O passado, o presente e o futuro da mountain bike passam pelo inventor da modalidade, Gary Fisher. Durante um rolê em Portugal — de bike, claro —, o californiano contou à videorrepórter RENATA FALZONI como fundou a fábrica Mountain Bike (nome que ele tentou patentear), falou sobre o boom que o negócio teve mundialmente e como será a bike do futuro, com câmbio inteligente e aros maiores e mais leves
ENQUANTO NA CALIFÓRNIA, nos Estados Unidos, Gary Fisher e seus amigos hippies inventavam a mountain bike — empurrando bicicletas adaptadas monte Tamalpais acima, e depois despencando pelas ladeiras do condado de Marin, em São Francisco — eu, aqui em São Paulo, pedalava bicicletas inglesas adaptadas com marchas pelas trilhas urbanas da capital e pelas fazendas de café no interior, sempre acompanhada por meu primo Kaliko Coelho de Souza, um transformador de bicicletas.
Minha primeira mountain bike foi uma Caloi Cruiser, adaptada para dez marchas. Linda. Nesta época, na segunda metade da década de 80, o Brasil vivia isolado. Com exceção da música e da moda, muito pouco do que rolava lá fora era conhecido por aqui. Mas o inconsciente coletivo naquele momento levava as bicicletas de pneus-balão às trilhas em montanhas. Essa era uma busca universal.
A minha primeira mountain bike de verdade foi uma Gary Fisher CR-7. Apaixoneime pela bike e também por seu inventor. Gary começou a pedalar em 1963, com 12 anos de idade, competindo na liga amadora de ciclismo dos EUA. Logo em seguida, ele descobriu o ciclocross (modalidade que usa bikes de speed com algumas alterações para competições em circuito de terra), mas retornou ao ciclismo de estrada em 1972. Foi em 74 que Gary montou sua primeira Schwinn Excelsior, com marchas e freios potentes. Mesmo com 20 quilos, essa bicicleta foi considerada uma das dez melhores mountain bikes de todos os tempos, de acordo com a revista norte-americana Mountain Bike Action. Foi um modelo que permitiu a Gary pedalar as trilhas montanha acima, enquanto seus colegas empurravam suas clunkers, como eram chamadas as velhas bicicletas adaptadas para descer as montanhas da região de São Francisco.
Hoje, Gary Fisher tem 58 anos de idade e vive a plenitude de uma excelente forma física e mental. A entrevista que se segue foi feita no alto da serra da Estrela, em Portugal, enquanto ele e um grupo de brasileiros (incluindo eu), portugueses, norte-americanos, canadenses e suecos pedalavam pelas vilas históricas da terrinha. Aliás, uma viagem e tanto — eu recomendo.
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PLENITUDE: Aos 58 anos, Gary feliz da vida na fábrica de bikes que leva o seu nome |
Go Outside: Gary, o que é a bicicleta para você?
Gary Fisher: É minha amiga-amante de ferro, confiável e fiel. A bicicleta é liberdade, saúde, felicidade. É a invenção mais feliz dos últimos 200 anos. Traz alegria para pessoas no mundo inteiro. Um pouco de suor pingando e olhos ardendo, traseiro dolorido, pernas gritando, fome. Isso é bom. Isso é a bicicleta.
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| EMBALOS DE SÁBADO À NOITE: O moleque Gary Fisher na década de 70, ainda em cima de uma bike speed |
Do seu ponto de vista, como a mountain bike começou?
Mountain bike é a nossa plantinha, a árvore que nós cultivamos. Nossa turma de amigos da escola curtia tocar bateria, dançar e ir, no início dos anos 70, às montanhas para procurar montanhasrussas naturais. Por US$ 5 ou 10, comprávamos uma bicicleta velha, e saíamos andando por aí, empurrando essas bicicletas montanha acima, pois eram modelos de uma marcha só. Eu era ciclista e mecânico, e peguei alguns câmbios japoneses, um conjunto de pedivelas de T8 francesas para as marchas, e coloquei a alavanca de câmbio no guidão, pois não queria tirar as mãos dele para alcançar o tubo inferior tradicional, onde ficava a alavanca nas bicicletas de dez marchas. Também coloquei uns freios grandes de tambor de uma tandem e construí rodas largas de aço. Eram rodas Schwinn S2, com 25 quilos cada, pesadas, mas que funcionavam. Eu as conectei com alavancas de freio de motocicleta, usando cabos de freio de bicicleta, e isso virou um freio muito forte. Foi revolucionário. Os caras olharam para a bicicleta e tiraram sarro, mas quando fomos pedalar, eu abri distância nas subidas, enquanto eles empurravam a bike. Nas descidas, eu era mais rápido também, pois tinha freios poderosos que não se desgastavam. E eles logo falaram: “Ok, eu quero uma também”. Tudo começou com dez ou 20 pessoas. Depois de três ou quatro anos, havia 200 pessoas em Marin com essas bikes, mais 200 pessoas no lado leste da baía de São Francisco. Depois, fizemos uma prova de downhill chamada Repack. Era um circuito de 3 quilômetros, com um desnível de 240 metros. Vencia quem descia em menor tempo. Era grandioso. Os ciclistas locais animaram-se com essa idéia maluca de despencar com a bicicleta morro abaixo na terra.
Em que ano foi isso?
Em 1977. Foi uma época maravilhosa. Nunca pensei que se espalharia com tanta velocidade pelo mundo. Aquelas provas malucas de freeride e downhill no Tamalpais e, agora, tantas pessoas fazendo truques incríveis. Quanto mais eu vivo, mais me impressiono com as coisas fantásticas que as pessoas fazem com a bicicleta.
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| MORRO ARRIBA: O pai da mountain bike em cima da sua criação |
E quando você começou a montar seus primeiros quadros?
Um dia, um treinador do time nacional me disse: “Gary, você nunca será um grande ciclista de estrada”. Então decidi que era hora de montar uma fábrica de bicicletas. Comecei a empresa com meu colega de quarto, Charlie Kelly. Cada um tinha US$ 300, e com essa grana inauguramos uma empresa chamada Mountain Bike, que na época era um nome original. Antes, as pessoas chamavam as bicicletas de clunkers (uma referência ao barulho das bikes chacoalhando nas descidas), balooners (alusão aos pneus balão) e coisas assim. Muitas pessoas queriam as bicicletas, e nos adiantavam US$ 500 pela encomenda. Procurei diferentes fabricantes de quadros. De longe o melhor era Tom Ritchey. Até então, Ritchey fazia quadros para bikes de estrada, mas não era um negócio estável porque os ciclistas preferiam importar quadros italianos, mais baratos. Então, ele começou a fazer os nossos. Eu ia à casa dele e colocava 22 quadros no meu carro. Depois, os levava ao pintor e aplicava decalques que eu mandava fazer. Comecei a importar peças da França e do Japão. No primeiro ano, vendemos 160 bicicletas. No segundo, foram mil. Uma loucura.
Como você fez os japoneses acreditarem em você e construírem equipamentos especiais para seus projetos?
Eu e meu sócio montávamos apresentações muito boas sobre o esporte. Uma das mais significantes foi na feira de bicicletas de Nova York, em 1980. Os japoneses disseram: “Uau, isso é legal!”. Então, a cada dois ou três meses, eu ia ao Japão e falava o que estava acontecendo, que tipo de equipamento precisávamos construir. Eu os ajudei, mas eles também me ajudaram com bons preços e com um empréstimo de US$ 60 mil do governo japonês. Antes dessa parceria, usávamos equipamentos de tandems, motocicletas, bicicletas de estrada e de turismo. Até que a Shimano fez o primeiro grupo XT, há 25 anos. Funcionou bem e fez com que as bicicletas ficassem muito profissionais. Aí, em 1983, nos especializamos em importar bicicletas do Japão. Antes, era preciso comprar uma bicicleta, levála a uma oficina e esperar de três a seis meses até ela ficar com as características de uma bike de montanha. Quando o consumidor começou a entrar numa loja e sair com uma bicicleta pronta, as coisas realmente decolaram nos EUA. Ainda em 83, fui à França fazer uma promoção nos Alpes, e a imprensa toda estava lá. “Isso é um sucesso californiano doido e nós gostamos”, piravam eles. O novo esporte repercutiu em toda a Europa.
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