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    Ases nas alturas

FOTOS JIMMY CHIN
POR DAVE HAHN

A IDÉIA: Fazer um dos maiores guias do Everest encarar seu medo de altura
O PLANO: Levá-lo à parede de mil metros do El Capitan, junto com os experientes Conrad Anker, Jimmy Chin e Ivo Ninov
O RESULTADO: Ataques de pânico, suores frios e uma encomenda de fraldas geriátricas

ARRIBA: Conrad Anker guiando a via Pacific Ocean, no El Capitan, em outubro de 2007
>> Não sou bem um escalador... E certamente não sou escalador de big wall. Isso não é modéstia. Dezesseis expedições a montanhas de 8 mil metros - nove delas até o cume do Everest - e 22 anos guiando em glaciares gelados e remotos não deixam um cara modesto. Mas resultam num escalador pouco versátil, e este sou eu, pois escaladas em grandes paredes e montanhismo de altitude requerem técnicas surpreendentemente diferentes. É claro que quando comecei a subir montanhas eu sonhava em escalar o El Capitan, no Yosemite (EUA). Mas convenhamos: eu também queria ser piloto de caça, presidente, astro pornô. Em vez disso, me tornei guia no Everest.

Onze anos atrás, na Antártica, Alex Lowe, quinta-essência do escalador versátil, me viu cramponear o gelo azul e vertical e percebeu que eu parecia preocupado demais com o vazio de 1.500 metros logo abaixo. Pouco depois, ele e Conrad Anker, seu melhor amigo e antigo parceiro de escaladas, me convidaram para escalar o El Cap. "Escale o El Cap e você ficará confortável com a exposição à altura de uma vez por todas", disse Alex.

Eu não deveria ter esperado. Alex morreu tragicamente numa avalanche dois anos depois, em 1999. Conrad, 45 anos, e eu escalamos juntos novamente naquele ano, quando ele encontrou vestígios de George Mallory a 8.200 metros no Everest. Fizemos o cume juntos naquela viagem e eu passei mal na volta, a 8.800 metros. Eu estava muito anêmico, fiquei sem oxigênio, começou a nevar e já estava tarde. Conrad ficou comigo. Ele me deu seu oxigênio e conseguimos descer. Ele provavelmente salvou minha vida.

Apesar de o assunto El Cap ter surgido nos anos seguintes, eu nunca imaginei que essa aventura iria se concretizar. Então, guiei uma expedição ao Everest no ano passado com o fotógrafo e escalador Jimmy Chin, 34 anos, e, quando estávamos numa barraca encravada a 6 mil metros, comecei a falar dos meus sonhos. Jimmy me interrompeu quando cheguei na parte do El Cap. "Rad vai guiar para você e eu vou fotografar", decretou.

>> E aí começou o sandbagging [veja glossário no fim desta matéria]... Conrad escolheu a rota Pacific Ocean Wall, uma linha na face direita do El Cap. Ao vivo, num dia de sol, o El Capitan é uma placa de granito maciça e brilhante, de mil metros de altura, que domina completamente a paisagem, como o próprio nome descreve. É difícil se acostumar com seu tamanho, mas eu confiava plenamente no Conrad e no Jimmy, em se tratando de big wall, pois os dois tinham excelente reputação. Eu também tinha total confiança em Ivo Ninov, convidado pelo Jimmy. Ivo, 32 anos, veio da Bulgária para o Yosemite há nove anos, escalou o El Cap mais de 50 vezes e é um dos melhores escaladores da área. Ele aprendeu inglês no Yosemite e diz coisas como "The moon is sick" e "Life is bitching" ["A lua está irada" e "A vida é um tesão", expressões bem locais]. Nosso plano era ir em outubro e escalar a parede em sete dias.

"Só para deixar claro, realmente não sou muito bom na escalada em rocha", eu disse a eles quando nos encontramos na feira anual de esportes de aventura, em Salt Lake City (Utah, EUA). "Eu serei como um novato. Tudo bem?" Eles deram uma risadinha e assentiram com a cabeça. Ivo então mencionou a idéia de um roteiro de filme que ele e seus amigos stone-monkeys (como os escaladores locais do vale de Yosemite são chamados) andavam discutindo - alguma coisa sobre arrastar um cadáver El Cap acima para realizar o último desejo de um cara que queria escalá-lo quando vivo. Eu estava sendo muito encorajado.

"Eu realmente não sou muito bom na escalada em rocha", eu disse a Conrad, Jimmy e Ivo, antes da nossa escalada. "Serei como um novato." Eles deram uma risadinha e assentiram com a cabeça

No dia 2 de outubro do ano passado, nós chegamos ao vale e encontramos Ivo, que estava preparando nosso "lançamento". Púnhamos a cabeça pra fora do carro para tentar ver o máximo da rocha que nos rodeava. Ivo tinha estocado 75 litros de água e um tanto de equipamentos e cordas na base da via. Passamos um tempo com os escaladores na base do El Cap, onde me banhei no brilho de celebridade do Conrad. Olhávamos os pontinhos que eram os escaladores nas várias vias da parede, o que gerava reminiscências da minha história familiar no vale. Meu pai, Ron Hahn, era escalador no Yosemite nos anos 40 e 50. Estas paredes de rocha estavam nas minhas mais remotas memórias de infância.

>> Lançamento, 7h30... Eu ainda não estava tão assustado assim. Rad tocou para cima o primeiro esticão e Jimmy disse, "Muito bem, Dave, por que você não jumareia em seguida?", enquanto virava para ajudar o Ivo a içar a montanha de equipamentos. Jimmy estava sugerindo que eu subisse pela corda usando ascensores mecânicos - uma sugestão razoável e bem mais fácil que escalar a rocha propriamente dita. Mas eu estava esperando algo como "Agora, Dave, existem várias maneiras de se jumarear uma corda e esta é a maneira que imagino ser a melhor nesta situação em particular". Praticamente no mesmo instante me enrosquei numa árvore poucos metros acima do chão. Jimmy me desenrolou, reposicionou alguns mosquetões e fitas e me mandou pedra acima novamente.

>> Segundo dos 27 esticões, 10h: eu fiquei com medo... Na primeira parada tivemos algumas distrações. Um urso preto vagando de forma desajeitada sob nós. Ivo derrubou acidentalmente seu tabaco e isqueiro, que quicaram no meu capacete. Eu desperdiçava forças como um louco, me segurando na parada com os braços em vez de recostar e relaxar, como fazem os prós. Fiz a segurança para o Jimmy enquanto ele guiava os dois esticões seguintes (emendados). Ele estava maravilhado, pois mesmo não tendo escalado em artificial por anos a fio (ele tinha passado os últimos anos em grandes montanhas geladas), estava conseguindo entrar de cabeça na Pacific Ocean.

A negatividade da parede se tornava aparente toda vez que eu lutava para sair das paradas na minha vez de jumarear. Do chão, a inclinação da parede era apenas uma curiosidade de travar o pescoço, mas agora ela fazia com que eu não tivesse contato com a rocha e dependesse totalmente da corda pela qual subia. Eu tinha consciência de que as conseqüências de uma queda não tinham mudado - se uma corda se rompesse ou algum equipamento se soltasse, uma queda de 20 metros (meados do primeiro esticão) teria tão certamente me matado quanto uma queda de 60 metros (em alguma parte do segundo esticão). E eu começava a pensar nessas coisas enquanto jumareava, balançando no vazio.

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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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