
Ele não esteve dentro de uma casa, oficialmente falando, por quase seis anos. Não se deixou ver em público desde 10 de novembro de 2001, quando fez um discurso em uma reunião de líderes em Jalalabad, no Afeganistão. Em 2003, uma fonte iraniana disse que ele foi visto chegando a uma casa de hóspedes da Guarda Revolucionária Iraniana em uma cidade pequena a oeste de Teerã. Um porta-voz do ministério de Relações Exteriores do Irã negou esse fato veementemente, dizendo que o suposto flagrante era “uma fantasia”. Especulações baseadas em informações colocam-no bem mais para leste, nas montanhas ao longo da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Essa cadeia de montanhas é uma continuação da cordilheira do Himalaia, resultado da colisão geológica da Índia na Ásia.
A maioria dos caminhos nesse lugar quase completamente selvagem só foi trilhada por pés humanos e de animais de carga. Lá, ele e seus companheiros provavelmente vivem em uma caverna, ou mais de uma. Por segurança, devem se locomover na maioria das vezes à noite. Muito provavelmente, ele ficou em algum lugar dessas montanhas todo ou a maior parte do tempo desde que deixou sua última residência conhecida, uma casa perto da cidade afegã de Kandahar, em 10 de setembro de 2001. Seja lá que se possa dizer dele, a esta altura Osama bin Laden é o cara mais outdoor do mundo.
A devoção e expectativa do paraíso de bin Laden o fortaleceram para os rigores dessa vida dura. Certa vez ele disse que um dia de luta no Afeganistão equivale a mil dias de oração em uma mesquita. Um antigo guardacostas contou que bin Laden pode sobreviver só com pão, tâmaras e água. Sua escolha de veículo off-road é um Toyota Land Cruiser preto com vidros filmados. Mas, tirando as histórias de estoicismo e alguns detalhes incidentais, informações sobre sua existência outdoor nos últimos seis anos são difíceis de ser encontradas. Onde, por exemplo, ele arranja água para beber?
Os rios das montanhas têm uma vazão 20 vezes maior no verão que no inverno, por causa do degelo glacial, mas, no verão, ele tem um filtro para purificar essa água dos dejetos que ela arrasta consigo? Todo mundo que já esteve no Afeganistão fala da poeira. Como ele a mantém longe de seus computadores, máquinas de fax, televisões por satélite e câmeras de vídeo, esses frágeis produtos da tecnologia ocidental dos quais ele tanto gosta e os quais usa com maestria em sua jihad? Ele os carrega em enormes sacolas? Com o vento da montanha soprando com força o tempo todo, como ele evita ficar com a pele rachada? E, por algum motivo, não consigo parar de pensar em que tipo de botas ele usa.
Quando encontro fotos de bin Laden, eu as examino quase pixel por pixel atrás de pistas. Sua roupa padrão é uma jaqueta camuflada que desce até a cintura, nas cores verde, preto e marrom — uma camuflagem deslocada, feita para a selva. Sob a jaqueta, usa uma shalwar kameez, o tradicional camisão que desce até os joelhos, bege claro, com uma fenda de uns 30 cm de cada lado, com calças folgadas do mesmo tecido. Seu turbante é branco e uma das pontas cai sobre seu ombro quase até sua cintura; talvez, quando for necessário, ele enrole essa ponta solta no rosto para se proteger da poeira. Em fotos no inverno, vêse que ele se preparou para o frio com um cobertor, sem dúvida de lã, de cor roxa avermelhada clara, jogado sobre os ombros, descendo até os tornozelos.
As suas botas, por outro lado, continuam sendo um mistério. A maioria das fotos dele não é de corpo inteiro, ou então ele está sentado ou agachado, de modo que seus pés ficam ocultos sob suas roupas. Em uma foto de corpo inteiro que encontrei, mal dá para ver seus calçados na parte de baixo. Mas em uma dessas peças que a realidade gosta de pregar na gente, parece que ele está usando chinelos felpudos — velhos e de um azul forte.
PENSO MUITO A RESPEITO de bin Laden; não sei direito por quê. Pode ser sinal de instabilidade mental. Por outro lado, é possível que a maioria das pessoas não pense nele o bastante. Uma razão para meu interesse é que não consigo entender como alguém que bebe neve derretida tenha abalado o mundo inteiro. Outra razão, menos geopolítica, é que bin Laden é seis anos mais novo que eu. Nasci em 1951, ele em 1957. Quando eu estava no último ano da escola, ele ainda estava na sétima série.
Penso muito a respeito de bin Laden; não sei direito por quê. Uma razão para meu interesse é que não consigo entender como alguém que bebe neve derretida tenha abalado o mundo inteiro
Até onde pude entender, bin Laden se tornou “bin Laden” ficando outdoor. Esse é o seu segredo. Acredito que esse seu lado outdoor está profundamente ligado ao islã, que me parece ser uma religião bem outdoor, mas estou especulando sem saber direito do que estou falando. Basta dizer que Osama é um entre cerca de 50 bin Ladens irmãos e meio-irmãos. Ele é o 17º filho.
Duvido que as teorias sobre a ordem de nascimento para determinar a personalidade de alguém vão até a segunda dezena, mas não acho que ser o número 17 seja uma coisa boa. É um número primo, se é que isso tem importância.
De qualquer modo, tem um monte de bin Ladens por aí. Seu pai, Mohammed, o patriarca, teve muitas esposas e foi um dos homens mais ricos da Arábia Saudita. Seus filhos podiam viajar para onde quisessem, freqüentar Harvard e outras universidades ocidentais, morar na Europa ou nos Estados Unidos.
O primogênito, Salem, assumiu a empresa após a morte de Mohammed, e alguns anos depois morreu em um acidente de avião perto de San Antonio. Recentemente, o filho do próprio Osama, Omar, que é um negociante de ferro-velho em Jedda, figurou nas colunas de fofocas por casar com uma mulher inglesa 24 anos mais velha que ele.
Como, então, destacar-se entre tantos Ladens? Quando moleque, Osama adorava as viagens para acampar no deserto em que seu pai levava a família para não deixá-los enfraquecer. A maior parte dos meninos detesta acampar com seus pais, e sendo eu mesmo um pai posso entender como Mohammed apreciava o entusiasmo de Osama. Osama passeava no deserto de camelo e ia atrás da vida selvagem nativa. Certa vez, com os filhos do príncipe Fahd, da família real saudita — amigo de seu pai que às vezes se juntava a eles nessas viagens —, Osama pegou um dhub, uma espécie de lagarto com cauda espinhosa que pode chegar a um metro de comprimento. Por brincadeira, Osama e seus amigos levaram o dhub de volta ao acampamento para surpreender seus pais. Qualquer um que já tenha acampado pode imaginar a graça. O importante é que o pai de Osama (para não falar do príncipe Fahd) notou o menino.
Se os outros bin Ladens gostavam do luxo e de viajar para o Ocidente, Osama preferia um terreno mais extremo e ia para o Oriente. Em 1979, os soviéticos invadiram o Afeganistão. Bin Laden estava com 22 anos. Tinha ido a uma faculdade em Jedda, mas não se formou. Ao saber da invasão soviética, partiu para ajudar os mujahedeen contra as forças de ocupação comunista. Foi um momento decisivo em sua vida. Um vídeo que assisti várias vezes mostra o jovem bin Laden andando ao lado de um morro durante a guerra entre a Rússia e o Afeganistão. Era só um moleque, com um andar relaxado. Carregava um rádio e parecia estar planejando algo — durante a guerra ele agia mais no financiamento e na logística. Se você fosse pai dele, a silenciosa felicidade em seu rosto te deixaria feliz. Você diria para seus amigos, “Ele está no Afeganistão, pegando muito ar fresco e lutando a jihad contra os russos, e está adorando!”.
Adiantando a fita um pouco,vemos bin Laden promovendo a jihad pelo mundo — o ano é 1996. Foi expulso da Arábia Saudita e do Sudão e está de volta ao Afeganistão. Não há coisa alguma que funcione melhor para ele que estar no meio do nada. Se sua primeira temporada nas regiões ermas do Afeganistão o formou, essa nova fez dele uma megapersonalidade. As montanhas continuam sendo um lugar problemático e sem governo, já que império nenhum foi capaz de controlá-las. Em seu ninho de águia, bin Laden escreveu um poema repreendendo e ameaçando o secretário de Defesa dos EUA na época, William Perry, e assinou, “Dos picos de Hindu Kush, Afeganistão”. Em 1996, ele declarou guerra à América. Ninguém prestou muita atenção nele, o que deve tê-lo deixado irritado. Com que freqüência uma pessoa sozinha declara guerra a uma superpotência?
Durante essa segunda fase afegã, com mais tempo nas mãos, Osama fez as declarações em vídeo e áudio pelas quais é mais conhecido. Livros com suas declarações traduzidas para o inglês são difíceis de achar, e isso é uma pena, porque ele disse algumas coisas bem idiotas. Li muitas dessas declarações e marquei os melhores trechos, como por exemplo:
“Nós lutamos contra governos que querem atacar nossa religião, roubar nossas riquezas e ferir nossos sentimentos”.
“Quando alguém armado entra na casa de uma galinha, ela ataca — e é só uma galinha.”
“A morte é a verdade e o destino final, e a vida acaba de um jeito ou de outro. Se eu não lutar contra você, minha mãe deve ser louca!”
Sobre o adultério de Clinton: “Há motivo pior para que seu nome entre na história e seja lembrado pelas nações?”.
“É muito melhor alguém matar um único soldado norte-americano do que desperdiçar seus esforços em outras atividades.”
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