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Sangue bom A determinação de um cingapuriano, unida à força de dois ciclistas quenianos, pode colocar, pela primeira vez em 105 anos, dois negros no Tour de France
(MARIO MELE)
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A AUSÊNCIA DE ATLETAS NEGROS no ciclismo profissional é um assunto que sempre intrigou o fotógrafo e empresário de Cingapura Nicholas Leong. Talvez por isso ele seja hoje o administrador das promissoras carreiras de Zakayo Nderi e Samwel Mwangi, dois quenianos de 24 anos que se esforçam para se tornar os primeiros ciclistas negros da história do Tour de France. Em agosto deste ano - menos de um mês depois de o espanhol Carlos Sastre vencer a última edição da prova - os dois atletas africanos chegaram à França para escalar o Alpe d'Huez, um dos estágios mais difíceis da competição. O D'Huez atinge 1.860 metros de altitude e, para chegar ao seu topo, é necessário enfrentar um trajeto íngreme de 13,9 quilômetros, engrossado com 21 curvas em formato de ferradura. Apenas completar essa subida já é um desafio e tanto para atletas amadores, que vêm de todas as partes do mundo para realizá-la.
Há pouco mais de um ano, Zakayo e Samwel não faziam idéia da existência do alpe francês e, para eles, integrar uma equipe de ponta do ciclismo também não passava de um sonho. No entanto, a sorte começou a mudar quando Nicholas desembarcou no Quênia, decidido a encontrar ciclistas negros com chances de profissionalização. "Sempre tive curiosidade de saber se havia quenianos interessados em ciclismo, já que disposição física eu sabia que não era um problema para eles, acostumados aos pódios das maratonas de rua", explica Nicholas. Até hoje, o único negro que fez história no ciclismo foi o norte-americano Marshall "Major" Taylor, campeão mundial em 1899, ano em que ainda nem existia o Tour de France - a primeira edição foi disputada em 1903. Fora das pistas, Major ainda teve que vencer outro adversário de peso: o preconceito racial. "Por que não existem sinais de sequer um ciclista negro competindo nesses 105 anos de Tour de France?", questiona Nicholas, indignado. O cingapuriano quer, definitivamente, reverter essa trágica realidade. "Negros sabem, sim, pedalar", garante.
Samwel comprou sua primeira bicicleta quando tinha 16 anos. A bordo de uma precária magrela de ferro sem marchas, ele pôde, finalmente, sair de Eldoret, a cidade onde nasceu, para conhecer outras áreas do Quênia. A paixão pela modalidade foi tão grande que, antes de Nicholas apadrinhá-lo, ele já ganhava uns trocados transportando passageiros num carrinho preso à bicicleta. Nem o próprio Samwel sabe precisar quantos quilômetros já pedalou num único dia, mas o antigo emprego foi um bom treinamento: no terceiro dia na França, Samwel cravou a sexta melhor marca amadora do ano na requisitada ascensão do Alpe d'Huez.
Já a primeira vez que Zakayo ouviu a expressão "fuga" (momento no qual o ciclista se distancia do pelotão) foi muito longe de uma pista de ciclismo. Aos 8 anos de idade, ele e sua família tiveram que escapar, a pé, de um ataque incendiário realizado por uma tribo rival. O ciclismo ele conheceu somente anos depois, quando já morava, com segurança, no humilde vilarejo de Burnt Forest. Até pouco tempo, Zakayo pedalava 100 quilômetros para ir e voltar de Eldoret, onde ganhava a vida como engraxate. "Mesmo com todas as dificuldades que eu já enfrentei, nunca desisti do meu maior sonho, que é viver apenas do ciclismo", conta.
Para chegar ao alto do Alpe d'Huez, Zakayo demorou 42 minutos e 10 segundos - dois minutos menos que Samwel. Para se ter noção do feito desses quenianos, em 2004 o norte-americano Lance Armstrong completou o mesmo percurso em 39 minutos e 41 segundos, sagrando-se tetracampeão do Tour daquele ano. Caso estivesse pedalando em 2004, com o tempo deste ano, Zakayo teria terminado o estágio entre os 12 primeiros.
A dupla queniana mostrou que vontade não falta para estar entre Sastre, Lance (que volta a pedalar em 2009) e outros tops do ciclismo de estrada. "Eles já desfrutam de um nível competitivo internacional, mas ainda podem melhorar suas marcas entre 10% e 15%", avalia Nicholas, determinado a colocar pelo menos um ciclista negro no pelotão de elite. "Minha intenção não é produzir um ciclista completo, mas mostrar ao mundo que pode haver negros africanos treinando e competindo no mais alto nível", explica. Os dois atletas ainda não têm patrocínio, mas o empresário garante que diversas marcas já mostraram interesse em apoiá-los. Em 2007, o projeto de Nicholas chamou a atenção dos cineastas James Leong e Lynn Lee, que contam a saga dos ciclistas quenianos no documentário African Cyclists, previsto para ser lançado em 2009.
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