A FOTOGRAFIA DA DÉCADA DE 1930, na parede da prefeitura de Ponte Serrada, exibe o tom da ocupação destas bandas no oeste catarinense: a cidade está situada numa clareira da floresta. Troncos e galhos largados no chão, assim como áreas desmatadas nas colinas ao fundo, sugerem atividade de corte de madeira. O vice-prefeito Domingos Santin mostra a imagem e olha pela janela, como que comparando os velhos e os novos tempos. O que se vê hoje são muitos campos e, emoldurando a paisagem, algumas araucárias — um belo, porém pálido, resquício da chamada floresta ombrófila mista, que se espalhava por enormes extensões de terra por todo o sul do Brasil e era dominada em seu extrato mais alto pelos também chamados pinheiros-do-paraná.
A cena tem algo de surreal: um repórter e um fotógrafo perdidos no coração de Santa Catarina, numa gélida e cinzenta manhã, à procura de um parque nacional. Pelas nossas informações, era lá mesmo, em Ponte Serrada, que se encontrava o Parque Nacional das Araucárias, criado pelo Governo Federal em 2005. Mas não havia nada que indicasse a presença de um santuário da natureza nas redondezas.
Não esperávamos vida fácil mesmo na missão. A idéia era ver o que há de especial nos três novos parques nacionais de Santa Catarina: o Araucárias, o Serra do Itajaí, de 2004, e o Campos do Padres, cujo decreto ainda nem foi assinado pelo presidente Lula, mas que é dado como certo. Era grande a chance de darmos com os burros n’água e encontrarmos áreas fechadas a visitantes, visto a lentidão com que as unidades de conservação são implantadas no Brasil. Mas alguma coisa de especial deveria haver nesses lugares, ou não estariam sendo transformados em parques nacionais. Era isso que queríamos descobrir.
O primeiro parque dessa viagem exploratória, o Serra do Itajaí, próximo ao litoral, foi a boa surpresa antes da malfadada escala em Ponte Serrada. Os beberrões da Oktoberfest não devem nem imaginar que nos fundos da cidade de Blumenau existe uma exuberante reserva de mata atlântica, que poderia representar a cidade tanto quanto a típica arquitetura. Com todo respeito à tradição alemã, não são de se desprezar 50 mil hectares de florestas localizadas numa região densamente povoada como o vale do Itajaí, encostadas numa aglomeração urbana de 300 mil pessoas.
Foi graças à sua topografia que a mata se manteve quase intocada: “Senão, tudo seria arrozeiro, como no vale”, aposta Jefferson Pereira, turismólogo e secretário-executivo do Ipan, o instituto administrador do Parque das Nascentes, um parque municipal de 5 mil hectares que, com a criação do Parque Nacional da Serra do Itajaí, ganha corpo, tomando terras ao redor e garantindo a preservação de um naco bem maior de natureza: 57 mil hectares.
Exceção no Brasil, o Serra do Itajaí nasceu em 2004 não a partir de um decreto, mas de uma semente bem plantada por alguns ambientalistas locais, tendo como figura central o naturalista Lauro Bacca. No início da década de 1980, uma grande indústria têxtil comprou terras das cabeceiras do rio Garcia, prevendo possíveis problemas futuros de abastecimento de água em Blumenau. “Fui contratado para administrar a área e propus um manejo nos moldes de um parque nacional”, conta Bacca. A área foi aberta ao público e em 1998 as terras foram doadas ao município e batizadas como Parque das Nascentes. E graças a gestões persistentes e bem feitas no Ministério do Meio Ambiente pelo grupo de Bacca, em 2004 saiu o decreto de criação do Parque Nacional da Serra do Itajaí.
Subimos da cidade para a sede, de onde saem as principais trilhas, por uma estrada que ziguezagueia o vale do rio Garcia, cada vez mais íngreme e luxuriante. Jefferson conta que já percorreu o Garcia pelo leito durante quatro dias até chegar à nascente, contando mais de 80 cachoeiras pelo caminho. Outro rio da região, o Espingarda, não fica atrás. Uma das cachoeiras mais lindas da região fica ali.
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O vale do Garcia é bastante ocupado por sítios. “A maior parte dos proprietários perderá somente as terras do fundo, que são floresta”, explica ele. “Pouquíssimos serão desapropriados.” Mas na época do decreto a confusão foi grande. Anunciou-se que, além do parque nacional, qualquer tipo de atividade ficaria restrita num raio de dez quilômetros. Até uma organização não-governamental contra o parque, a Acorda Brasil, foi criada. Por fim, o entorno ficou definido em 500 metros, esfriando alguns ânimos.
Encontramos José Carlos Vaz à beira da estrada. Ele é um desses proprietários que, por infelicidade ou, dizem as más línguas, indisposição com o pessoal que demarcou o parque nacional, teve um pedaço da parte produtiva de seu sítio inserido dentro da unidade. “Aqui está bonito assim porque os colonos cuidaram. Agora vem o governo e tira de nós”, esbraveja. Seu amigo, Valcir José Vanzoíta, tratador de cavalos, contemporiza. “Pegaram pouca coisa. Enquanto não me proibirem de fazer a minha atividade, está tudo certo. E tem o turismo, que pode nos beneficiar.”
Apesar da choradeira, o parque já começa com a faca e o queijo na mão. A sede conta com quiosques e trilhas demarcadas. No alto da serra, a duas horas de caminhada da entrada, o mirante do morro do Sapo não é o ponto culminante, mas parece ser o centro da região florestada. São 360 graus de florestas. Blumenau e outras cidades estão escondidas atrás desses morros, deixando a vista descansar na amplidão da natureza. “Isso é um quinto do futuro parque nacional”, diz um guia.
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