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    7 LIÇÕES NUMA SALA DE AULA SELVAGEM
No final de 2007, a Go Outside conferiu o que os respeitados instrutores da Nols - uma das principais escolas de liderança em atividades ao ar livre do planeta - têm, de fato, a ensinar. O repórter DANIEL NUNES GONÇALVES acompanhou um trecho da expedição que explorou a Amazônia de sul a norte, em três meses de trekking e canoagem

O BARQUINHO VAI: Estudantes da Nols percorrem rio Alegre, em Vila Bela (MT). Ao lado, aluna carrega canoa na segunda expedição da Nols na Amazônia

ERA UMA NOITE QUENTE DE SETEMBRO à beira de um abismo da serra Ricardo Franco, uma desconhecida preciosidade ecológica no município de Vila Bela da Santíssima Trindade, na fronteira do Mato Grosso com a Bolívia. Durante o dia, os termômetros superavam 40 graus, e a expedição de 13 jovens e três instrutores havia sofrido para encontrar míseros 16 litros de água escura para saciar a desesperada sede. Aqueles primeiros dias de uma sessão de trekking de 90 quilômetros que duraria um mês tinham deixado o grupo cansado. Todos já se preparavam para dormir quando um pânico coletivo se instaurou. Um exército de milhares de formigas saúvas se espalhou, devorando, como num filme de horror, as mochilas, as roupas e até as barracas. “Parecia um pesadelo, começamos a sofrer com as picadas e corremos para desmontar o acampamento”, conta o paraibano Edmilson Fonseca, 32 anos, o único brasileiro entre os estudantes do segundo curso-expedição realizado no Brasil pela norte-americana Nols (National Outdoor Leadership School), a mais respeitada instituição de ensino experiencial ao ar livre do planeta. “Acampo desde os 13 anos, quando era escoteiro, e nunca tinha visto uma cena daquelas”, contou.

A recepção nada amigável das saúvas era o inesperado "batismo" de boas-vindas do cerrado brasileiro ao grupo dos Estados Unidos, a maioria com idade entre 18 e 20 anos, que tinha começado sua viagem na Chapada dos Guimarães (MT), sede da Nols no país. O episódio foi usado como lição sobre onde acampar, e se juntou ao caldeirão de ensinamentos da escola. Ao longo de três meses, Edmilson, o felizardo ganhador da única bolsa de estudos anual da Nols destinada a brasileiros, cruzaria com seus colegas de classe a Amazônia de sul a norte numa sala de aula selvagem, gigante e diferente. Durante a expedição, os alunos aprendem técnicas de trekking e canoagem com instrutores conceituados. Conhecem a diversidade cultural do país por meio da convivência com caboclos, índios, quilombolas e seringueiros. E têm acesso a uma grade curricular feita sob medida para amantes das atividades outdoor. Ela pode ser resumida em sete lições básicas, que passamos adiante nas próximas páginas.

1ª LIÇÃO: APRENDA A ACAMPAR

Foi no 22º dia da expedição, na ilha do Boto, próxima a Vila Bela, que me integrei ao grupo e ouvi os relatos sobre o ataque das saúvas e a falta d'água na serra. O acampamento tinha quatro barracas, uma para cada grupo de quatro alunos e outra para os três instrutores (dos oito que se revezariam ao longo do curso). A lua cheia já prateava o caudaloso rio Guaporé diante de nós e o astral da galera fazia lembrar minhas viagens da adolescência, 20 anos atrás. Vi-me ali, parecido com o ruivinho de 18 anos do estado do Oregon, Seth Walton, que tocava Radiohead no violão enquanto a turma assava um bolo no fogareiro - sim, bolo, é possível. Em seguida, rolaria um "Parabéns a você" bilíngüe pelo aniversário de 50 anos do chefe dos instrutores, o britânico Jonathan Kempsey, ou Jon. Meus dez dias ali prometiam ser uma mamata.

Eu achava que sabia viajar e que já conhecia as principais manhas do excursionismo e do camping selvagem. E me frustrei logo que tive minha mochila de 65 litros checada pelos instrutores, procedimento pelo qual já tinham passado os alunos no início da caminhada. A idéia era que eu não carregasse peso desnecessário e pudesse levar panelas, comida, cilindro de benzina inflamável para o fogareiro e parte do equipamento do grupo dos instrutores, ao qual eu me integraria e com quem eu dividiria refeições. Derepente, foram tirados da minha mala papel higiênico, sabonete, minixampu, toalha e tênis extra. Até canivete, capa de mochila, garfo e faca dançaram. Fui obrigado a seguir viagem com apenas duas peças de cada tipo de roupa - cuecas, meias, calças e camisetas - e uma única colher. Canivete, bastaria o do instrutor.

Um pouco contrariado, cá entre nós, burlei a fiscalização carregando um desodorante compacto no bolso lateral e decidi assimilar as outras instruções. Primeira regra: os rios no caminho seriam nossas banheiras naturais, assim como serviriam para lavar a roupa suja e a louça das refeições (embora a bucha e o detergente também fossem artigos vetados, tendo seus efeitos desengordurantes substituídos pela areia e pelas folhas das árvores). "E na hora de 'ir ao banheiro', como faço?", perguntei. "Para quê o papel?", responderam. Primeiro, seria obrigatório vestir os gaitors, aquelas polainas para proteção das pernas contra picada de cobras. Depois de definido o esconderijo a pelo menos 60 metros do rio, eu deveria usar uma pequena pá coletiva para cavar um buraco, onde o "produto" seria enterrado, evitando a atração de moscas. A limpeza seria feita com água. E só. No fim, as mãos seriam lavadas com desinfetante. Ao longo dos dias seguintes, criaria minha própria rotina de tomar banho logo depois de "usar o banheiro", e aprenderia outros macetes para uma viagem ecológica e socialmente correta, o que não foi tão fácil assim.

Leia mais sobre esta matéria na edição de Janeiro da revista Go Outside.

   
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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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