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NO FIM DO NADA: Reg Lake abre caminho pelo gelo, perto do final do fiorde Calvo |
ESTÁVAMOS ENCALHADOS como o explorador Shackleton na Antártica, só que um pouco menos encrencados. Ou, pelo menos, acho que não vou entrar em pânico. Gelos são insidiosos assim mesmo. Na última hora, Reg Lake, o pioneiro californiano de corredeiras, e eu temos nos esforçado para remar na direção da costa norte do fiorde Calvo, uma extensão a leste do fiorde Peel, no Chile. Uma das entradas oceânicas mais profundas em uma costa cheia de entradas, o Peel penetra 8 quilômetros na Argentina enquanto divide em duas a calota de neve ao sul da Patagônia. Grandes glaciares azuis descem dos Andes, criando uma ilusão de altitude. Nas margens, emerge um emaranhado de lengas, típica árvore patagônica, com seus troncos e ramos curvados para o lado, rendendo-se aos fortes e constantes ventos. E, no coração do fiorde, logo acima de uma encosta — a 16 quilômetros de avião ou quase 500 quilômetros de barco — fica o glaciar Grey, que corre para o Parque Nacional Torres del Paine.
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INANIÇÃO: Reg e o autor da matéria, passando fome |
Aqui, debaixo das permanentes garoas de março, só estamos Reg e eu, em caiaques oceânicos, abrindo caminho por um labirinto de fragmentos sujos de gelo, do tamanho de bolas de tênis, que se recongelaram no que pareciam ser fantasmagóricos lençóis feitos de rapadura. Entre placas de gelo em expansão passam estreitos corredores que ou se conectam, e nesse caso fazemos progresso, ou não, e ficamos a ver navios. Estamos a 1,5 quilômetro da costa, mas, quanto mais perto chegamos, mais densos ficam os blocos de gelo. A tentação de sair andando por eles vai aumentando.
“O que você acha?”, pergunta Reg. Aos 64 anos, e ainda atlético, ele costuma encarar os problemas como uma série de fatos: ou as soluções se somam e fazem sentido, ou falham e não têm sentido. Ele estar fazendo perguntas é um mau sinal. Olho ao redor. “Acho que é hora do plano B.”
ESTAMOS VIAJANDO há pouco mais de duas semanas, com nossa exploração dos recônditos mais profundos do Peel — o braço Norte, que se estende 16 quilômetros ao norte da ilha Tilman até 21 quilômetros da Argentina, e o fiorde Calvo, que corre 13 quilômetros para leste — bancada pelo Gore-Tex Shipton-Tilman Grant, um fundo que financia expedições de aventura. Embora navios de cruzeiro naveguem pela via principal e visitem os dois primeiros glaciares do Calvo, cerca de 1,5 quilômetro fiorde adentro, o resto do Calvo e o braço Norte permanecem fora de vista: o Norte é bloqueado por estreitos de gelo, enquanto as extremidades do Calvo são tão congeladas que seria preciso um quebra-gelo para avançar mais que alguns quilômetros. Reg e eu conseguimos cruzar 10 quilômetros Calvo adentro, mas ficamos presos no caminho de volta. O vento mudou de direção, acumulando gelo ao nosso redor e à nossa frente. Forçamos uma marcha à ré com nossas embarcações e remamos até escurecer, chegando a uma praia de cascalho.
Ficamos com nossas roupas de neoprene (ficar vestido é o único jeito confiável de secar qualquer roupa) e armamos acampamento.
“Vamos cozinhar no vestíbulo hoje?”, pergunto. Está chovendo forte de novo.
“Faz sentido”, responde Reg.
“Galinha polinésia ou à la king?”
“Polinésia.” Ele deixou a refeição mais calórica para mim, apesar de ambos estarmos exaustos. Logo, os únicos sons são a chuva e a gente sugando a comida. Eu tomo uma caneca de vinho e aqueço algumas garrafas de água para esquentar nossos sacos de dormir.
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