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  Música
  A sustentável leveza da música
A abordagem despretensiosa de Jack Johnson para a ecologia fez do cantor um dos principais ambientalistas do mundo da música. E o melhor de tudo é que ele não é um ecochato

Jon Cohen
FOTOS JEFF LIPSKY

DEPOIS DE DETONARMOS OS TACOS — servidos em papel reciclado —, seguimos para o prédio da Brushfire, do outro lado da cidade. “Posso dirigir enquanto você escreve”, Johnson ofereceu, quando nos dirigimos para minha caminhonete. Eu disse que não precisava, e ele sentou no banco do passageiro. Enquanto seguíamos pela estrada que costeia o Pacífico, o mar estava calmo como um lago e os morros queimados ainda cheiravam a cinzas do recente incêndio. Johnson recontou os agora bem conhecidos detalhes de seu passado: cresceu pegando ondas no North Shore, mas decidiu estudar cinema na Universidade de Santa Bárbara em vez de virar surfista profissional. Em 1999, escreveu algumas músicas para um filme de surf que produziu com Emmett e Chris Malloy, e acabou tropeçando na fama quando foi notado pelo empresário de Ben Harper.

Ele tentou também explicar as origens de sua sensibilidade ecológica. Algumas das melhores lembranças da sua infância, contou, são de quando o mar ficava sem ondas e seu pai o levava a ilhas mais distantes da costa de Oahu em uma canoa havaiana tradicional. “Essas canoas têm a largura da sua cintura, o comprimento de seis pessoas e só com um pouquinho de espaço entre você e a pessoa na sua frente”, descreveu. “Só dava para levar o que coubesse nesse espacinho. E não podia cair no mar.” O lado material, essencialmente, não tinha importância. “Nunca fui mais feliz que nesse tempo”, acrescentou. “Bem diferente desse lance de ser soterrado por presentes de Natal.”

É essa filosofia econômica que Johnson está tentando trazer para sua carreira na música — seguindo um caminho, esclareceu, aberto por músicos como Neil Young, Pearl Jam e Willie Nelson. “Não estou fingindo que tenho todas as respostas e que sou mais ecológico que todo mundo”, ele disse. “Quero fazer o que puder para ajudar, mas às vezes fica um pouco demais para mim. É difícil, porque assim que você começa a falar, vira o cara que os jornais querem entrevistar. Eu aceito o fato de ser uma pessoa mais ou menos famosa agora e de poder usar isso para o bem, mas não quero me candidatar a presidente.”

JOHNSON PODE NÃO ESTAR LANÇANDO uma carreira na política, mas com um novo álbum nas lojas e uma turnê mundial a se iniciar, ele está recebendo bastante atenção. A sua equipe de relações públicas o pegou para uma sessão de fotos para a revista Entertainment Weekly.

AUTÊNTICO: Johnson e os chinelos de dedo que já são sua marca registrada

Enquanto Johnson posava na sala, com o violão no ombro, notei uma prancha de surf — uma fish de design gordo, que lembra a alma suave do surf da década de 70 — encostada na parede, no canto. A prancha e a casa da década de 20 lembram o ambientalismo simples e humilde que agrada Johnson: o lance é valorizar o passado e um estilo de vida mais simples, mas com uma tecnologia melhor.

Segundo Johnson, Kelly Slater começou a surfar em pranchas de alto desempenho na década de 90 que eram ridiculamente finas e estreitas. Para Slater, que é conhecido como “The Freak” (o maníaco), graças à sua extraordinária habilidade, surfar nelas era moleza, mas muita gente não conseguia. Foi aí que as pranchas fish e outros estilos retrô ressurgiram das cinzas. “Agora você pode voltar a subir na prancha e deslizar pelas ondas”, comemora Johnson. “Penso do mesmo jeito quando o assunto é música ou qualquer outra coisa: algumas vezes as coisas avançam até chegar a um ponto que simplesmente não dá mais para progredir. Você chega a um beco sem saída e precisa voltar por onde veio.”

Apesar de todo seu respeito pelo passado, no momento Johnson está de olho no futuro. A Brushfire está crescendo, com um conjunto de músicos que inclui G. Love, Matt Costa, Rogue Wave, Money Mark, Mason Jennings e a ALO, antiga banda de Zach Gill. Todos partilham da atitude relax de Johnson. “Dá a impressão de que tudo aqui é artesanal”, descreve Malloy.

Sleep Through the Static dá prosseguimento à tradição, embora Johnson tenha se afastado do acústico mais do que nunca, tocando com guitarra em várias faixas. Esse som novo não vai fazer ninguém se lembrar de Hendrix, ou mesmo de um Bob Dylan elétrico, e Johnson com certeza não está mudando para agradar a crítica. “A galera gosta do Jack, e seus discos significam muito para eles”, diz Malloy. “Tudo que eles querem é mais um. Não precisa ser diferente. Só precisa ter 14 músicas novas.”

Mais tarde, quando o sol está para se pôr, Johnson sobe para o telhado com a equipe da Entertainment Weekly. Eu vou para o estúdio com Gill, que se senta em uma grande bola de exercícios em frente ao piano e toca algumas de suas músicas para mim — uma hora a sala se escurece por um segundo, pois as luzes têm timer — começando com “All Still Family” (Ainda somos família) e passando para uma bela música triste que escreveu para o documentário Arctic Tale, de 2007. Ele compôs a trilha para uma cena que mostra um filhote de urso polar faminto que morre enquanto sua mãe assiste, impotente, a neve cobrir seu corpo, mas a música acabou sendo cortada do filme. Agora, como tudo o mais, ela está sendo reciclada — e pode muito bem acabar no álbum solo de Gill.

Alguns minutos depois, Johnson volta e se senta na bateria. “Vamos tocar a ‘Family’”, pede. “1-2-3-4...” Enquanto eles fazem uma jam session, ficam parecendo dois amigos que são transportados para algum lugar distante pela música. Não estão tocando para os outros, nada está sendo gravado, e a porta está fechada, para que os vizinhos não tenham razão para reclamar. Só estão deixando algumas pegadas na areia que a maré logo irá apagar. E não há luz fluorescente, veículo a biodiesel ou descarga econômica que seja mais ecológico que isso.

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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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