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    A terra dos contentes
A brasileira LAÍS FLEURY narra sua intrigante viagem ao misterioso país asiático Butão, onde o progresso não é medido pelo Produto Interno Bruto, mas sim pelo Índice de Felicidade da População

DESLUMBRANTE (em sentido horário): Máscaras e outros adereços compõem o Tsechu, um festival religioso no vilarejo de Ura; estupas são pequenos monumentos de barro nos quais ficam as oferendas dos fiéis budistas; butaneses felizes da vida numa feira de rua

Antigamente havia um zoológico em Timfu, mas o rei mandou soltar os bichos, pois o aprisionamento não é compatível com os dogmas budistas. Assim que ganharam liberdade, quase todos os animais desapareceram nas florestas do entorno, exceto um exemplar do takin, um curioso quadrúpede reconhecido como o animal nacional do Butão, que ficou rondando as ruas, sem saber para onde ir. Conta a lenda que esse estranho bicho peludo é o resultado do cruzamento da vaca com a cabra. A mistura fora criada pelo lama Drukpa Kunley, conhecido como Divine Mada Man, para provar à população local seus poderes sobrenaturais durante uma visita no século 15. Se é verdade eu não sei, mas que o animal existe, existe. Eu o vi com meus próprios olhos.

TER TEMPO, PARA OS BUTANESES, é algo precioso, uma dádiva a ser cultivada. Ao contrário do ritmo frenético do mundo ocidental, investir tempo na prática de esportes, no convívio coletivo e no vazio do descanso é digno de respeito. “A mente calma encontra paz mesmo diante de momentos difíceis”, dizia Karma Ura.

Foi numa segunda-feira, às 3 horas da tarde, que eu assisti, em meio a uma numerosa platéia, a um jogo de arco e flecha, o esporte nacional predileto dos butaneses, equivalente ao nosso futebol. Os arcos e as flechas são tradicionalmente feitos de bambu e os alvos estão num grande campo a uma distância de 150 metros (em jogos internacionais são meros 50 metros). A cada ponto marcado, os jogadores comemoravam com uma dança em roda e uma cantiga. O campo a céu aberto era lindo. A comportada platéia, composta por monges e predominantemente masculina, vestia coloridos e elegantes ghos, inspirando uma atmosfera medieval. Fiquei horas assistindo ao jogo, fascinada por ver essa antiga prática profissional nos tempos atuais.

O ato da contemplação tem muito a ver com o modo de vida dos butaneses. Os mais de 2 mil templos e monastérios espalhados por todo o país e a onipresença de monges de quimonos vermelhos indicam a importância que a religião budista exerce em quase todos os aspectos da vida deles. Os templos são freqüentados diariamente, a qualquer hora, e a prática da meditação é uma atividade habitual como escovar os dentes. Em todos os estados há os dzongs, enormes fortalezas de arquitetura tipicamente butanesa, com altas paredes brancas e telhados cor de ameixa, envolvendo um complexo de pátios, templos, escritórios administrativos e acomodação para monges. Foram construídos por volta do ano de 1600 em pontos estratégicos, com o intuito de se defenderem dos ataques e invasões de outros países. Imponentes, são avistados de longe, no alto das montanhas e das colinas. Certamente são o cartão-postal do Butão.

Os exercícios mentais dos butaneses não são direcionados a coisas materiais, mas sim à compaixão e ao bem-estar dos seres vivos de todo o universo. Na minha convivência com Karma Tshering, notei esses valores nos mais singelos atos. “Eu gostaria de compartilhar o privilégio deste momento com todos os seres vivos do mundo”, dizia ele quando via uma bela paisagem ou entrava em algum monastério que o emocionava. Nas visitas aos templos, doava dinheiro e me explicava que oferendas eram um hábito. Ao comer, antes de dar a primeira colherada, espalhava um pouco de comida ao seu redor como forma simbólica de compartilhar o alimento com seres que não o têm.

O conceito de felicidade está associado à boa qualidade do relacionamento humano
em seus diferentes níveis, como família, amigos, comunidade, governo e natureza

BEM VESTIDOS (em sentido horário): Meninos trajando seus ghos assistem aos espetáculos de danças religiosas; a combinação de cores dos tecidos feitos à mão das kiras, o traje tradicional das mulheres, chama a atenção dos ocidentais; estar próximo da natureza e preservá-la é levado a sério no Butão

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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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