Publicidade
 
GoOutside
 
  ok
 
 
Imprimir
   
    Volta por cima
Quase 15 anos após o genocídio, de repente a pequena Ruanda, na África, é um quente destino de aventura, a nova queridinha de investidores multinacionais e, segundo a lenda do Mountain Bike Tom Ritchey, está a uma bicicleta de distância de uma volta triunfal

POR JASON GAY FOTOS RYAN HEFFERNAN

EXPECTATIVA: Corredor ruandês antes da largada da Wooden Bike Classic

AQUI ESTÁ O BARATO SOBRE A CORRIDA de bicicletas Wooden Bike Classic (Bicicletas Clássicas de Madeira), em Ruanda: ela não é na realidade uma corrida de bicicletas. Bom, até tem bicicletas. Ou quase. Elas parecem saídas da idade da pedra, esculpidas a partir de árvores de eucalipto, com rodas bamboleantes de madeira, guidões de madeira, uma plataforma de madeira para apoiar os pés, e um selim de madeira cheio de farpas, do qual quem quer ter um filho algum dia deveria manter distância. Parece que foram roubadas da garagem dos Flintstones e, embora venham sendo empurradas por Ruanda há mais tempo que as pessoas lembrem - transportando bananas, chá, café, feijão, mangas, laranjas, galinhas, cabras, porcos e o que mais der parar carregar - ninguém havia pensado em fazer uma corrida com elas até Tom Ritchey pedalar na cidade.

Ritchey - um construtor de bikes de 51 anos do norte da Califórnia (EUA), esguio e equipado com um bigode enorme que parece um guidão - viajou para Ruanda pela primeira vez em 2005, para curtir o que ele chama de "uma ótima crise de meia-idade". Ex-competidor e responsável pela construção de alguns dos primeiros quadros leves de mountain bike dos anos 1980, Ritchey ficou fascinado pelas bikes de madeira espalhadas pelo interior montanhoso do país, que não tem saída para o mar. Não existem duas exatamente iguais, e ele ficou impressionado com as inovações que viu: freios de mãos que usam tiras de borracha de pneus gastos, rolamentos de metal tirados de carros velhos, latas de alumínio transformadas em refletores. Eram máquinas magníficas. E então, sendo norte-americano, pensou na hora "ei, vamos apostar corrida".

PRA CIMA: Agricultura de terraço na Terra dos Mil Morros, como Ruanda é conhecida

E foi assim que eu cheguei aqui, em uma manhã úmida de setembro, na poeirenta cidade universitária de Butare, na largada da primeira Wooden Bike Classic 2007, ao lado de uns 100 ruandeses, muitos dos quais moleques adolescentes descalços, e uma dúzia de norte-americanos malucos, incluindo Ritchey, que está realizando uma inspeção pré-competição. Os ruandeses não conhecem Ritchey pelo nome, mas eles imaginam que o "cara branco numa bermuda azul-marinho" deva ser o cara no comando, e abrem caminho enquanto ele passa a mão em seus frágeis guidões e rodas. Ritchey para diante de um jovem magricela com um quadro de madeira quebrado na mão direita e um conjunto de rodas na esquerda.

"Não, não, nãããão, cara", diz com seu arrastado sotaque californiano. "Você não pode correr com ela. Tem que correr nela". O moleque não faz ideia do que ele está dizendo, mas alguém lhe explica em kinyarwanda, a língua da região: "você não pode empurrar a bicicleta, cara. Você tem que subir nela". O corredor rejeitado se afasta.

"Tom ficou impressionado com as inovações que viu: freios de mãos que usam tiras de borracha de pneus gastos, rolamentos de metal tirados de carros velhos, latas de alumínio transformadas em refletores"

Ritchey, que agora está na linha da largada, agita os braços como um louco enquanto explica a um ruandês o jeito certo de começar uma corrida de bicicletas. "Você tem que fazer assim!", diz. "Você tem que dizer 'Atenção! Preparar! Vai!'". Ritchey ergue o punho no ar três vezes: "Atenção... Preparar... Vai!".

Ao meu redor, os competidores ruandeses estão ficando impacientes. Começam a bater palmas juntos, como jogadores de

futebol fazendo figuração em algum filme piegas. Ritchey corre para o fim do pelotão e pega uma bike alta de madeira. O cara que vai dar a largada pula e agita os braços, do jeito que Ritchey tinha explicado.

A corrida tem uma milha (1,60 quilômetro), a maior parte em estrada de terra. Sinto um quê de nervosismo quando coloco meu pé esquerdo na bicicleta e enfio o direito na terra vermelha da África.

"Estão prontoooooooos?!", pergunta o cara que vai dar a largada.

"Aprontar... Preparar..."

AH, TÁ: RUANDA. Não é exatamente um lugar para ciclismo, você deve estar pensando. Menos de uma década e meia depois do genocídio de 1994, no qual militares e militantes hutus massacraram em 100 dias cerca de 800 mil tutsis e hutus de oposição, o lugar é tão estigmatizado pelo terror e pela tragédia que, quando falei para a minha mãe para onde estava indo, ela respondeu com um único e ansioso "para quê?".

RETRATOS DE RUANDA: Em sentido horário, começando da esquerda acima, competidores na largada da Wooden Bike Classic 2007; Tom Ritchey em Burate; e a família indo para casa, perto de Ruhengeri

Para começar, ouvi falar que lá tinha uma história a ser contada sobre um minúsculo país que está saindo de uma guerra civil para se tornar um surpreendente modelo de melhoria pessoal para o continente. Havia relatos de reconciliação interna, investimentos privados internacionais e promissores sinais de turismo vindos do mundo inteiro. Mas confesso que minha principal razão era ver as bikes de madeira.

O plano era bem simples. Como explicou Ritchey pelo telefone de sua casa alguns meses antes de nossa viagem, eu me encontraria com ele e alguns de seus amigos na capital Kigali. Viajaríamos de mountain bike pelo país por alguns dias, terminando na cidade de Butare, no sul, para uma série de corridas de fim de semana, culminando com a Wooden Bike Classic.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | Próxima >>

   
  Imprimir
   
 
Edição nº 54 - Novembro/09
 
Sumário atual Anteriores Estilo Radar Destino Especial Reportagens Notícias
 
Newsletter
  Cadastre-se e receba nossas novidades.
 
 
Ok
 
 
   
 
Contato
Contato Assine Publicidade Expediente Indique o site
 
 
Rocky Mountain Editora
Copyright © 2008 - Editora Rocky Mountain Ltda. - Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.
powered by ContentStuff