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  CHECK IN ENTREVISTA
  Brasil das águas
Esse é o nome do projeto do inglês naturalizado brasileiro Gérard Moss e da sua mulher, Margi, que já percorreram o globo de monomotor e atualmente tentam compreender melhor a influência da floresta amazônica no clima do restante do Brasil

DIVULGAÇÃO

Embora tenham passado boa parte dos últimos anos nos céus, o engenheiro e aviador Gérard Moss e a sua esposa Margi têm tido como foco os rios do Brasil. Primeiro, foram coletas de água, mais de mil delas por todo o país, que resultou em uma espécie de instantâneo dos recursos hídricos brasileiros. Em seguida, empreenderam expedições da nascente à foz, em sete rios representativos de todas as regiões do Brasil. Agora, o casal está envolvido em um projeto ousado, que coleta e analisa amostras de vapor d'água dos chamados rios voadores, que são as massas de ar que carregam vapor, no caso do Brasil, da Amazônia em direção ao sul.

A idéia é compreender melhor a influência da floresta amazônica para o clima do restante do Brasil. Em 2003, quando teve início o Brasil das Águas - nome pelo qual o projeto é conhecido -, Gérard, um inglês criado na Suíça e naturalizado brasileiro, já havia sobrevoado mais de cem países e recém terminado duas grandes aventuras: uma volta ao mundo em um avião monomotor e uma outra, inédita, a bordo de um motoplanador, espécie de planador dotado de motor. Esses vôos eram sempre feitos a uma altitude baixa o suficiente para se compreender as interferências humanas, mas alta o bastante para se ter a visão panorâmica do contexto. Tal ponto de vista trouxe-lhe uma constatação: a marca do homem está em todos os lugares. "A partir daí, fazer alguma coisa pelo planeta tornou-se quase uma obrigação para mim", conta.


O Brasil das Águas tem a ver com uma vontade pessoal de vocês de viajarem? De alguma forma une o útil ao agradável?
MARGI O Brasil das Águas nasceu como conseqüência direta das nossas viagens, mais especificamente a volta ao mundo que o Gérard fez de motoplanador. Durante aquele vôo, com baixa altitude e velocidade lenta, ele observou a situação precária dos recursos hídricos, nos países que sobrevoou. Problemas de rios secando, desvio de água para irrigação que deixava o leito seco, poluição por dejetos de mineração etc. Aí, ele começou a pensar, "como estará a situação dos rios brasileiros?". No Brasil, temos uma abundância tão grande de água que, até recentemente, as pessoas não davam o mínimo sobre as seqüelas do que estávamos fazendo com ela, tanto no âmbito do trabalho (na indústria, na agricultura) quanto em casa.

Como o projeto colabora na compreensão das questões que envolvem a água no Brasil?
MARGI
Em todos os assuntos ligados ao meio ambiente, a melhor forma de promover uma melhoria no futuro é pelas crianças. É impressionante como os adultos, que deveriam ter mais capacidade para entender os efeitos a longo prazo que a poluição ou o desperdício de água poderão gerar, parecem ter medo de serem proativos. Ou é preguiça? Não sei, mas pelo menos, pelas crianças, alguns hábitos começam a mudar no lar. Tomara que essas mesmas crianças, quando crescerem, sejam líderes conscientes. Durante o projeto, temos dado muitas palestras em escolas e comunidades ribeirinhas. Pelo site, recebemos constantemente contatos de alunos e professores.

Trata-se de um projeto de caráter científico ou de sensibilização?
MARGI
As duas coisas estão intimamente ligadas. A conscientização pura e simples requer uma base sólida. Não adianta dizer "não polua a água, não é legal" sem dar uma justificativa mais forte. Como, por exemplo, o fato de a água poluída causar 28 mil mortes por ano no Brasil (Fonte. OMS). É difícil, para alguém que mora no centro de São Paulo e que somente se relaciona com a água que sai da torneira (e exige que ela seja limpa e abundante) entender que aquela água vem de algum rio cujas margens são o lar de outras pessoas para quem o nível das águas muda, segundo a estação, e a qualidade delas também. O objetivo do panorama da qualidade das águas brasileiras - resultado da imensa pesquisa que foi feita com base nas amostras que coletamos, em mais de 1.100 pontos em todos os estados do país - foi acordar não somente a população em geral, mas também as autoridades, desde federais a municipais. Já passou a hora de tomarmos medidas sérias para proteger os recursos hídricos, garantia de um futuro saudável e cheio de sucesso. Podemos simplesmente dizer que Deus é brasileiro e torcer para que Ele dê jeito. Mas também vale lembrar que Ele ajuda quem trabalha.

A atual fase, Rios Voadores, procura investigar as massas de ar que carregam vapor d'água da Amazônia para o centro-sul do país. Podem nos explicar um pouco mais sobre isso? Está provado que o desmatamento da Amazônia interfere no clima global?
GÉRARD
Acho que ninguém discute que a Amazônia repercute no clima global. E, se repercute, deve ser pelas suas condições especiais: água e floresta. Portanto, se interferirmos drasticamente nesses dois fatores, parece óbvio que causaremos um efeito colateral no clima mundial e, mais importante, no clima do Brasil. O projeto tem por finalidade principal verificar se o desmatamento e as mudanças climáticas globais podem influenciar no equilíbrio da água da região amazônica e se o transporte do vapor d'água de lá proveniente pode ser alterado. A aeronave, equipada com um sistema para captar a umidade no ar, irá seguir o rastro dos rios atmosféricos, correntes de ar que carregam umidade do norte para o sul do Brasil e são responsáveis por parte da chuva nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. As amostras de umidade são analisadas na volta de cada campanha de coleta, para tentar definir a origem da água de cada amostra.

O Brasil das Águas encerra-se com o Rios Voadores? Há outros projetos em vista?
GÉRARD
Margi pega no meu pé, por estar sempre criando novos projetos sem dar um devido descanso entre um e outro. Mas a verdade é que gosto de inovar, fascina-me entender como funcionam as coisas. Quando ouvi falar da existência dos "rios voadores", em uma palestra do Dr. Antonio Nobre [pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia], em Manaus, há 4 anos, fiquei logo fascinado. Entendi a importância desse fenômeno, até então bastante desconhecido, e empolguei-me com tentar ajudar a aumentar os conhecimentos sobre o seu funcionamento, para que as pessoas comuns possam também apreciar a importância da floresta amazônica, no regime de chuvas das suas respectivas regiões. E isso tem acontecido. Repare como o meteorologista, na previsão do tempo no Jornal Nacional, hoje em dia, explica de forma completamente diferente a chegada das chuvas e mostra, com grandes setas, o movimento das massas de ar úmido vindo da Amazônia. O projeto Rios Voadores somente termina em meados do ano que vem. Tenho algumas idéias quentes, mas prometi a Margi dar um tempo.

Existe uma receita para viabilizar um projeto dessa envergadura? Podem dar algumas dicas que indiquem o "caminho das pedras", para quem deseja realizar projetos do gênero?
GÉRARD
Não tem segredo. O caminho é muito trabalho, dedicação e perseverança. Na hora de sair para captar recursos, é preciso saber quais seriam os interesses dos patrocinadores potenciais e não somente os seus próprios interesses pessoais. Não vale a pena tentar empurrar para um patrocinador um projeto goela abaixo, sem examinar as políticas de comunicação e a área de atuação da empresa. Um patrocinador tem que ser tratado como um cliente.

Em todas essas viagens pelo Brasil, descobriram lugares desconhecidos com grande potencial turístico? Podem mencionar alguns?
MARGI
Por esse imenso Brasil afora, há muitos cantos de beleza excepcional que são poucos visitados ou mesmo desconhecidos da população. Os rios do centro-oeste, por exemplo, na estação seca, tem águas transparentes, belas praias, cachoeiras, clima bom. O Araguaia é cada vez mais visitado no mês de julho para acampamentos nas suas praias, mas é um turismo que traz degradação para o meio-ambiente, com toneladas de lixo deixadas na areia, sem condições sanitárias. No resto do ano, só vai pescador. O rio tem um potencial enorme para oferecer viagens de canoagem, conforme feito com sucesso no rio Zambeze ou no Alasca e no Canadá, com a vantagem, aqui, de não se correr o risco de ataques por animais silvestres.
No interior do Espírito Santo e da Bahia, há uma extensa cadeia de montanhas de granito, com picos e rochas que representam inúmeros desafios e novidades para escaladores e alpinistas, de nível mundial. A região deveria ser protegida, um parque nacional criado, mas continua lá, desconhecida e, aos poucos, sendo totalmente desmatada. Outra beleza que vem à mente são as praias brancas da foz do rio Tapajós, perto de Santarém. O Tapajós tem águas azuis - na estiagem, aparecem belas praias de areia muito fina. Um caribe de águas doces em plena Amazônia! E assim vai... a lista é do tamanho do Brasil!

 

   
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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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