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| EX-DOPADO: David Millar fala com repórteres ano Tour of California, em fevereiro |
COLEGA DE QUARTO, DAVID MILLAR, estava me contando como foi fácil se tornar um dos mais famosos ex-dopados do ciclismo. Estávamos tomando cerveja em um sushi bar lotado no centro de Santa Clarita (Califórnia, EUA), e ele precisava gritar para eu ouvir. Muitos dos clientes tinham assistido à empolgante final do estágio do Tour of California naquela tarde de fevereiro, e estavam em clima de festa. Alguns deles reconheceram Millar — talvez por ele quase ter ganhado o estágio e estar em segundo lugar na colocação geral, ou talvez por ele ser um dos ciclistas que definem a era moderna, tanto pelo que fez no passado como pelo que está fazendo agora. “Eu sei que tenho uma responsabilidade”, ele me disse, entre um gole e outro. “Tenho que contar minha história.”
Um ano e meio depois de uma suspensão de dois anos por usar o anabolizante EPO, Millar é parte da equipe que pode ser a mais limpa do ciclismo: a Garmin-Chipotle H3O, antiga Slipstream, dos EUA. Como uma equipe nova, a Garmin tem apenas uma licença de ciclismo Pro Continental de segunda classe, mas já recebeu elogios em todo o mundo — e um convite para o Tour de France, que começou a ser disputado dia 5 de julho em Brest (França), e que até o fechamento desta edição ainda não tinha terminado, mas era liderado por Frank Schleck, da equipe CSC, com a Garmin em 5º lugar (e ainda na disputa) com o norte-americano Christian Vande Velde — graças à sua inabalável determinação de não usar drogas.
“O ciclismo perdeu muita credibilidade”, comenta, entre os estágios na Califórnia, Jonathan Vaughters, chefe de equipe da Garmin e arquiteto de seu revolucionário programa de teste de droga. “Para consertar o estrago, ele precisa ser 100% transparente.” Com esse objetivo, Vaughters tomou a dramática atitude de convidar um jornalista para acompanhá-los no Tour of California. Não só nos carros da equipe, durante os estágios, mas comendo com os atletas e participando das reuniões. As duas únicas coisas que ele me pediu foram: tome uma injeção contra gripe e não ronque. No meu primeiro jantar com a equipe, Chann McRae, ex-profissional e agora assistente direto de Vaughters, me disse “Ninguém fez o que você está fazendo. Ninguém mesmo”.
Por isso, todas as noites, depois de Millar e seus sete colegas de Garmin competirem com algumas das melhores equipes do mundo, depois de receberem massagem e comerem uma tonelada de macarrão, ele e eu nos retirávamos para o hotel em cidades como Solvang e San Luis Obispo. Assistíamos a TV, ouvíamos música ou conversávamos. Millar, aos 31 anos, não é um esportista típico. Ele é alto e magro; sua nacionalidade e sotaque são escoceses, embora tenha nascido em Malta, na Europa, e sido criado em Hong Kong, China; e ele se sente tão confortável falando do Sneaky Sound System (um grupo australiano de dance) ou de seu livro favorito de Cormac McCarthy (o escritor de Onde os Velhos Não Têm Vez, que virou filme ano passado), o Blood Meridian, como sobre ciclismo. Sua — nossa — porta estava sempre aberta e os outros ciclistas apareciam para jogar conversa fora. Com certeza era diferente dos velhos tempos, segundo Millar. “Você não sabia o que seus colegas faziam atrás de portas fechadas”, conta, lembrando seus primeiros anos como profissional. “Médicos entravam e saíam carregando sacos de lixo médico, gente da equipe de apoio levava gelo de noite para manter os frascos de EPO frios. Havia seringas por toda parte.”
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