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    Rango amigo
O ávido caçador Steven Rinella come praticamente qualquer coisa. Pelo menos, foi isso que ele disse para a gente. Então, o que acontece quando nosso gourmet radical viaja ao redor do mundo para encarar tudo que os ocidentais acham nojento?

Ilustrações Cassiano ReisMinha nova amiga Hong, uma simpática vietnamita de voz rouca, está me servindo mais uma dose de vinho de arroz de uma garrafa que contém os restos de um lagarto, uma serpente, um escorpião e dois cavalos-marinhos, tudo mergulhado em uma mistura vegetal que parece algo que saiu de dentro de um cortador de grama. É 15 de fevereiro, e estamos sentados em uma sala de estar no Quarteirão Velho de Hanói, duas noites antes do início oficial do feriado do Tet. Para muitos, essa palavra traz à tona lembranças da Ofensiva do Tet de 1968, o maciço ataque comunista contra as forças dos Estados Unidos e do Vietnã do Sul que precipitou a gradual retirada norteamericana da guerra do Vietnã. Mas, para os vietnamitas, o Tet é uma festa que dura uma semana, e celebra o Ano Novo Lunar. É como todos os feriados em um só: comida e doces, como na Páscoa, fogos-de-artifício, como no reveillon, presentes, como no Natal. Hong está servindo as doses no espírito da comemoração, mas eu estou tomando para ficar bêbado mesmo. Preciso de toda coragem que puder juntar, artificial ou não, pois estou aqui para realizar um feito ousado e desafiar tabus.

Hong é uma amiga de família de Peter Kastan, um norte-americano de 56 anos que está em sua cozinha a céu aberto, cortando frutas, protegido da chuva por uma lona de plástico. Ele mora aqui com a família de sua esposa vietnamita, Mai, uma mulher atraente de 46 anos, com um filho de cinco, Bao. Peter tem ombros largos, mãos enormes e a cabeça raspada que me lembra a do coronel Kurtz, que Marlon Brando interpreta em Apocalypse Now. Eu o localizei graças ao blog que ele mantém sobre sua vida em Hanói, e ele concordou em me ajudar em minha missão. Agora, um mês depois, estamos prontos para começar. Mas, antes, eles me dão alguns alertas.

"É bom - se você conseguir agüentar", diz Hong.

"O calor te acerta bem no peito", explica Peter. "Dizem que é muito poderoso. Por isso que pode dar boa sorte. Ou má."

Olho para Hong, confuso. Ela me demonstra o calor usando gestos de abano na direção de seu tórax, como se estivesse apagando um incêndio. É um gesto que eu veria muitas vezes durante minha estada no Vietnã, e que geralmente trazia uma mistura de problema, força, tentação e medo, com um toque do bom e velho "que porra é essa". Os gestos de Hong me lembram do que estou sentindo em minha cabeça neste momento. Dou uma olhada para a garrafa de vinho. Será que essa sensação se deve ao fato de que estou bebendo a essência de criaturas conhecidas por serem letais, ou será o karma negativo já caindo sobre mim? De qualquer jeito, vou seguir adiante com o plano. Estou em Hanói para comer Canis lupus familiaris.

LEMBRO DA PRIMEIRA VEZ que me ocorreu que cachorros são comestíveis, em um desses longos e tediosos anos entre aprender a andar de bicicleta e entrar na puberdade. Meu pai achou que eu estava pronto para uma lição de vida, mas como eu ainda era muito novo para ter a conversa sobre abelhas e flores, ele achou melhor me ensinar a limpar um cervo. Meu pai estalou os dedos para chamar nosso beagle, Bo-Bo II, que ele havia apanhado na estrada porque o lembrava do cachorro que tinha quando era garoto, o Bo-Bo I. Mandou o cão ficar de barriga para cima. "Você coloca o cervo de costas", explicou, "com as quatro patas para cima". Usando um palito de misturar bebidas, traçou a incisão imaginária no ventre do Bo- Bo, do rabo ao esôfago. O cão deixou a cabeça cair para trás, extasiado com a atenção dos humanos, enquanto meu pai fingia remover suas entranhas.

Minha família e eu sempre tivemos e amamos cachorros - um monte de viralatas e uma caçadora de patos particularmente habilidosa chamada Duchess -, mas nunca esqueci as implicações da lição do meu pai: por baixo de toda aquela fofura, os cachorros são feitos de carne. Daquele dia em diante, sempre me perguntei onde ficava a linha que separava as coisas que podemos comer (vacas, cervos, galinhas) das que eram tabus (cães, gatos, papagaios). Quem traçou essa linha, afinal de contas? E por que eu tinha de respeitá-la?

Toda cultura tem seus alimentos proibidos, particularmente carnes. Por exemplo, a maioria dos hindus, na crença de que as vacas são sagradas, não comem sua carne; muitos judeus obedecem às proibições bíblicas que os impedem de comer peixes sem escamas e, junto com alguns muçulmanos, porcos. Em vez de sermos guiados por textos religiosos, a maioria dos americanos e europeus seguem definições arbitrárias e flexíveis de "nojento" e "cruel", o que resulta em uma longa lista de hipocrisias e insensibilidades.

Insetos, por exemplo. Cerca de 60 a 80% da população da Terra come insetos, e culturas na Ásia, África e América Latina às vezes dependem deles como sua principal fonte de proteínas. Entretanto, não há um único inseto que seja servido regularmente como comida nos Estados Unidos ou nos centros urbanos brasileiros. Em vez disso, tiramos sarro de culturas insetívoras em programas de TV como o No Limite, em que participantes fazem caretas enquanto se engasgam com baratas por dinheiro.

Sempre me PERGUNTEI onde ficava a LINHA QUE SEPARAVA as coisas que podemos comer (vacas, cervos, galinhas) das que eram TABUS (cães, gatos, papagaios). QUEM traçou essa linha, afinal de contas?

Nosso desprezo estende-se a outras variedades de comida muito apreciadas pelo mundo: tartarugas, rãs, cobras, lagartos, cérebro de macaco, cavalos, cobaias, gatos domésticos, ratos, camundongos e qualquer tipo de ovo que não tenha saído da cloaca de um galináceo. E principalmente cães. Antes das Olimpíadas de 1988 em Seul, Coréia do Sul, ativistas dos direitos dos animais de todo o mundo fizeram tanta pressão sobre o país anfitrião que o governo sul-coreano instituiu uma proibição à venda de sopa de carne de cachorro, um prato tradicional com grande importância cultural. Então, em 2002, quando a Coréia do Sul foi uma das sedes da Copa do Mundo, as organizações de direitos animais norte-americanas prepararam abaixo-assinados e protestaram porque o governo se recusou a combater adequadamente o abate de cães para comida. Os manifestantes conseguiram muita atenção alegando que os sulcoreanos consomem anualmente cerca de um milhão de cachorros. Naquele mesmo ano, os Estados Unidos fizeram eutanásia em cerca de 5 milhões de cãezinhos, perfazendo uma a cada seis segundos. Também em 2002, os EUA continuaram sendo os líderes mundiais no consumo e produção de carne e produtos agropecuários, superando o consumo de carne per capita da Coréia do Sul em quase três para um.

Enquanto muitas das comidas que os norte-americanos consideram coisa de bárbaros são, hoje em dia, pratos principais em continentes distantes, comer cachorros tem, no solo dos EUA, raízes antigas que foram exterminadas pela colonização européia. Milhares de anos atrás, algumas tribos nativas viam os cães não só como companheiros protetores, mas também como uma fonte alimentar de fácil acesso. Em meados do século XIX, o historiador Francis Parkman viajou com alguns índios sioux oglala para perto de Black Hills, Dakota do Sul, e relatou que carne de cachorro era um prato muito apreciado, usado para homenagear hóspedes importantes. Relatos semelhantes podem ser encontrados na história de outros países ocidentais.

Conforme fomos ficando "civilizados", comer carne de cachorro passou a ser associado ao paganismo. Hoje em dia, com certeza você não vai achar carne de cachorro em supermercados, mas não é necessariamente ilegal vendê-la, já que as leis variam de país para país, às vezes de estado para estado. Na maior parte do mundo, porém, comer cachorro ainda é coisa comum. Os registros arqueológicos sugerem que os chineses vêm comendo essa carne pelo menos desde o período neolítico e há convincentes evidências de DNA apontando que eles foram provavelmente os primeiros a domesticar canídeos selvagens; todas as raças modernas de cão têm um ancestral em comum com o lobo do leste asiático.

Leia mais sobre esta matéria na edição de Janeiro da revista Go Outside.

   
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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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