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| BOCA CHEIA: Um plantador — e mascador — de coca no coração da Bolívia |
TEM ALGUMA COISA ESTRANHA acontecendo com as calças de Carlos Villalon. Estamos percorrendo uma trilha debaixo de uma tempestade de molhar os ossos, na região do Chapare, bem no coração da Bolívia — uma úmida faixa de selvas nativas com rios cor de chocolate que alagam a cada inverno, com terrível regularidade. Quatro policiais do esquadrão especial antidrogas boliviano, os Leopardos, abrem caminho pela floresta tropical. Estão procurando por um laboratório rústico, que às vezes não passa de um buraco escavado na terra, forrado com plástico e coberto com palha, onde os narcotraficantes transformam a folha de coca em pasta de coca, o primeiro passo para a cocaína. Após meia hora de caminhada, notamos o estranho fenômeno que está acontecendo abaixo da linha da cintura de Villalon.
“Puta merda!”, exclama Evan Abramson, um rapaz de 29 anos vindo de Long Island, EUA, contratado para acompanhar a equipe. “Ei, Carlos. Cara, dá uma sacada nas suas calças!” Villalon, um fotógrafo chileno de 41 anos, olha para baixo. Suas calças, que eram verdes, haviam ficado brancas, cobertas por espuma. “Que porra é esta?”, pergunta, passando as mãos pela sujeira espumante.
Ele solta uma série de impropérios em espanhol e as tropas riem, se divertindo. Parece que durante um recente apagão em Bogotá, a lavadeira de Villalon não percebeu que as calças não tinham passado pelo ciclo de enxágüe. Ela as pendurou para secar, com o sabão aderido às fibras, e a enfiou no fundo do armário. Agora a chuva pesada — que ensopou nossos ponchos, embaçou nossos óculos, arruinou nossos cadernos, deu curtocircuito em nossas câmeras e desmanchou nossos cigarros — está fazendo o ciclo de enxágüe para ele.
Seguimos adiante, passando por um emaranhado de samambaias gigantes, palmeiras cobertas de espinhos com raízes que se dividem como os tentáculos de um polvo acima do solo e mamoeiros selvagens. Formigas lava-pés atacam qualquer pedaço de carne exposta, deixando marcas vermelhas. Os soldados reclamam, mas prosseguem, farejando o ar como perdigueiros, tentando captar o cheiro químico característico do “buraco de maceração” — onde a coca é prensada numa pasta liquefeita e o alcalóide é separado com uma mistura de gasolina, cal e ácido sulfúrico. Além de todos os inconvenientes, os Leopardos têm apenas um facão para todos, o que faz com que abrir uma picada na selva seja uma missão quase impossível. Em certo momento nos encontramos presos entre densos arbustos, sem qualquer saída visível.
Surge então o sério oficial de rosto magro que comanda a unidade, Armando Azturicaga. Ele já treinou com os boinasverdes da Escola das Américas, no estado norte-americano da Geórgia, e depois em Washington, com a Drug Enforcement Administration, a agência antidrogas dos EUA.
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