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    "Quero que este filme pegue as pessoas pelo coração"
Onze anos depois do lançamento do livro Na Natureza Selvagem (Into the Wild, no original), de Jon Krakauer, ter causado sensação entre os aventureiros e simpatizantes, o diretor Sean Penn, seu elenco, equipe e a família de Chris McCandless falam sobre a tentativa deles de levar a viagem fatal de Alexander Supertramp para a telona, no filme que chega ao Brasil este mês

POR CHRISTOPHER KEYES

FOTO DAN WINTERS
FICÇÃO DO REAL: O protagonista do filme Na Natureza Selvagem, Emile Hirsch, fotografado em fevereiro de 2007 em Lancaster, Califórnia
SÃO SÓ OITO E MEIA DA MANHÃ quando vejo os nudistas ao lado da van do bufê. Estou entrevistando o produtor-executivo da versão cinematográfica do clássico Into the Wild (Na Natureza Selvagem, em português), Frank Hildebrand, quando um automóvel GMC Yukon pára no estacionamento ao nosso lado e um homem peludo com a pele curtida, usando um roupão de banho azul-claro que vai até os joelhos, sai pela porta do passageiro. Uma lufada de vento ergue o roupão e - opa!

"Quando Chris estava acampado aqui", explica Hildebrand, "ele estava bem ao lado das termas Oh-My-God". Estamos do lado do parque estadual do deserto de Anza-Borrego, na Califórnia (EUA), uma árida terra de ninguém repleta de montanhas de pedras vermelhas cobertas de arbustos espinhentos chamados ocotillos e uma baixada desértica que se estende até o lago salino conhecido como Mar de Salton. "Este pessoal são os figurantes na cena que estamos filmando", diz, antes de acrescentar o óbvio: "Mas são nudistas de verdade".

Chris é Christopher McCandless, o jovem de 22 anos de Annandale, Virgínia, EUA, que se formou em 1990 na Universidade Emory, em Atlanta, doou os US$ 24 mil que restavam de seu fundo estudantil para a Oxfam America (braço de uma organização internacional que trabalha contra a pobreza, fome e injustiças sociais), cortou os laços com seus pais e saiu numa missão para escapar de seu passado de menino rico. Por dois anos, ele vagou sozinho pela América do Norte com o nome Alexander Supertramp, abandonando seu carro no deserto do Arizona, viajando clandestino em trens e pegando carona da Califórnia até Dakota do Sul, de Oregon até Utah, de Washington a Baja, e um monte de outros lugares pelo caminho. Então, na primavera de 1992, ele entrou caminhando nas terras selvagens do Alasca para sua última aventura. Quatro meses depois, isolado da civilização por um rio cheio, morreu de fome em um ônibus abandonado na cidade de Fairbanks.

Após detalhar a trágica odisséia de McCandless na edição de janeiro de 1993 da Outside norte-americana, Jon Krakauer expandiu a história no livro de 1996, Into the Wild, no Brasil intitulado Na Natureza Selvagem. O livro ficou 103 semanas na lista de mais vendidos do jornal New York Times e atualmente é lido em salas de aula por toda parte nos EUA, como uma versão não-ficcional do livro O Apanhador no Campo de Centeio, que fala dos mesmos assuntos: famílias disfuncionais, juventude mal-direcionada, o desejo de vagar sem rumo e uma clássica história de aventuras. Ao longo dos anos, centenas de leitores se emocionaram a ponto de escreverem para a família de McCandless. Outros largaram tudo e fizeram peregrinações pelos lugares por onde Chris viajou, incluindo o remoto ônibus no Alasca onde ele morreu.

Da mesma forma, cineastas foram seduzidos pelo livro, mas nenhum mais que o ator ganhador do Oscar e diretor Sean Penn, que passou os últimos dez anos tentando filmar Na Natureza Selvagem. "Essa história simplesmente me acertou num ponto fraco", conta Penn, descrevendo sua descoberta do livro em 1996. "Em parte falava da dificuldade de se confiar na família e na sociedade como um todo, mas o aspecto mais importante era este desejo de viajar que todo mundo tem."

Em 2005, Krakauer e a família McCandless finalmente aprovaram os planos de Penn para o filme (que estreou nos EUA em setembro de 2007 e no Brasil entra em cartaz dia 22 de fevereiro de 2008), em parte graças à sua promessa de manter-se fiel à história original. Meses depois, Penn caiu na estrada com uma equipe e um elenco de astros - incluindo os atores Emile Hirsch, Vince Vaughn, Catherine Keener, William Hurt e Marcia Gay Harden, e o produtor-executivo do filme O Segredo de Brokeback Mountain, William Pohlad. Durante seis meses, a equipe de 150 pessoas viajou pelos EUA, filmando em 36 locais visitados por McCandless. Penn era fanático por detalhes. Tudo tinha que ser exaustivamente acurado, desde a barba do protagonista (Hirsch, de 22 anos, encarna McCandless) até a reconstrução do ônibus no Alasca e, claro, a presença de nudistas de verdade no set.

Hoje é o 78º dia de filmagem. Penn - usando calças jeans, uma camiseta verde, botas e um chapéu de caubói de palha - explica a próxima cena para Hirsch. McCandless será deixado em seu acampamento selvagem por Ronald Franz (interpretado pelo experiente ator Hal Holbrook), um veterano do Exército de 80 anos, que fez amizade com McCandless, oferecendo-se para adotá-lo.

"Vamos usar a regra do 'Cala a boca, porra'", diz Penn, para ninguém em particular. A equipe toda fica em silêncio enquanto assistimos à cena se desenrolar.

"Ação!"

O Ford Bronco de Franz se aproxima do acampamento quase vazio e os dois descem. McCandless senta no capô da caminhonete - como Penn havia determinado - e explica a Franz a sua filosofia sobre arranjar um emprego. "Acho que carreira é uma invenção do século 20", diz. Ele está usando uma camiseta vermelha, shorts de corrida azuis e tênis de corrida da marca New Balance. "Tenho educação universitária. Não sou um destituído. Vivo deste jeito porque quero."

"Na sujeira?", pergunta Franz, olhando para a pequena lona verde que McCandless amarrou entre dois arbustos como abrigo. "Onde está sua família?"
"Não tenho mais família", refuta McCandless.
Na verdade, os pais de McCandless, Walt e Billie, e sua irmã mais nova, Carine, estão todos hoje aqui no set. Carine está a poucos metros e assiste à cena se repetir por mais três tomadas. Esta convergência entre realidade e ficção é ao mesmo tempo incômoda e emocionante, e o jeito como Penn, a sua equipe e a família se juntaram para narrar a história de McCandless é por sua própria conta inacreditável. Aqui eles contam a trajetória de Chris com suas próprias palavras.

Leia mais sobre esta matéria na edição de Fevereiro da revista Go Outside

   
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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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