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    Sem luz no fim do túnel
O vale do Ribeira pede socorro. Terra da maior concentração de cavernas, de mata atlântica contínua e de quilombos do Brasil, a região paulista enfrenta os pesadelos da interdição de seus parques e da construção de represas em seus principais rios

(DANIEL NUNES GONÇALVES) FOTOS CADU MAYA

DESINTERDITADAS: No dia 18 de abril, 12 cavernas foram liberadas para a visitação, amenizando um pouco a má situação dos moradores do Petar. Outras cavernas continuam trancafiadas, como a Sítio Novo, da foto
BLOQUEIO: Segurança sob faixa de aviso aos turistas, que não podem mais visitar a caverna Sítio Novo, bloqueada pelo geógrafo Cristiano Ferreira (abaixo), do Cecav.

O bairro da Serra, comunidade de 680 habitantes a 3 quilômetros da portaria do Petar, ganhou ares de cidade fantasma, sem viva alma nas ruas. No fim de fevereiro, a população do vale do Ribeira, no oeste paulista, recebeu duas más notícias: a primeira dizia que o Ibama tinha aprovado a viabilidade ambiental da construção da Usina Hidrelétrica de Tijuco Alto, primeira de uma seqüência de quatro represas que vão impactar o rio Ribeira de Iguape — o último grande rio não-represado do estado —, inundando uma área de 52 quilômetros quadrados em quatro municípios e alterando para sempre a paisagem de uma região que concentra 21% da mata atlântica remanescente no país. A segunda bomba era a interdição das cavernas dos três principais parques turísticos que sustentam a economia do vale: a Fazenda Intervales, o Parque Caverna do Diabo e o Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar). No dia 18 de abril, 12 cavernas foram enfim liberadas para a visitação, amenizando um pouco a situação. Mas nesse meio tempo, aconteceu uma série de protestos com o objetivo de alardear, à sociedade e às autoridades, que o vale do Ribeira precisa de socorro.

Mesmo sendo problemas distintos e aparentemente sem conexão entre si, as duas ameaças tiraram o sono de parte da população dos 24 municípios que integram o vale, porque dão vida a um velho pesadelo da região. Há décadas os moradores sofrem problemas econômicos por viverem, ironicamente, no pedaço de natureza mais preservada do estado, com mais de 10 mil espécies de fauna e flora declaradas pela Unesco como reserva da biosfera por sua diversidade. Em cidades como Iporanga, coração turístico do vale, tudo em volta do núcleo urbano é tombado. O que significa que quase ninguém pode investir na roça, construir uma indústria ou explorar a natureza como se fazia antigamente — cortando palmito, vivendo da mineração, produzindo pinga em alambiques. E o ecoturismo, que há uma década passou a abastecer os bolsos dessa população carente, é o alvo mais direto dessas notícias recentes.

No epicentro do drama do fechamento das cavernas está o Petar, principal destino de excursões escolares do estado e que já chegou a receber 40 mil visitantes por ano — 70% deles estudantes. Neste mês de maio, o parque completa 50 anos de criação e 25 anos de implementação em pleno inferno astral. “Tivemos um enorme trabalho para desenvolver o turismo aqui de forma a proteger o lugar sem prejudicar a população”, diz o espeleólogo Clayton Lino, primeiro diretor do Petar e atual presidente da ONG Reserva da Biosfera, que atua diretamente nesses três parques, onde estão cadastradas nada menos que 404 cavernas. Quando o parque foi criado, lembra Lino, 80% de sua área era explorada por 12 mineradoras e três serrarias. Foi um longo caminho de conflitos até que a população abrisse mão de seus antigos ganha-pães e entendesse que o parque não era um inimigo, mas sim uma alternativa para o desenvolvimento sustentável do lugar. As atividades de extração foram banidas, inclusive as plantações de cana-de-açúcar que abasteciam oito fábricas de cachaça que hoje estão fechadas.

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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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