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    A terra dos contentes
A brasileira LAÍS FLEURY narra sua intrigante viagem ao misterioso país asiático Butão, onde o progresso não é medido pelo Produto Interno Bruto, mas sim pelo Índice de Felicidade da População

O REINADO DE BUTÃO tem um propósito humanístico, focado nas relações sociais de cooperação e paz entre todos, valores não computados pelo mercado financeiro ocidental. O conceito de felicidade está associado à boa qualidade do relacionamento humano em seus diferentes níveis, como família, amigos, comunidade, governo e natureza. É nesse contexto que o trabalho voluntário se encaixa: todos devem servir ao outro e à sua comunidade.

Prova disso são os eventos mais importantes do calendário butanês, os Tsechus, que são belíssimos festivais religiosos que acontecem em grandes monastérios e dzongs por todo o país durante o outono, período de descanso dos fazendeiros. A organização da festa é fruto do trabalho voluntário dos moradores da vila que acolhe os festivais.

Assisti a um desses eventos no vilarejo de Ura, situado no mágico vale de Bhumtang, com suas magníficas vistas das montanhas e verdes campos de arroz. As apresentações tiveram como cenário um pátio a céu aberto com um enorme templo ao fundo. Os bailarinos e músicos são monges e voluntários da comunidade, treinados para a apresentação. Eles vestem rebuscadas fantasias e máscaras que representam animais, deuses e demônios. Os mestres de cerimônia são palhaços (os atsaras) que, além de conduzirem a festa, entretêm a platéia nos intervalos e arrecadam fundos para o festival do ano seguinte.

As danças são lindas. Os bailarinos entram no pátio guiados pelo som dos clarinetes, tocados por uma fila de monges com chapéus vermelhos pontiagudos. Completada a entrada, os monges se retiram e uma trupe de músicos começa a tocar instrumentos de sopro similares ao nosso oboé, assim como tambores e instrumentos que parecem chifres de animais.

As coreografias transmitem mensagens religiosas e retratam parte da história do país. A Dança do Chapéu Preto purifica a terra, assusta os maus espíritos e encena o assassinato do rei antibudista Langdharma. Em seguida, assisti à Dança dos Tambores de Dramitse, encenada por 12 homens vestidos com máscaras de animais, que celebram a vitória da religião. E assim seguem quase 12 horas ininterruptas de apresentação.

Acredita-se que quem assiste ao espetáculo acumula grandes méritos. Sentadas debaixo da sombra das árvores, as mulheres da platéia vestem suas melhores e mais bordadas kiras, os homens capricham nos tecidos de seus ghos, as crianças brincam com armas de plástico (uma influência direta da televisão, que chegou ao país em 1999) e os monges circulam por todos os lados do grande evento social desse povo. Eu aproveitei o embalo para me vestir a caráter. Foi a forma que encontrei de prestigiar os butaneses e expressar o meu respeito pela cultura e pelo festival.

DESCONTRAÇÃO (acima): Bate-papo entre monges que moram no forte de Bunthang; acender velas e incensos (abaixo) é uma prática diária até entre os pequenos monges

AO CONTRÁRIO DO MUNDO ocidental, que enriquece a partir do desmatamento das florestas e da deterioração de seu patrimônio cultural, o Butão não se perverte pelo dinheiro e pelo consumo. “Não queremos nos manter isolados do mundo. Queremos prosperidade, mas não à custa da deterioração de nossa cultura e de valores tradicionais. Desejamos nos beneficiar das coisas boas do mundo ocidental, mas no ritmo do nosso próprio passo, de acordo com as nossas necessidades e quando sentirmos que é a hora certa”, explica a rainha Ashi Dorji Wangmo Wangchuck, uma das quatro esposas do rei, no seu livro A Portrait of Bhutan (Um retrato do Butão, não lançado no Brasil).

Por isso eles esperaram até 1983 para construir o aeroporto de Paro, abrindo de fato, então, o país para o turismo. Mesmo assim, o Butão ainda é para poucos visitantes. Por temerem o impacto negativo da presença maciça de estrangeiros, o governo cobra caro dos forasteiros, limitando o roteiro e sempre exigindo a presença de guias nativos. Em contrapartida, oferecem uma excelente infra-estrutura e hospitalidade a essa minoria.

Sentia-me, a todo momento, extremamente honrada por conhecer um país tão pequenininho e com tantas grandezas. No fim da viagem, tentando entender por que me apaixonei por aquele lugar, a imagem da cebola descascada era perfeita. O contato com as camadas superficiais do Butão tinha sido lindo, com aquelas roupas e paisagens. Mas o que ficou mesmo gravado na fita magnética da minha memória foi o miolo: a experiência de vida que desafia um ocidental a entender que o sucesso não está associado ao dinheiro acumulado, mas ao raro prazer de se sentir feliz, vivendo em paz na sua própria terra e com a natureza. Uma satisfação que acalma a alma e — tal e qual a cebola — faz os olhos dos viajantes saudosos se encherem de lágrimas.

É pra lá que eu vou!
O Butão possui apenas uma companhia aérea, a Druk Air (drukair.com.bt), que opera dois a três vôos semanais (dependendo da temporada) saindo da Índia, Nepal e Tailândia. O trecho de Katmandu (Nepal) a Paro, com lindíssima vista da cadeia do Himalaia, é recomendado. Por terra, uma opção é via Phuntsholing, cidade ao sul do país que faz divisa com o estado indiano de Bengal do Oeste, a apenas 186 quilômetros de Paro.

A goiana Laís Fleury tem 33 anos, é uma das fundadoras da Associação Vaga Lume e empreendedora social reconhecida pela Ashoka (ashoka.org.br). Atualmente trabalha como instrutora de atividades ao ar livre para a Outward Bound Brasil (obb.org.br) e para a Nols, a National Outdoor Leadership School (nols.edu)


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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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