 |
| FORÇA: Eric Jackson na margem do rio Caney Fork, no Tennessee |
O LESTE DA PROVÍNCIA CANADENSE DE ONTÁRIO é uma região agrícola completamente plana, repleta de silos, velhos celeiros e pradarias até onde a vista alcança. Não há quase nada que indique que um dos maiores rios do país corre por esse terreno vazio, nem que esse rio - que na primavera tem a cor de espuma de cerveja preta - se afunila por um desfiladeiro escarpado, criando uma das maiores ondas permanentes do mundo, algo ao mesmo tempo temido e reverenciado pelos melhores canoístas de corredeiras do planeta. Numa tarde de terça-feira muito fria no início de maio, menos de uma semana depois de o rio Ottawa terminar de descongelar, 175 desses canoístas se reuniram para combater uma onda monstro conhecida como Greyhound Buseater, no campeonato mundial de caiaque freestyle de 2007.
De longe, o mais famoso desta lista era Eric "E. J." Jackson, o paizão do freestyle e - segundo sua própria estimativa, assim como de quase todo mundo - o canoísta mais premiado da história. O tricampeão mundial é pai e treinador de dois canoístas profissionais extremamente talentosos, além de presidente da Jackson Kayak, a fábrica de embarcações para corredeiras que mais cresce no país. Aos 43 anos de idade, é o patriarca de sua própria dinastia do caiaque, com uma personalidade extremamente expansiva e, dizem, um ego do mesmo tamanho. Ele veio com sua esposa, Kristine, de 37 anos, e seus filhos superastros, Emily, de 17 anos, e Dane, de 13, para tentar a vitória dos Jacksons em todos os campeonatos mundiais - ou, em termos menos modestos, buscar a total dominação global do caiaque freestyle.
As chances estão a seu favor e o clima é de otimismo - embora meio caótico - no quartel-general dos Jacksons na véspera da competição. A família está morando numa casa de fazenda alugada, a menos de um quilômetro da Buseater. Seu trailer gigante, com o caiaque de Jackson pintado na lateral, está estacionado na rua, e há caiaques de todas as cores espalhados pelo gramado. E. J., Dane, Emily e o namorado de Emily, um canoísta de 18 anos chamado Nick Troutman, patrocinado pela Jackson, acabaram de voltar de seu último treino, jogando suas roupas impermeáveis e saias na cerca para secarem.
"A BUSEATER ESTÁ COM TUDO!", grita E. J., empolgado, seus cabelos negros ainda molhados do rio. Compacto e musculoso, com 1,67 metro de altura, ele fica andando sem parar, uma mistura de nervosismo e entusiasmo juvenil. Do lado de dentro, uma dúzia de canoístas patrocinados pela Jackson - alguns presentes para competir, outros simplesmente para dar apoio à tribo - estão aglomerados ao redor de laptops, editando o novo DVD promocional da empresa. Kristine saiu para uma reunião com os organizadores do evento, por isso o jantar não éaquela refeição própria para atletas, e sim um esquema self-service: salada de batata, batatinha chips direto do pacote, pão, refrigerante e uma tigela de fruta.
 |
 |
| FOTOS : SENTIDO HORÁRIO, DO TOPO À ESQUERDA: STEPHEN WRIGHT, COREY RICH, DANE JACKSON E STEPHEN WRIGHT |
E. J. dispensa o jantar e se enfia no trailer para planejar sua apresentação de freestyle numa planilha de computador. Nas preliminares do dia seguinte, ele terá direito a quatro tentativas de 34 segundos na Buseater para fazer quantas acrobacias puder. Algumas das acrobacias - como a McNasty, um salto mortal aéreo em parafuso - ele mesmo criou em seus 15 anos de carreira na categoria. Cada manobra recebe pontos por execução e dificuldade, e o programa de computador de E. J. o ajuda a calcular quais combinações de manobras podem gerar o maior placar possível.
"Eu fico nervoso mesmo nas etapas iniciais", admite E. J., ao sair do trailer, uma hora depois. "Você não tem que dar tudo, tem apenas que se classificar. Eu me saio melhor sob pressão, quando está em jogo perder ou ganhar.
" Para entrar no clima, ele se senta à mesa de jantar com os demais para assistir ao vídeo promocional. "Dá só uma olhada nisso!", tagarela E. J., enquanto assiste a si mesmo fazendo um back flip no Nilo Branco, em Uganda, onde esteve com a galera da Jackson por cinco semanas no inverno anterior. "Iraaaado!" Dane, que estava deitado na sala jogando videogame, vem pulando em seu saco de dormir para assistir.
 |
FELIZES: E. J. com os filhos, também canoístas, Dane e Emily
|
Mais tarde, depois de E. J. ir dormir, os não-Jacksons se reúnem na cozinha para discutir as perspectivas do chefe deles na competição. "As descidas de treinamento dele hoje foram um desastre", sussurra Clay Wright, de 40 anos, um canoísta profissional e homem de marketing da Jackson Kayak, erguendo as sobrancelhas. "Ele parecia outra pessoa lá."
Não é um bom sinal, diante do monte de canoístas jovens e entusiasmados que não querem nada mais que derrotar o atual campeão e acabar com a sua lendária bravata. Mas, para E. J., há mais em jogo do que simplesmente outra vitória. Ele construiu um negócio e sua vida familiar com base em sua habilidade no caiaque. Outro título mundial vai elevar seu cachê, o que é bom para a empresa - com quatro anos de existência e prestes a se tornar lucrativa - e igualmente bom para sua esposa e filhos. É uma situação precária, mas E. J. é um otimista incorrigível. "Eu quero muito ganhar, porque tudo indica que eu deveria ganhar", ele me diz, a certa altura. "Nick vai se sair muito bem. O segundo lugar está bom para ele."
PERGUNTE AOS OUTROS CANOÍSTAS o que eles acham de E. J. e a resposta será uma mistura de admirações e queixas, muitas vezes saídas da mesma boca. Por um lado, E. J. está vivendo a vida que a maioria das pessoas sonha: viaja pelo mundo com sua família e ganha quase todas as competições de que participa. Por outro lado, ele é exibido e competitivo, e vive monopolizando as atenções do público e da mídia.
"E. J. é intenso demais", reclama Patrick Camblin, um bem-sucedido canoísta profissional de 25 anos. "Isso não é divertido, mas ele finge que é. Cara, vê se cresce!" Mas quando pergunto se a paixão de E. J. pelo esporte parece ser genuína, Camblin alivia um pouco. "Está certo", responde. "Se ele está contente com quem é e o que está fazendo, sorte dele. Acho que é isso que é felicidade."
"Ele é meio arrogante e convencido", conta Ken Hoeve, gerente de marketing da marca rival Dagger Kayaks. "Mas não dá para dizer que ele está contando vantagem quando está falando a verdade. Quem fala mal dele está mesmo é com inveja." E. J. parece se orgulhar de sua reputação. "Eu não faço concessões", disse-me um mês antes do campeonato de freestyle. Eram 22 horas e ele estava esparramado numa poltrona no chalé de madeira de 325 metros quadrados dos Jacksons, perto do rio Caney Fork, na cidade de Rock Island, no Tennessee, a uns 150 quilômetros a sudeste de Nashville e a 1,5 quilômetro de um dos melhores pontos para canoagem estilo playboat (caiaque de rodeo) do sudeste dos Estados Unidos. A casa, terminada no ano anterior, saiu cara para a família, mas deu a Emily um quarto só para ela - um luxo depois de seis anos morando num trailer no qual os Jacksons viajavam de rio em rio pelo país para que E. J. pudesse praticar canoagem em tempo integral.
"Não importa de que ângulo você encare, o que eu faço
é superegoísta", admitiu E. J. "Mas também passo o
maior tempão com minha família e dou ótimas oportunidades a eles"
"Estou vivendo a vida que sempre quis", alegou E. J., praticamente gritando na casa cheia de eco. Ele fala alto e lê lábios para compensar a perda de 50% de sua audição desde a infância. "Faço o que quero. Dirijo meu negócio como quero. Entro no meu caiaque quando quero. Gente que faz concessões não é criativa."
Ou talvez só não seja tão motivada. E. J. passou a última década planejando sua vida perfeita, classificando de modo sistemático suas prioridades e se livrando de qualquer coisa que ameaçasse seus objetivos. É claro que teve de ouvir um monte por enfiar sua mulher (número 1 em sua lista) e filhos (número 2) em uma casa motorizada para poder se devotar à canoagem (supostamente o número 3). "Não importa de que ângulo você encara, o que eu faço é superegoísta", admitiu. "Mas também passo o maior tempão com a minha família e dou ótimas oportunidades a eles."
Kristine, a única entre os Jacksons que não pratica a canoagem, tem uma visão mais realista sobre seu lugar na vida de E. J. "Você precisa adotar as paixões do seu parceiro ou está condenado", diz. "Eu sempre entendi que o caiaque vinha em primeiro lugar. Nos 20 anos em que estamos juntos, nunca tentei competir com ele porque sei que perderia." A obsessão de E. J. por corredeiras vem desde 1979, quando ele tinha 15 anos e era campeão estadual de natação do estado norte-americano de New Hampshire. Então, seu pai lhe comprou um caiaque e E. J. aprendeu sozinho como usá-lo num rio próximo à sua casa. Na época, caiaque em corredeiras era um esporte pouco conhecido, que envolvia descer um rio fazendo slalom. "Fiquei bom naquilo muito rápido e adorei", lembra. "Nunca apareceu ninguém que fosse melhor que eu."
Em 1990 E. J. já competia em tempo integral e eles
viviam sem dinheiro. Ele teve que penhorar seu
equipamento de camping para comprar
fraldas e rondava as pizzarias para ver se
descolava uns pedaços sem dono
Em 1984, aos 19 anos, E. J. se transferiu da Universidade do Maine para a Universidade de Maryland para tentar ser convidado para a equipe de canoagem dos Estados Unidos, sediada no rio Potomac. Ele levou cinco anos para conseguir entrar e neste meio tempo ficou sem dinheiro e trancou a faculdade. Conheceu Kristine em 1987, quando ela por acaso foi assistir a uma competição num rio em Vermont. No ano seguinte, se casaram. Em 1990, quando Emily nasceu, E. J. já competia em tempo integral e eles viviam sem dinheiro. Ele teve que penhorar seu equipamento de camping para comprar fraldas e rondava as pizzarias perto da casa alugada em que viviam para ver se descolava uns pedaços sem dono. "A Kristine odiava todo o conceito", conta E. J., "mas nunca tentou me impedir".
Os anos seguintes foram difíceis para E. J. Ele terminou o slalom em 13º lugar na Olimpíada de 1992, em Barcelona, e não conseguiu entrar na equipe norte-americana em maio seguinte, algumas semanas antes de receber uma advertência das autoridades do esporte dos EUA por pedir esmolas - usando seu uniforme olímpico - nas ruas de Washington. Ao mesmo tempo, estava fazendo nome no freestyle que começou a fazer sucesso no início da década de 90. E. J. parecia mais adaptado a esse estilo acrobático de canoagem, no qual os competidores realizam manobras em ondas ou em redemoinhos dentro de corredeiras - os chamados buracos. Membro da primeira equipe de freestyle dos EUA, ele ganhou o título mundial de 1993 em outubro - uma mudança de ritmo bem-vinda, principalmente porque veio poucas semanas depois de Dane ter nascido prematuro de sete meses, pesando menos de um quilo, com 70% de perda de audição. "Ele nasceu em meio à dor", descreve E. J.
E. J. continuou com o freestyle, mas não desistiu totalmente do slalom. A canoagem nunca deu muito lucro - um atleta de primeira linha pode levar para casa até US$ 2.500 em prêmios por ano, mais uns US$ 20 mil de patrocinadores -, e o pouco que havia naqueles tempos estava no slalom, que, diferente do freestyle, também oferecia a chance da glória olímpica. Mas eles chegaram ao fundo do poço em 1996, quando E. J. não conseguiu se classificar para os jogos de Atlanta. "Era para eu ganhar a Olimpíada, nem pensava em não me classificar", lamenta. "Eu teria feito tudo diferente se soubesse que não entraria para a equipe. A lição foi que todos aqueles sacrifícios não valeram a pena." "Foi uma época horrível pra gente", conta Kristine. "Eric estava longe o tempo todo e eu fazia o possível para manter a casa feliz - lavando roupa, cortando grama - mas ele não estava nem aí. Rolava um conflito enorme e não tinha jeito de escapar dele." No início de 1997, Kristine convocou uma reunião de família. "Chegamos à conclusão de que cada um precisava de uma coisa muito importante para si próprio", explica. "A minha era estar com as crianças o tempo todo e a de E. J. era a canoagem." Foi idéia dela desistirem da casa e se mudarem para um trailer, de modo que a família pudesse estar toda junta enquanto E. J. competia no circuito do freestyle. Ele trabalhava para a Wavesport, uma marca pioneira na modalidade, projetando alguns dos primeiros caiaques modernos para freestyle - mais curtos que os caiaques para slalom e com o fundo mais chato, no estilo das pranchas de surf -, e a empresa concordou que ele trabalhasse na estrada para praticar seu esporte. Tudo se acertou", conta E. J. "Na hora viramos o casal mais feliz do mundo. Isso tirou toda a pressão de cima de mim e comecei a ganhar de novo. A vida familiar estava perfeita."
Leia mais sobre esta matéria na edição de Março da revista Go Outside.