Publicidade
 
GoOutside
 
  ok
 
 
Imprimir
   
  MEIO AMBIENTE
  Ambientalistas pero no mucho
Você se considera uma pessoa preocupada com o meio ambiente? Se a resposta for sim, pare e reveja os seus conceitos

(OSVALDO STELLA MARTINS)

OS SIMPSONS - TODO DOMINGO ÀS 20H30 NA FOXMONTGOMERY BURNS É UM ÍCONE. O dono da usina atômica de Springfield, terra natal dos Simpsons, representa o lado mais perverso do capitalismo selvagem. Impiedoso, ganancioso e egoísta, ele não tem consideração por quem o cerca, nem mesmo pelo seu fiel escudeiro, Smithers, alvo freqüente de seu nefasto comportamento.

Conheço várias pessoas que se identificam com os personagens d'Os Simpsons, mas nunca encontrei ninguém que assumisse uma identificação com Burns. Ele é o autor da célebre frase "A natureza sempre nos castigou, agora que estamos vencendo- a, ela vem nos pedir ajuda". Esta pérola do ideário contemporâneo retrata como o bem-sucedido empresário imaginário encara as relações negativas entre nós e o planeta. Na ótica dele, o homem sempre viveu envolvido num eterno combate com a natureza. Mas, se analisarmos a história, talvez o personagem não esteja tão errado.

Nossa história na Terra é marcada por conflitos entre homens e natureza. E esses combates não são privilégio dos nossos amigos norte-americanos ricos. Nos Estados Unidos, eles fuzilaram os índios siusis. Aqui, fuzilamos os guaranis, os tupinambás e outros. Tanto lá quanto aqui, florestas são consumidas junto com suas populações nativas. E isso continua acontecendo até hoje. Enquanto escrevo este texto - e depois enquanto você está lendo-o - alguma floresta está sendo queimada. Em algum lugar do mundo, uma criança desnutrida está enchendo de madeira um forno de produção de carvão, que será utilizado para produzir o aço do carro que você dirigirá em algum momento da vida. Tudo em benefício do desenvolvimento da sociedade. O grande problema é que sempre vemos isso na tela da televisão de algum noticiário, como se não fizéssemos parte do processo.

Imagine se um dia você chegasse em casa e, ao abrir a torneira, não caísse uma gota de água (para alguns paulistanos, não precisa de muita imaginação). Onde você procuraria o indispensável líquido? A resposta intuitiva seria nos rios. No meu caso, que moro na zona Oeste da cidade de São Paulo, a primeira opção seria recorrer ao Pinheiros. Para quem o conhece, não é necessário maiores explicações. Para quem nunca o viu, lá vai: o Pinheiros e o Tietê são os dois principais rios da megalópole. O que está mais próximo da minha casa é um rasgo escuro e fétido no meio da cidade. De suas águas imundas borbulha gás metano entre garrafas plásticas vazias. Ele se destaca na paisagem de uma maneira peculiar: você não precisa vê-lo para lembrar que ele está ali, pois o fedor vai muito além do seu campo de visão. O coitado do Tietê não é diferente.

Então você acelera até a próxima loja de conveniência e compra uma garrafa plástica cheia da bebida preciosa - e melhor: gelada. O que você não se dá conta é que, inevitavelmente, esta mesma garrafa estará em breve boiando entre as borbulhas de metano no rio, que não serve para mais nada além de levar a sua merda para longe.

O pior é que publicamente somos todos ambientalistas. Dentro do carro com o ar-condicionado ligado, trancados num congestionamento, nos revoltamos com as queimadas na Amazônia que a rádio noticia. Malditos madeireiros. Dentro desta cápsula de 1.500 quilos, projetada para rodar a 160 quilômetros por hora, você não consegue ser mais rápido que uma carroça, mas se considera bem-sucedido - afinal, pagou mais caro pela sua caranga que o cara que está parado ao seu lado.

Sempre existe um culpado. E nunca somos nós.

Mais estranho ainda é achar que somos todos culpados. A maioria da população do planeta não tem dinheiro para comprar água e muito menos um carro. Curiosamente, são essas mesmas pessoas que vivem empoleiradas à beira daquele rio que você sujou. Na cidade de São Paulo, apenas um terço da população utiliza automóveis como meio de transporte, outro terço usa transporte público e o resto não tem dinheiro nem para o ônibus e se locomove a pé ou de bike. Estes sim são os verdadeiros ciclistas paulistanos.

Felizmente, vivemos numa sociedade democrática, na qual qualquer um pode ir à praia de Camburi no final de semana. Mais uma vez, seguimos em bando serra abaixo, a caminho do mar e da eterna busca por conforto no seio da mãe natureza. Por alguns momentos, se apagam as imagens escurecidas pela fuligem no horizonte e as águas negras do rio. Um comportamento um tanto curioso: como amamos tanto a natureza e vivemos numa cidade tão imunda? No domingo à tarde, vamos do degradê verde da serra ao cinza da metrópole, e voltamos ao ambiente fétido que chamamos de lar.

Na verdade, começo a concordar com Mister Burns. Nós fracassamos na tentativa de estabelecer um relacionamento decente com o meio ambiente. Nós o dominamos, o exploramos e quando tudo acabar, dane-se, pois eu não estarei mais aqui. Mudar essa relação é o grande desafio da sociedade moderna. Pensando bem, talvez o grande desafio agora seja provar que há vida inteligente no planeta Terra.

Osvaldo Stella Martins é ciclista, engenheiro mecânico e doutor em ecologia. Fundador da ONG Iniciativa Verde, ele cruzou de bike a rodovia Transamazônica, pedalou de Porto Alegre (RS) ao Ushuaia (Chile) e planeja a próxima viagem enquanto fica preso em congestionamentos

   
  Imprimir
   
 
Edição nº 54 - Novembro/09
 
Sumário atual Anteriores Estilo Radar Destino Especial Reportagens Notícias
 
Newsletter
  Cadastre-se e receba nossas novidades.
 
 
Ok
 
 
   
 
Contato
Contato Assine Publicidade Expediente Indique o site
 
 
Rocky Mountain Editora
Copyright © 2008 - Editora Rocky Mountain Ltda. - Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.
powered by ContentStuff