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SALVA-VIDAS: O brasileiro Vitor Marçal, que trabalha tirando os surfi stas de Waimea, no Havaí, de seus maiores apuros |
PRÓLOGO
O celular vibra no bolso quando eu já estou dentro do táxi. "Encontrar Vitor Marçal", ele me avisava - como se fosse preciso. O motorista fi ca curioso para saber por que diabos eu mexo tanto na mochila e acabo contando pra ele que estou indo fazer uma entrevista com um brasileiro que é surfi sta, remador e salvavidas no pior lugar do mundo pra ser salva-vidas - a baía de Waimea, no Havaí. Ele me diz um "deixa eu te contar uma coisa" e eu recosto no banco porque, na mitologia urbana, taxistas e barbeiros são dotados de verdades supremas que nos são lançadas como pérolas, mas só quando fazemos por merecer. E eu não sou um cara que despreze mitologia, seja ela urbana ou não.
UM BRASILEIRO NO PICO DE EDDIE AIKAU
Dizem que o jeito mais apropriado de começar a conhecer um homem é conhecendo sua casa. No caso de Vitor Marçal, a coisa seria difícil. Faz quase 20 anos que ele mora no Havaí. Por outro lado, embora eu nunca tenha ido para o Havaí, a baía de Waimea andara povoando meu imaginário por causa do livro Eddie Would Go, de Stuart Holmes Coleman. Uma obra fascinante que conta a história de Eddie Aikau, lendário surfi sta havaiano que fez parte da primeira leva de salvavidas especialmente contratados para trabalhar em Waimea.
Uma coisa que entendi, logo de cara, é que Waimea é um sonho dentro de um sonho. É uma obra-prima esculpida pelo mar e pintada de azul no North Shore da ilha de Oahu. Por outro lado, quanto do azul daquela baía não são lágrimas de parentes das vítimas que ela fez? Deus deu ao mar o perigo e o abismo, mas em nenhuma outra parte do mundo o céu encontra melhor espelho que em Waimea.
Waimea era a praia de Eddie até o dia 17 de março de 1978, quando ele desapareceu no mar tentando buscar ajuda para um barco que naufragava. Hoje, Vitor Marçal é o cara que cuida da praia de Eddie como se ela fosse sua fi lha.
VITOR MAR+SAL
O táxi pára no lugar marcado e Alessandro Matero, o Amendoim, que foi quem intermediou o encontro, me recebe com seu sorriso largo. Amendoim coordena os treinos de canoa havaiana na raia da USP, em São Paulo. Ele e Vitor são amigos de longa data e, no começo do ano passado, foram campeões na tradicional travessia do canal que separa as ilhas de Oahu e Molokai, que é a prova mais difícil do mundo para canoa havaiana.
Sei que, às vezes, é injusto deixar-se levar pela primeira impressão, mas a que eu tive de Vitor foi muito clara. Eu estava diante de um homem capaz de falar em ações muito mais que em palavras. O olhar de Vitor é como o fundo do mar: tem uma tranqüilidade que precisa ser decifrada. É o olhar de uma pessoa que, por força da profi ssão, precisa ser calculista diante do imponderável e prever o imprevisível em decisões atualizadas segundo a segundo.
Vitor, então, me conta que isso não é exatamente tranqüilidade. Está mais para prontidão - um item obrigatório na baía de Waimea, onde qualquer vaca te joga pra baixo d'água, te mantendo lá embaixo até seus pulmões gritarem por oxigênio e a cabeça começar a trocar garrafas vazias com a mão fria da morte. Surfar em Waimea é como reverenciar o espírito ancestral do mar e essa experiência pode ser o céu, mas também pode ser o inferno. Caso seja o inferno, Vitor é sua esperança de voltar à terra.
"As pessoas gostam de provar que não têm medo do mar. Não há quem não tenha. É uma força indomável, até mesmo quando você mais tem a impressão de que está no controle. Eu tenho certo medo, mas também tenho confi ança. O medo mexe com a sua confi ança e faz você cometer erros. Aí você tem que ter autoconfi ança pra se colocar diante do que está acontecendo", diz ele. "Quando eu saí correndo da praia em direção ao mar no meu primeiro resgate, estava nervoso. Mas, a partir do momento em que toquei a água, tudo se transformou. Veio uma serenidade e fi quei tranqüilo", lembra.
Imediatamente, lembro do caso de Titus Kinimaka, que, surfando em Waimea, foi atingido por uma onda que quebrou bem na sua perna com tanta força que partiu sua prancha ao meio e descolou seu fêmur do resto do corpo. Do mesmo modo que quem entra na água é pra se molhar, quem surfa em Waimea sabe que pode se quebrar.
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