filmes IMAX (filmes com formato e resolução maiores que a de filmes padrões de cinema) o recrutaram para liderar uma expedição com o audacioso objetivo de navegar o Nilo Azul desde a nascente nas montanhas da Etiópia até o mar Mediterrâneo, uma jornada sem precedentes de aproximadamente 5.600 quilômetros. Bandidos assassinaram algumas pessoas em expedições anteriores, e as corredeiras ferozes nas gargantas mais altas do rio tomaram algumas outras vidas. Mas foi a duração da viagem (114 dias), em especial as passagens desertas através do Sudão e do Egito, que apresentaram os maiores desafios. O produtor Greg MacGillivray estava certo de que a monotonia venceria Pasquale e Gordon Brown, o cameraman da expedição.
"Qualquer mortal comum daria meia-volta de puro tédio", diz Greg. "Mas Pasquale nunca perdeu o pique. Ele continuava em frente. Ele disse que o faria por mim, por Gordon. Eu não conheço ninguém além dele que conseguiria superar esse desafio". Greg coloca Pasquale num grupo de aventureiros de elite, junto com o superalpinista Ed Viesturs e o oceanógrafo Robert Ballard, que encontrou o naufrágio do Titanic. "Pasquale é dessas pessoas que aceita desafios quase impossíveis e vai além deles", diz Greg. "Se fosse fácil, ele não estaria interessado".
O papel principal em Mystery of the Nile (Mistério do Nilo) impulsionou Pasquale a uma órbita glamurosa e agitada. Greg se tornou diretor de The Alps (Os Alpes), um documentário também em IMAX de 2007 sobre o escalador John Harlin e sua tentativa de escalar a face norte do Eiger, a perigosa parede de rocha que tomou a vida de seu pai. De volta ao lar, Pasquale se viu supersolicitado como palestrante.
Dinheiro alto mesmo veio bater à sua porta quando um grupo de investimento perguntou se ele estaria interessado em prospectar petróleo na Nigéria, Líbia e Curdistão. "Curdistão?", torceu o nariz. "Você quer dizer norte do Iraque? Em outras palavras, você quer que eu trabalhe em um dos três lugares mais ferrados do mundo?". Ele respondeu "muito obrigado", mas tinha mais o que fazer.
COMO LÍDER, PASQUALE PODE SER ARROGANTE E BOCA SUJA, LANÇANDO SUAS ORDENS COM XINGAMENTOS QUE FARIAM UM GÂNGSTER FICAR COM VERGONHA. EM SEU PONTO DE VISTA, UMA EQUIPE DE EXPEDIÇÃO TEM APENAS UM TOMADOR DE DECISÕES - ELE MESMO
A saber: ele pretendia era descer o Omo, na Etiópia, com seus colegas de rafting do rio Colorado. De acordo com o que Pasquale havia planejado, a expedição teria oito pessoas e dois botes. Eles permaneceriam umas duas semanas no rio, numa corredeira que ele já havia descido duas vezes, em 1994 e 2001. Mas como é típico dele, Pasquale propôs que atracassem os botes na parte baixa do rio e fizessem um trekking de 96 quilômetros cruzando o platô Boma até o sul do Sudão - uma região que ele chama de "talvez a última área selvagem da África". Depois disso, eles seguiriam até onde o Omo termina, no lago Turkana, Quênia. A jornada teria aproximadamente 960 quilômetros.
Sul do Sudão? Uma área invadida por armas automáticas, onde uma longa guerra civil terminou recentemente? Não se preocupe, disse Pasquale. Ele havia organizado um acompanhamento militar. "Um coronel do Exército de Libertação do Povo do Sudão vai nos encontrar na fronteira. Cara, você tem que vir".