Passando fome

A idéia de ser classificado como um desaparecido era difícil de aceitar. Quando não se encontra o corpo, a dor não tem fim. Pelo bem da nossa família na França, a gente precisava sobreviver. Eu estava perdido na Amazônia com meu amigo Loïc Pillois. Tínhamos ido ao lugar em fevereiro para uma caminhada de 125 quilômetros pela floresta virgem, que supostamente nos levaria do nosso ponto de partida no rio Approuague até Saül, uma vila de mineradores isolada no meio da Guiana Francesa. Levamos comida suficiente para 11 dias, o tempo calculado para o nosso trekking, mais uma bússola, um facão, uma lona de 5,5 metros quadrados e duas redes.
Em alguns dias, tudo corria bem; avançávamos sem problemas. Em outros, levávamos várias horas abrindo picadas pelos cipós para avançar um mísero quilômetro. Na manhã do 12º dia, 26 de fevereiro, sabíamos que estávamos numa enrascada. Saül fica num pequeno vale, mas a rota à nossa frente não seguia morro acima. Exaustos e sem comida, não tínhamos a menor idéia da parte em que estávamos na nossa trajetória. A dois dias de Saül? Duas semanas?
Porque sabíamos que haveria uma busca, decidimos ficar parados. Usamos a lona para fazer um telhado e dividimos as tarefas. Eu cuidaria da comida e Loïc da fogueira. Só tínhamos um isqueiro, por isso, Loïc nunca deixava o fogo apagar. Ele foi incrível.
 |
| O bom, o mau e o sortudo Pra caramba |
Quando é absolutamente necessário, fica fácil acessar o instinto de sobrevivência. Regredimos a um estado bem primitivo. Era estação das chuvas: água não faltava. Comíamos qualquer coisa que desse. Se achássemos uma planta comestível, um dos dois a experimentava. Comemos besouros, e fizemos armadilhas para tarântulas. Elas são grandes e peludas. Se forem bem cozidas, o veneno evapora, e as aranhas se tornam comestíveis. Ainda assim, estávamos famintos. Mastigávamos só por mastigar. Psicologicamente, isso ajudava. Comíamos até insetos que se juntavam em nosso excremento.
Ocasionalmente, ouvíamos helicópteros. Mas não conseguíamos vê-los e eles não conseguiam enxergar nossa fogueira ou a nós através da densa copa das árvores. Passavam-se dias sem acontecer nada, o que nos deixava em puro pânico. Será que a busca havia sido cancelada? Soubemos depois que as missões de resgate foram mesmo interrompidas no dia 26 de março, 40 dias após o início do nosso trekking.
Foi mais ou menos neste período que concluímos que não seríamos encontrados e resolvemos abandonar o acampamento. Calculamos para qual lado deveria ser o oeste, direção de Saül, e partimos. Uma semana depois, capturamos uma tartaruga. Foi a primeira vez que comemos carne em cinco semanas e devoramos absolutamente cada pedacinho dela - pele, garras, escamas. Esquentamos o sangue no fogo e o bebemos. Para ser honesto, estava delicioso.
No dia seguinte, pegamos mais uma aranha. Nós a cozinhamos, mas não o bastante. Seu veneno ainda estava ativo. Eu cuspi tudo, mas o lado esquerdo da minha língua foi engolido pela dor. Ela inchou e meus lábios ficaram dormentes. Foi excruciante. Tentei continuar andando, mas estava fraco demais. Sofria de envenenamento intestinal e não tinha como prosseguir. A esta altura, Loïc tinha perdido 15 quilos e eu, 26. Uma vez eu sentei no chão e senti o meu cóccix.
Loïc me abandonou para entrar na selva, numa última tentativa de encontrar socorro. Um dia e meio depois, em 5 de abril, apareceu um helicóptero, que ficou pairando sobre a copa das árvores. Loïc tinha conseguido. Um soldado desceu de rapel os 50 metros até o chão. Ele estava chorando quando me pegou em seus braços. Eu também, claro. Depois de 51 dias na selva, tudo tinha finalmente acabado.
Disseram-me que eu estava a apenas 4 quilômetros de Saül. Não conseguia acreditar. Tinha andado 120 quilômetros para falhar quando faltavam menos de 5. Eu estava furioso, mas não com a floresta. Fui eu quem comi a aranha. Fui o responsável pelo que aconteceu. Voltarei lá algum dia com minha namorada, que foi para a Guiana assim que soube que eu estava desaparecido. Vamos achar o acampamento final e andar os últimos 4 quilômetros juntos.
POR GUILHEM NAYRAL CONTADO A ANDEW TABER
Leia mais sobre esta matéria na edição de Fevereiro da revista Go Outside