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Vermelho é o novo verde Cuba possui os maiores pantanais do Caribe e as lagostas mais felizes do mundo, mas será que a fortaleza dos Castro é mesmo um paraíso ecológico? Patrick Symmes foi a Cuba (antes da renúncia de Fidel, ocorrida em fevereiro deste ano) e descobriu que políticas ousadas, misturadas a uma incompetência ainda mais ousada, pode resultar em um surpreendente sucesso - e em enormes fracassos
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| ALEGRIA, ALEGRIA: Máscara típica de um carnaval cubano em Varadero, um dos balneários mais visitados pelos turistas estrangeiros |
A CHAVE PARA UMA BOA VIAGEM é um péssimo começo, evidentemente. Por isso as coisas pareciam que melhorariam para mim em Cuba depois da quarta noite na ilha, quando fui emboscado por dois jovens. Eles me pressionaram contra a porta da hospedaria, roubaram minha carteira e saíram correndo. Fui atrás deles. Ninguém tem armas em Havana, nem praticamente nada mais afiado que uma faca de manteiga, então isso não foi tão estúpido quanto parece. Corri o mais rápido que pude, perseguindo-os pelo silencioso centro da cidade e gritando por socorro. Depois de um quarteirão tirei meus chinelos e comecei a ganhar terreno, mas era tarde demais. Os garotos pularam em seu veículo de fuga, uma Flying Pigeon, uma das 1,2 milhão de bicicletas importadas da China no início da década de 90, como parte da iniciativa cubana para reduzir o consumo de combustíveis fósseis em prol de meios de transporte não-poluentes. Uma Flying Pigeon pesa uns 20 quilos, mas estávamos descendo uma ladeira que passava ao lado da Universidade de Havana, e com um garoto pedalando e o outro na barra, eles sumiram guinchando noite adentro. Nas duas semanas que se seguiram, a coisa foi ficando cada vez melhor. Fiz mergulho e estourei um tímpano. Um cara deixou um tanque de oxigênio cair em cima do meu pé. O arranhão de 10 centímetros no meu braço esquerdo, lembrança do roubo, ficou verde e cheio de pus. Fui mordido por um caranguejo, um enxame de mosquitos e uns 20 ácaros de praia. Apesar de ter vindo a Cuba para medir a situação do meio ambiente local no fim do reinado de Fidel, muitos dos ambientalistas que procurei estavam na clandestinidade, na cadeia ou no exílio. As pessoas ficavam cochichando que era tudo mentira. Fui ver como estava um velho amigo; tinha se tornado um alcoólatra. Era junho e até o tempo estava ruim: sem vento, úmido e violento. Ah, Cuba, mi amor. Sonhos são dutyfree, importados junto com nossa bagagem de mão; já o item de exportação local é a desilusão. Nós levamos o paraíso, Cuba fornece a música e os mojitos, o mergulho de primeira, os confusos exemplos morais, os ecossistemas incrivelmente intactos e — ai! — um roubo rápido e violento, tudo feito com equipamento de terceira. Esta era minha 13ª visita, a da sorte. A viagem pode ter começado com o pé esquerdo, mas o futuro é sempre glorioso em Cuba. Não importa o quanto me critiquem por isso, vou dizer mais uma vez: tudo é esplêndido em Cuba. Não acredite no contrário, independente do que tenham lhe dito.
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| TEMPO DA BRILHANTINA: Mergulhadores na costa norte de Cuba, no estreito da Flórida. Dizem que mergulhar por lá é voltar 50 anos |
SÓ HÁ UM PAÍS NO PLANETA que é verdadeiro, profundo e acidentalmente ecológico. Em 2006, a World Wildlife Fund (WWF) fez as contas do mundo inteiro, cruzando fatores sociais, como educação e expectativa de vida, com as marcas que cada população deixa na natureza e a biocapacidade do planeta. Os países pobres foram reunidos na coluna da esquerda, os subdesenvolvidos. Os ricos se acotovelaram na direita, os sobreconsumidores. Das 150 nações estudadas, só aqui, no rígido reino de doutor Castro, os seres humanos estavam se desenvolvendo numa taxa estatisticamente sustentável.
A WWF não foi a única a concluir que Cuba está fazendo alguma coisa direito. Uma lista da Organização das Nações Unidas coloca Cuba entre os poucos países no Caribe que detiveram e até reverteram o desflorestamento, com 22% da ilha coberta com palmeiras, pinhos, árvores de mangues e ceibas. Fidel Castro apontou-se como o principal ecologista da ilha, intervindo em tudo, desde o design de barcos pescadores de lagostas (adicionando tanques de água do mar para assegurar que os filhotes capturados pudessem ser devolvidos à água ainda vivos) até a reforma de usinas de açúcar (para funcionarem movidas com o bagaço que sobra da colheita de cana). Ordenou o plantio de 348 milhões de árvores na década de 60 e, até 2007, Cuba dizia que plantaria mais 135 milhões. Na Eco-92, Fidel recebeu sonoros aplausos como um profeta da ética do baixo consumo, enquanto George Bush pai era criticado por ter ignorado tanto ele como os tratados resultantes da conferência.
Desde então, a Assembléia Nacional de Cuba incorporou o desenvolvimento sustentável na Constituição, reservou 20% do país para conservação e organizou um mutirão nacional para instalar lâmpadas fluorescentes e eliminar antigas geladeiras que consumiam muita energia. Quando Castro soube que a pescaria com lanças estava danificando o Parque Nacional Jardines de la Reina, um arquipélago de 2.150 quilômetros quadrados ao sul de Cuba, ele simplesmente a baniu — apesar de ser seu jeito favorito de relaxar.
Não há dúvida de que algo genuinamente importante está agora em jogo em Cuba. Se você acha que conhece o Caribe, pense de novo. Cuba é o Caribe: tem quase metade de suas terras (dez vezes mais que a Jamaica) e um terço da população (11 milhões de pessoas) desse mar. E, em uma região que sofre com o desenvolvimento, perda de habitat natural, pesca excessiva e padrões governamentais baixos, Cuba possui a maior biodiversidade do Caribe, sendo que provavelmente metade das suas 20.808 espécies terrestres conhecidas não é encontrada em qualquer outro lugar. Seus mares são incomparáveis: a costa norte se estende na forma de um arco de quase 1.600 quilômetros de extensão, com águas cristalinas, buracos azuis e cerca de mil ilhas de recife que mal foram contempladas desde que Hemingway enviou caçadores de submarinos alemães para seus canais no livro Ilha do Adeus. No sul, a fossa Cayman joga nutrientes na plataforma continental de 110 quilômetros de largura. Cerca de 50% da costa sul de Cuba está coberta por saudáveis manguezais vermelhos e negros, a maior floresta desse tipo — e berçário de peixes — no Caribe. O pântano Zapata, com seus 5.700 quilômetros quadrados, é o maior pantanal do Caribe, lar de 900 espécies de plantas, e seus recifes estão intactos de um modo sem comparação na região.
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Quando Castro soube que a pescaria com lanças estava danificando o arquipélago, ele simplesmente a baniu — apesar de ser seu jeito favorito de relaxar |
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| CUBA LIVRE: Em sentido horário: o jovem Fidel Castro quando ainda era um mergulhador; Bella Costa, um dos resorts de luxo da península de Varadero; capitólio cubano em Havana; e praia da ilha de Cayo Coco, o berço do ativismo ecológico em Cuba |
Espere um minuto: Cuba? Desde minha primeira reportagem na ilha, há 15 anos, ouço com ceticismo declarações sobre as realizações ecologistas de Cuba, que pareciam desafiar a dura realidade que eu presenciava. Websites ambientalistas da Europa vangloriavam as fazendas de vento; eu encontrei praias na costa norte manchadas de alcatrão que vinha de uma indústria de petróleo de baixa tecnologia e mal-administrada. O chefe do Centro de Estudos Cubanos, em Nova York, contou que a jardinagem orgânica estava fazendo de Havana uma cidade ecológica; no interior, deparei-me com uma agricultura tosca, controlada pelo Estado, que estava devastando o solo. A ONU deu status de biosfera a uma reserva animal na província de Pinar del Río ao redor de uma ecovila chamada Las Terrazas; essa acabou se revelando basicamente umas cabanas de palha e uma lanchonete usada por ônibus de turismo.
Se o presente já é duvidoso, o futuro nem se fala. Após quase cinco décadas de Castro e um total de 12 anos de Bushes, a mudança de regime é a nova realidade. Agora com 81 anos, Fidel vive graças a aparelhos [esta reportagem foi produzida durante o período no qual Fidel esteve recluso da mídia]; seu irmão de 76 anos, Raúl, está na fila; e os candidatos a presidente dos EUA, de Barack Obama a John McCain, têm falado de forma cautelosa sobre um novo começo para Cuba. O fim do embargo norte-americano à ilha mandaria milhões de turistas dos Estados Unidos para o país caribenho, transformando as belas paisagens costeiras. Os cubanos atualmente sofrem com a falta de comida e dinheiro, mas continuam sob o controle do governo; um súbito colapso do sistema político do país soltaria o povo — e os investidores estrangeiros — para cima das florestas e mares.
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