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SAI DA FRENTE:
Em primeiro plano, o brasiliense Guilherme Pahl, campeão entre os homens |
Prontos para cruzar a Ilha de Santa Catarina de sul a norte, 105 atletas apreciavam o nascer do sol do dia 2 de março, em Florianópolis, enquanto se preparavam para encarar a segunda edição da Multisport Brasil, uma espécie de Ironman das montanhas. Fui conferir de perto os 90 quilômetros de percurso da competição, que engloba corrida, bike (mountain bike ou speed) e canoagem, e pode ser completada na categoria solo ou revezamento.
A diferença da Multisport para um triathlon cross-country como o XTerra, por exemplo, é que no cross-country as modalidades são fixas (natação, bike e corrida), como num triathlon tradicional. Já nas provas multiesportes, as modalidades podem variar. Mas em ambas é imprescindível que o percurso seja pré-determinado e demarcado e que os atletas não precisem navegar como nas corridas de aventuras - exatamente o ponto no qual a Multisport Brasil falhou.
A linda bola amarela-alaranjada nascia, devagar, clareando o Caldeirão, no canto esquerdo da praia da Armação, local da largada. Com a areia entrando no tênis, caramanhola cheia d'água, gel energético, cabelo em tranças, boné e adrenalina no topo, eu pedia a proteção divina enquanto me aquecia para a primeira modalidade, uma corrida entre praias e montanhas. Aliás, dura corrida em areia fofa e percurso com travessias de rios, costeira de pedras escorregadias, trilhas estreitas, erodidas e de difícil ultrapassagem, além de raízes, bromélias, galhos soltos e buracos escondidos pela vegetação. Foram quase duas horas administrando a força das pernas e a respiração ofegante. Enquanto o pelotão da frente se formava, eu gritava "Bora, bora" para os atletas do meu lado e ia dropando as pedras e encostas que separam o canto do Matadeiro da Lagoinha do Leste. O fantástico visual do mirante, a 240 metros de altitude, me fez respirar fundo e conferir se o dia estava bom para o surf. Estava. Terminei a etapa de corrida encantada com o nível técnico da prova.
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| MATO SEM CACHORRO: Alexandre Carrijo, terceiro colocado com o tempo total de 6h56min |
As multiesportes exigem do atleta muita técnica, logística e estratégia. Também exigem bons equipamentos, cuidados com o corpo (pés, principalmente) e alimentação - elementos tão importantes quanto estar com o físico e o emocional em dia. Um atleta de multiesportes deve estar capacitado para encarar qualquer tipo de modalidade junto à natureza.
Acredita-se que há 200 anos os nativos maoris da Polinésia já escalavam, corriam e remavam na Nova Zelândia. Por isso, esse país é o que possui as provas multiesportivas mais cruéis, disputadas e importantes do planeta. Oficialmente, a primeira competição multiesportiva aconteceu por lá em 1980 - a Coast to Coast, criada para ser um desafio que testasse os limites do ser humano em ambiente selvagem. Depois da Coast to Coast, os neozelandeses vieram com a Alpine Ironman, a Peak to Peak, a Southern Traverse Multisport-Woman e muitas outras. Hoje, alguns governos estão investindo nas provas multiesportes como uma forma de promover o turismo, a cultura e o meio ambiente de seus países. Os atletas visitantes, como eu, podem experimentar o que há de mais belo e interessante em cada um dos países do mundo por meio das modalidades praticadas.
Minha primeira experiência nessas provas foi na Southern Traverse Multisport-Woman, na Nova Zelândia. Apenas com participantes do sexo feminino, fizemos canoagem, natação, corrida de montanha e ciclismo de estrada. Nessa mesma configuração de modalidades, competi em muitas outras provas do verão neozelandês. Já no inverno, fiz a Multisport Peak to Peak, que tinha esqui ou snowboard, bike downhill, canoagem, corrida de montanha e ciclismo de estrada, tudo sobre a neve. Nos mares do Caribe, fiz a prova Igwa Aventure, em Guadalupe, que tinha surf, golf, windsurf, corrida de montanha, paddleboard, snorkelling, natação, técnicas verticais, orientação noturna e canoagem.
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LÁ VEM O SOL: A largada na praia da Armação, no nascer do dia |
PRÓXIMA MODALIDADE: BIKE. Tínhamos a opção de pedalar de mountain bike ou speed. Mas, caso escolhêssemos a bike de estrada, era obrigatório depois remar no barco fornecido pela organização, um sit-ontop (aberto, de plástico), não muito veloz. Se eu quisesse usar o meu barco (um oceânico da Opium modelo Alaska), deveria ir de mountain bike. Como a maior parte da prova era canoagem, preferi ter um bom barco. Mesmo assim, a organização ainda permitia colocar um pneu liso na bike. Usei um de 1,5 polegada, mas podia ser até 1,4.
Foi um pedal tranqüilo, sem muita técnica, por ruas e rodovias, porém perigoso. Meu foco não era não me perder, mas desviar do trânsito caótico da cidade. Pedalei sozinha, sem avistar nem um atleta sequer até o topo da sinistra ladeira da praia Mole. De lá, já com meus quadríceps queimando, revezei a roda com um atleta masculino, pois nas provas multiesportes é permitido pegar vácuo na roda de outro atleta. Minuto a minuto, eu colocava a minha cara ao vento, sempre em direção ao posto da Polícia Ambiental do rio Vermelho, onde encontraria o meu caiaque, já deixado lá pelo meu apoio.
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