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| SURVIVOR: O autor desta reportagem no 16º dia, às quatro da tarde |
EU OS CHAMAVA DE EMPADINHAS DE GOSMA, mas devia ser mais agradecido, já que foram uma das poucas coisas que me mantiveram vivo. Descobri os moluscos no meu segundo dia abandonado numa ilha deserta chamada Pargo, no golfo de Chiriquí, no Panamá. Eu só tinha uma faca, uma máscara de mergulho e a roupa do corpo, e nunca havia caçado na vida. Então, aceitei a variedade que os moluscos trouxeram à minha dieta de cocos com cupins.
Mais conhecidas como lapas, as empadinhas de gosma vivem na zona entremarés. Seriam mais gostosas assadas ou fritas, mas não consegui fazer fogo e foi sorte encontrar algo que dava para comer cru. Tinham gosto de borracha macia coberta por gelatina - levava no mínimo 60 segundos para mastigar cada pedaço do tamanho de uma moeda até ele ficar engolível - mas pelo menos esse tempo me permitia saborear o fato de que não iria morrer de fome. Minha mente conseguiu convencer meu corpo a engolir aquela coisa nojenta até meu quinto dia em Pargo, quando ele finalmente se revoltou.
Começou com a fina membrana que segura as vísceras (as tripas e a merda, em outras palavras) do molusco. Antes de comer uma empadinha de gosma, eu tinha que arrancá-la da concha e cortar fora a membrana. Já tinha me acostumado com a ânsia que isso causava, mas depois de três dias empurrando aqueles moluscos goela abaixo descobri, como já era de se esperar, que estava comendo outra coisa também. Com um punhado de moluscos na boca e mais um punhado esperando para ser limpo, notei um monte de vermezinhos chatos e marrons como tênias emergirem de uma das membranas. Eles reagiam como uma hidra (um invertebrado aquático) ao serem cortados ao meio: duas cabeças são melhores que uma. Vomitei na hora. Todas as calorias que me sustentariam naquele dia foram jogadas semidigeridas aos meus pés, e eu só tinha um jeito de repor tudo. Joguei fora o molusco infestado, me sentei, derrotado, e comecei a limpar mais uma porção.
Antes de chegar a Pargo, eu brinquei que, mesmo sendo um novato em sobrevivência, ia me ilhar de propósito para transformar a frase "trabalho pra comer" em "tenho fome de trabalho". Quando a gosma se misturou aos restinhos ácidos do vômito, eu me lembrei da piada. "Quem está rindo agora?", pensei.
Mas ainda assim eu estava confiante. Um amigo me disse que eu duraria quatro dias numa ilha, mas eu tinha calculado algo entre 12 e um mês. Quarenta dias, então, seria um milagre. Eu viraria o Tarzan rapidinho. Não pode ser tão difícil assim.
Pareceu uma boa idéia quando eu ainda estava de barriga cheia: um teste de sobrevivência pra valer, um conceito que atrai nossa imaginação coletiva desde a passagem dos israelitas pelo deserto até a mais recente edição de Survivor. Quase todo mundo já se perguntou como se sairia numa situação como esta. Eu pretendia descobrir indo para uma ilha deserta.
O mais importante era achar o lugar certo. A ilha tinha de ser desabitada, mas perto de algum lugar onde pudesse conseguir ajuda. Precisava ter água doce, uma fonte de comida e um clima tropical, já que eu não queria imitar a expedição de Shackleton no Ártico. Depois de duas semanas de buscas, me concentrei nas ilhas Secas, um arquipélago de 16 ilhas a 20 quilômetros da costa do Panamá, no oceano Pacífico.
O resort Islas Secas fica na única parte habitada da cadeia de ilhas e Michael Klein, o dono do hotel, me contou sobre a vizinha deserta, Pargo, a 3,5 quilômetros: uma ilha de 194 hectares com água doce, cocos e abundante vida marinha. Não há mamíferos, mas há muitos pássaros e iguanas - se, acrescentou Michael, eu conseguisse pegar alguma coisa. O socorro ficava a dez minutos de lancha e tinha até uma pista de pouso perto do hotel, caso houvesse alguma emergência.
Como a idéia era sobreviver, não morrer, algumas regras foram estabelecidas. Primeiro, eu queria levar comigo o mínimo possível. Por sugestão dos especialistas em sobrevivência que ouvi, levei uma faca Ka-Bar Heavy Bowie de 30 centímetros. Para a diversão, levei uma máscara de mergulho, com a vantagem dela me ajudar a caçar algo pra comer. Um kit de primeiros-socorros básico também era necessário para limpar feridas. Era preciso também equipamento de mídia - cadernos, canetas, câmeras - para documentar a história. No caso de uma emergência, minha escapatória era um telefone via satélite. A cada três dias deveria ligar para minha editora, que eu sabia que não estaria no escritório, e deixar uma mensagem mostrando que ainda estava vivo. Se ela não recebesse o recado, ligaria para o resort para alguém buscar meu corpo. Como plano B eu tinha um beacon de localização para informar onde eu estava. Mas o que eu precisava mesmo era de capacidade de sobreviver.
Não sou especialista em sobrevivência. A última vez que matei alguma coisa foi com minha caminhonete. Quando pedi para avaliar minhas habilidades, Bob Berman, o namorado da minha mãe, concluiu que eu me sairia melhor nos bares locais que numa ilha. Cresci no bairro de Haight-Ashbury, em São Francisco, Califórnia, ou seja, um moleque da cidade grande até a alma. Como um jovem aventureiro e saudável de 28 anos, eu passava um tempo outdoor, a maior parte dele na água - surfando, andando de caiaque e voando com um kite -, e sou experiente em mergulho. Mas essas são atividades restritas, que vêm depois de um café-damanhã e antes de um drinque à noite.
"É duro", alertou Les Stroud, criador e astro do programa Survivorman do canal Science, quando pedi conselho. Stroud praticava suas habilidades de sobrevivência há 20 anos e mesmo assim diz que uma semana numa região erma é tempo. "É muito fácil dizer 'Vou conseguir pescar alguma coisa, caçar uns iguanas'", disse. "E aí você vai colocar isso em prática e a coisa é completamente diferente."
Felizmente, eu tinha me inscrito num curso-relâmpago de sobrevivência com o antigo professor de Stroud, John "Lobo das Pradarias" McPherson. Lobo e sua esposa, Geri, autores da série de livros Naked in the Wilderness ("Pelado no mato"), ensinam habilidades de sobrevivência aos Boinas Verdes, a força especial do Exército norte-americano, entre outros grupos. O casal vive fora do sistema, num chalé de três andares que eles mesmos construíram a leste do estado norte-americano do Kansas. Lobo das Pradarias, que tem 62 anos, ganhou uma medalha Coração Púrpura no Vietnã e faz Rambo parecer molenga. Geri, uma bisavó de 64 anos, especializou- se em curtir couro de animais no próprio caldo do cérebro dos bichinhos.
Os Boinas Verdes costumam ficar duas semanas afiando suas habilidades com Lobo e Geri, mas eu precisei espremer tudo em cinco dias. Eles me mostraram como fazer mapas, fogueira, abrigos e corda, mas antes precisaram me ensinar a talhar com uma faca. Lobo me explicou que nenhum dos materiais usados no treino estaria disponível no Panamá. Mas nos trópicos, com toda a sua biodiversidade, deveria ter muita madeira boa.
Na primeira tarde, enquanto meu mestre fazia uns serviços em casa e Geri despelava um cervo, eu fiz uma fogueira usando duas varetas, uma delas amarrada na outra, na forma de um arco. Usei madeira mole (ideal para fazer fogo) e material inflamável que Lobo me ajudou a coletar, mas tudo isso pouco importava. Quando ele voltou e me encontrou na frente do fogaréu que fiz, com cara de vitorioso, eu falei para me chamar de Tocha Humana. "Bom trabalho", disse. "Mas não fique se achando. Fazer fogo é sempre mais difícil quando é importante."
Levei mais dois dias até conseguir acender outra fogueira. Geri falou para eu não desanimar e explicou que ela levou meses até fazer fogo sem dificuldades. Mas eu não tinha esse luxo. Acendi mais algumas, mas senti que passar cinco dias no Kansas, um mês antes da partida, não era a mesma coisa que passar a noite estudando antes de uma prova. Na hora de ir embora, Lobo das Pradarias me desejou sorte. Dava para ver que ele estava falando sério.