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FORNO: O inverno nordestino, com temperaturas acima dos 30ºC, quase derreteu os atletas durante os pedais nas pesadas areias do sertão |
SECURA: Os 30 km de cânions do Raso da Catarina, ponto alto da prova, serviram como esconderijo de Lampião na década de 1930 |
É UM DOS LOCAIS MAIS INÓSPITOS E HOSTIS à presença do homem no Brasil. Eles vão sentir o sertão de forma extrema.” A declaração do major Nilton Rodrigues Diniz sobre o Raso da Catarina — uma baixada de areia seca de cerca de trinta quilômetros, cercada de caatinga e envolta por paredões de pedra, que serviu de refúgio para Lampião nos idos de 1930 — levou os atletas ao delírio na cerimônia de abertura da Brasil Wild Extreme. Parecia uma espécie de grito de guerra coletivo dos 232 competidores, ansiosos por desbravarem, em até cinco dias, os 626 quilômetros (que depois de cortes virariam 576) de cenários únicos, passando por quatro estados brasileiros: Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco.
Pela primeira vez desde a já clássica corrida EMA Amazônia, disputada em 2001, uma prova desse porte foi realizada sem equipes de apoio. As caixas com equipamentos e alimentação seriam encontradas pelos atletas apenas duas vezes ao longo de todo o percurso, e muitos trechos eram em regiões sem água e com pouquíssima ocupação. “Montamos uma prova no estilo expedição para resgatar as origens da corrida de aventura, quando os atletas eram auto-suficientes. Espero que a corrida transcenda o esporte e marque a vida de cada um para sempre”, comentou Júlio Pieroni, organizador da competição.
Se a Brasil Wild Extreme tivesse ocorrido naquela época,
Lampião seria um reforço precioso para qualquer equipe,
pois era conhecido como um grande estrategista e dono
de uma enorme capacidade de improvisação
A logística de boa parte da prova ficou a cargo do Exército brasileiro. O major Diniz, da 1a Companhia de Infantaria, tomou a prova como missão, comandando todo o restante do efetivo. Mais de duzentos homens trabalharam na checagem de equipamentos obrigatórios dos atletas, no transporte e logística das caixas de suprimentos e bicicletas e, principalmente, na segurança dos competidores nos trechos mais perigosos. Foram montadas estruturas móveis e pontos de apoio com água potável abundante, além de atendimento médico emergencial. Os homens do Exército estavam preparados para fazer qualquer resgate dentro da caatinga, mantendo-se sempre conectados à central de rádio da prova. Era um grupo treinado para sobreviver sob as duras condições dessa região. “Sabemos que rasgar a caatinga representa uma progressão de apenas cem metros por hora e ainda deixa a tropa sem condições de combate”, informava o major.
Com largada e chegada na cidade de Paulo Afonso, na Bahia, a competição reuniu todas as grandes equipes do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país, além de agregar times do Nordeste por causa da proximidade. No total foram 58 equipes, incluindo uma do Paraguai e outra do Uruguai, que vieram de carro até Paulo Afonso.
Além dos encantos do rio São Francisco — que gera energia elétrica para grande parte do Nordeste e banha algumas das cidades por onde a competição passou —, a prova também percorreu algumas regiões que guardam as histórias de Lampião, o Rei do Cangaço, que por vinte anos usou a caatinga como caminho e esconderijo para fugir da volante (a polícia do começo do século 20) e de bandos inimigos. Ninguém andava tão bem e conhecia os macetes da mata espinhenta da região como Lampião. Antes de entrar para o cangaço, o Virgulino Ferreira da Silva ajudava a família fazendo frete de mercadorias em longas viagens de burro pelo sertão, onde conheceu muita gente. Foi um expedicionário, já que durante o cangaço ele e seu bando viveram como nômades por causa das perseguições.
Se a Brasil Wild Extreme tivesse ocorrido nessa época, Lampião seria um reforço precioso para qualquer equipe, pois era conhecido como um grande estrategista e dono de uma enorme capacidade de improvisação. Ele não deixava rastros. Seu bando andava em fila indiana e o último apagava as pegadas com galhos. Mesmo que sobrassem vestígios, eles confundiam os inimigos, porque usavam alpargatas que tinham uma espécie de salto na frente, dando a impressão de que seguiam na direção contrária.
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