.Troque a água doce pela salgada
Das piscinas para as pipas de kite
POR FERNANDO SCHERER (CONTADO A FERNANDA FRANCO) FOTOS MARCIO BRUNO
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| NOS CÉUS: Ainda sem a prancha, Xuxa aprende a controlar o kite, a 25 metros de distância do seu corpo |
COORDENAÇÃO: Miler dá uma força para Xuxa se levantar na prancha e manter o kite no ar ao mesmo tempo |
TREINAR E COMPETIR FOI A MINHA VIDA. Comecei a nadar aos 14 anos, e dediquei longos 18 anos às piscinas. Participei de três Olimpíadas e três Jogos Panamericanos, tendo conquistado nove medalhas em Pans e dois bronzes olímpicos. Há pouco mais de um ano, parei de nadar.
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| BÁSICO: A primeira lição foi prender o trapézio no corpo |
AVANÇADO: Depois de ensinar a função das linhas do kite, Miler e Xuxa foram direto para a água |
Não foi uma decisão demorada ou difícil de ser tomada. Apenas chegou o momento em que eu não tinha mais prazer na rotina intensa de treinos diários. É preciso muita motivação para continuar olhando azulejos no fundo da piscina depois de já ter alcançado tantas coisas na carreira. Continuo levando um estilo de vida de alimentação saudável e esporte. Hoje mantenho meu corpo ativo através de uma rotina de exercícios na academia, mas não me obrigo a ter a disciplina que me levou ao topo.
Tem que se saber a hora de parar, e penso que parei na hora certa. Não me arrependo. Em um ano olímpico como este, eu estaria treinando como um louco, pensando em Pequim. Estaria nervoso, ansioso com os resultados e até dormindo mal por causa da medalha. É bom não sentir essa pressão e poder estar aqui na beira da praia para fazer minha primeira sessão de kitesurf.
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| TROFÉU: A rápida e gostosa sensação de ser arrastado pela força do vento fez valer o esforço de Xuxa |
Esperava que eu fosse comandar o kite ainda na areia, sem a prancha, mas para minha surpresa já pulamos da aula básica para a água e fomos direto para a Ponta das Canas, no meio do canal de São Sebastião.
Não tenho nenhuma experiência com esportes de prancha. Como atleta de performance, a minha grande preocupação sempre foi não me contundir, então nunca me arrisquei a andar de snowboard, skate ou algo do tipo. Na verdade, tentei surfar algumas vezes na praia Mole, em Floripa, minha cidade natal, mas era inverno e o mar lá é muito violento. O saldo foram duas pranchas quebradas, um corte na perna e a vontade adiada.
Mesmo com a falta de experiência e a impressão de que o kitesurf era um esporte muito difícil, a proposta de subir na pranchinha não me afligiu. Eu já tinha feito outras coisas de que tinha medo ou que não conhecia, como escalada e rafting para um programa de TV que apresentei no Sul do Brasil. Na abertura de uma Olimpíada de inverno, participei de uma demonstração em que nadadores integravam equipes de ex-campeões mundiais de bobsled, e andamos em trenós que chegavam a 120 km/h, dando a sensação de gravidade de um jato supersônico. Eu sabia, porém, que não seria jogado de qualquer maneira na água, e esperaríamos por condições do vento ideais. Escolheram para mim uma prancha e uma pipa que facilitavam a vida de iniciantes como eu. E o mais importante: tudo rolaria na água, onde eu me sinto em casa.
O dia de sol em Ilhabela e o mar verde petróleo deixaram o cenário da minha investida ainda mais agradável. Chegamos de barco até a praia da Armação, onde o kitesurfista e instrutor Miler Morais já nos aguardava no seu bote. “O dia está perfeito hoje”, disse ele sobre as condições do vento, para me incentivar.
As primeiras instruções foram dadas na areia, sobre o funcionamento das linhas do kite e como elas se conectam na barra que comanda a pipa no ar. Esperava que eu fosse comandar o kite ainda na areia, sem a prancha, mas para minha surpresa já pulamos da aula básica para a água e fomos direto para a Ponta das Canas, no meio do canal de São Sebastião.
Com meu trapézio (um cinturão que prende a pipa ao kitesurfista) preso ao corpo, mas sem conectá-lo ao kite, comecei observando e sentindo o Miler manejar a barra, para entender a força necessária para conduzir a pipa no ar. A barra é uma espécie de guidão e o comando é bem sutil. Quando passei para o comando, percebi que não podia apoiar nela, pois qualquer movimento brusco poderia resultar num tranco na pipa que me arrancaria da água, ou na queda dela na água, o que quebraria o ritmo da aula.
Subir na prancha ao mesmo tempo em que eu controlava o kite no ar foi o mais complicado. Nessa hora eu já sentia um pouco de frio e cansaço e meu corpo começava a tremer. Algumas vezes consegui me levantar da água e me equilibrar na prancha por segundos, que foram muito gostosos. A cada queda, porém, eu tinha que reerguer a pipa e começar tudo de novo.
O kitesurf é um esporte difícil e fascinante. Saí da água com algumas dores nas costas, mas com vontade de tentar novamente.
Agradecimentos: wsb.com.br e kitesurfmania.com.br.
Palavra de Mestre
“O Xuxa nunca tinha praticado esportes de prancha, então faltava um pouco da base que alguns esportistas trazem da experiência com surf, wakeboard ou snowboard. Já o fato de ele vir de um esporte da água ajudou bastante. Geralmente, a pessoa fica apavorada em ter que controlar o kite e ainda nadar ou boiar, e isso ele tirou de letra. Usamos um kite Helix de 9 metros e uma prancha direcional, mais fácil para se equilibrar e controlar na água. Para ele aprender o controle do kite ainda sem a prancha, me afastei um pouco — foi quando adquiriu mais confiança e segurança. Quando partimos para sua tentativa de subir na prancha, o vento diminuiu um pouco. Nessas condições, o velejador precisa ter excelente domínio do kite para não deixá-lo cair na água quando conseguir subir na prancha. Ele ficava assustado com a sensação de a prancha decolar e acabava caindo. Mesmo assim, o Xuxa foi bem para uma sessão de pouco mais de duas horas seguidas na água. O ideal são aulas de uma hora por dia, já que o esporte é complexo e tem muita informação a ser passada. Geralmente, uma pessoa demora de quatro a seis horas para começar a andar de kite.”
Miler Moraes, atleta profissional de kitesurf e instrutor nas horas vagas
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