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FANTASMA: Joe Papp em estrada perto da cidade de Pittsburg (Pensilvânia, EUA), onde mora |
A imagem não poderia ser mais medonha - havia armas visíveis na foto. Joe Papp, ex-ciclista profissional que eu havia entrevistado fazia apenas dez dias, me enviara uma foto tirada dentro do seu quarto, com seu BlackBerry. A imagem mostrava sua mesa, um despertador, livros, um frasco de creme para as unhas e as armas de fogo: um rifle tipo Kalashnikov e uma pistola 9mm nova em folha.
Em setembro de 2007, quando voltei do estado da Pensilvânia (EUA) depois de ter passado um tempo com Joe nos arredores da cidade de Pittsburgh, era óbvio que o atleta com então 33 anos estava com problemas. Ele me mostrara vídeos que havia feito, escondido, de seus ex-companheiros de equipe usando drogas para aumento do desempenho - imagens que ele chamava de sua "apólice de seguro". Ele me contou de sua esposa cubana, também uma ciclista talentosa, que havia acabado de dar à luz seu filho, mas não conseguia fugir de Cuba e ir para os Estados Unidos. Banido do ciclismo, morando com a mãe e com pouco dinheiro, Joe sofria com a perspectiva de ter de conseguir um emprego emburrecedor para continuar autossuficiente.
"A vida é dura", disse. "Será que estou no purgatório? Será que é aqui que eu deveria chegar?"
Menos de um ano antes, em 2006, Joe vivia o sonho de qualquer ciclista: ele fazia parte de uma sólida equipe europeia da segunda divisão, que competia em lugares como Itália, Turquia e Brasil. Para manter aquela vida, ele tomava a poção mágica das drogas para aumento do desempenho, que mascaravam tudo. Ela o deixou mais rápido, mas também quase o matou. "Foi como vender a alma ao diabo, mas você viu as fotos da vida que eu levava na Toscana", disse, referindo-se à região em que morava na Itália.
Quando Papp foi pego, tentou se redimir com uma corajosa confissão pública durante um importante julgamento por doping: a audiência em maio de 2007, em Malibu, na Califórnia, a respeito da suposta utilização de testosterona por Floyd Landis no Tour de France de 2006. Mas a confissão acabou sendo uma nova catástrofe, só aumentando a fama de Joe de trapaceiro.
E então chegou o e-mail de Papp, numa noite no fim de setembro de 2007. Ele me dizia que havia uma vez "visualizado o suicídio", e que os eventos o estavam levando a isso. Dois dias antes de eu receber sua mensagem, agentes do Drug Enforcement Administration (Administração do Controle de Drogas) haviam feito uma busca na casa de subúrbio da mãe de Joe, Marie. Ele declarara que não fazia ideia do que os agentes queriam e que já havia dito aos oficiais do controle de drogas tudo o que sabia a respeito do submundo do doping. Aparentemente o DEA achou que Joe sabia mais, e não relutava em pressioná-lo. Foi isso que o fez enviar aquele e-mail de alarme. "Eu não vou para a bosta da cadeia", me disse ao telefone. "Não por causa do ciclismo".
HÁ APENAS DOIS ANOS, Joe Papp era um alegre ciclista profissional, que passava pedalando pelos fãs italianos e seus sininhos. Sua equipe, a Partizan- -Whistle, era baseada na cidade toscana de Montecatini Terme, e ainda havia o plano de trazer sua esposa, Yuliet Rodríguez Jiménez, ex-integrante da equipe nacional cubana de ciclismo, para ficar ao seu lado.
Mas então ele foi pego e forçado a prestar contas a várias autoridades, que agora controlavam sua vida. Contando tudo, ele esperava limpar sua consciência e sua imagem. Desde então, ele foi muito além das breves confissões padrão feitas por ciclistas suspeitos, e liberou informações que só um profundo conhecedor poderia oferecer sobre a disponibilidade, efeitos e perigos das drogas para aumento do desempenho.
Apesar de Joe nunca der dado uma única pedalada no Tour de France, seu exemplo é importante, pois mostra que as drogas não são exclusivas de poucos atletas de ponta querendo vencer nos níveis mais altos do ciclismo mundial. Talvez mais importante, a história de Joe ilustra por que ciclistas que são pegos por doping nem sempre abrem o jogo, mesmo diante de provas esmagadoras. Falar a verdade geralmente traz mais problemas que soluções para um ciclista, e confessores perdem o emprego, vitórias, reputação, identidade e até amigos.
O resultado disso é que são poucos os ciclistas que falam. Quatro anos depois de o mountain biker francês Jerome Chotti vencer o Campeonato Mundial de Cross-Country, em 1996, ele voluntariamente admitiu ter usado doping e devolveu seu título. Sua recompensa: condenação e suspensão. O conhecido escocês David Millar confessou sob pressão policial o uso de doping em 2004, perdeu o título mundial de corrida contra-relógio e embebedou-se no ostracismo até a sua volta em 2006. Patrik Sinkewitz, ciclista profissional alemão que correu em 2007 pelo esquadrão T-Mobile (agora conhecida como equipe High Road), foi pego no fim do ano e imediatamente expulso pela sua equipe e seus colegas. "Era como se eu não existisse mais", disse à revista alemã Der Spiegel.
Façamos uma comparação dessas experiências com aquelas de ciclistas profissionais que foram pegos, mas negaram tudo: as duas maiores estrelas norte-americanas que foram acusadas, Tyler Hamilton e Floyd Landis, fizeram enormes esforços para limpar seus nomes, a despeito de fortes evidências de terem se dopado. Sem sombra de dúvida, ambos foram imensamente prejudicados. Hamilton agora pedala na norte-americana Rock Racing, controversa equipe que talvez nunca seja convidada para o Tour. E Landis teve seu título do Tour 2006 confiscado pelos organizadores da corrida, depois de os dirigentes, alinhados à United States Anti-Doping Agency (Agência Norte-Americana Antidoping, a Usada), manterem a acusação de que Landis testou positivo para uso de testosterona suplementar durante a corrida. Mas ele voltou a correr em fevereiro de 2009, no Tour de Califórnia, depois de cumprir a suspensão de dois anos. Culpados ou inocentes, eles continuam a proclamar sua inocência, enquanto aproveitam a silenciosa aprovação dos colegas profissionais, muitos deles admirando o fato de nunca terem aberto o bico.
"Esta é uma das grandes ironias do ciclismo atual", diz Greg LeMond, três vezes campeão do Tour de France e nem um pouco amigo de Landis, a quem acusou de fazer uso de drogas para aumento de desempenho. "Aqueles que confessam não são os que têm ética e moral?"
E há Joe que, quando pego, fez confissões sob juramento as quais nenhum outro ciclista norte-americano fizera. Claro, ele estava encurralado. Mas independentemente das razões da confissão, as evidências de que as declarações arruinaram sua vida pessoal e profissional são inegáveis. Seus colegas profissionais não falam mais com ele, e as chances de que ele volte a competir profissionalmente são mínimas. Mas os pequenos - aqueles ciclistas de recreação e fãs -, esses são os críticos mais ácidos. Meses após a confissão, Joe ainda recebia e-mails dizendo como ele é desprezível, seja por trair um ciclista como Landis ou, mais frequentemente, simplesmente por admitir que ele usara drogas.
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JOGO ABERTO: Depois de contar tudo na audiência de Floyd Landis, Joe passou a ser visto como trapaceiro |
"Se houver uma forma de lembrar quão odiosa foi a sua atitude, vou continuar te lembrando, seja pelos 19 meses ou 19 anos adiante", escreveu uma pessoa no começo do ano passado. "Sua falta de caráter vai te seguir pelo resto da sua vida. Mesmo que ela seja encurtada pelas porcarias que você en- fiou no seu corpo."