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| PÉS FRIOS: Na TransRockies cruzar rios gelados com a bike no ombro, às vezes com água até o pescoço, é uma rotina |
A PLACA NO HOTEL não era de "boasvindas". Alertava que a presença de ursos e pumas não era lenda na região das Montanhas Rochosas canadenses, mas uma ameaça real a qualquer desavisado. Dizia ainda que uma mulher havia sido atacada por um felino, dois dias antes.
Apesar dessa nada simpática recepção, os mountain bikers Odair Pereira e Mario Roma não se abalaram. Providenciaram sininhos espanta-ursos pras bikes e focaram a preocupação num fantasma maior, que estava por vir: a estréia deles na TransRockies, uma das mais temidas competições do planeta. Ao longo de uma semana de agosto, 740 atletas, divididos em 370 duplas de 24 países, enfrentaram mais de 600 km com obstáculos técnicos e cerca de 12 mil metros de desnível em meio a um cenário de picos nevados de mais de 3 mil metros, bosques fechados e lagos azul turquesa.
A empreitada dava um frio maior na barriga do baiano Odair Pereira, mountain biker profissional em 13 dos seus 33 anos de vida. Apesar de nunca ter competido numa ultramaratona, ele embarcou para o Canadá com um certo respeito na mala, vindo de suas conquistas em provas rápidas de cross-country, como o Power Biker deste ano, em junho, quando se consagrou bicampeão, e do ouro no Pan-americano de Mountain Bike de 2003.
A idéia era unir a força e a explosão do baiano com a experiência e a resistência de Mario Roma, 45, nosso velho conhecido biker português, que adotou o Brasil e se tornou especialista em maratonas de bicicleta por aqui. Embora também estivesse estreando na TransRockies, Roma tinha um currículo mais adequado ao que vinha pela frente: ele já disputou a Cape Epic, com seus 900 km de roubadas na África do Sul, e correu duas vezes os 600 km da Alemanha à Itália na TransAlps, prova pioneira (surgida há dez anos) quando o assunto é ultramaratona de mountain bike.
"O primeiro dia da TransRockies foi o mais duro da minha vida", conta Odair. "Levamos mais de três horas para percorrer 32 km, sendo que passei metade desse tempo carregando a bike no ombro em trilhas onde era impossível pedalar." No fim do trecho inicial, Odair andava de lado, com dores nos tendões dos pés. "Eu já não temia encontrar o tal urso de dois metros, mas me desesperava em pensar que os próximos seis dias poderiam ser ainda piores."
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| FANTASMA: No terceiro dia, 30 cm de trilha e 100 m de abismo ao lado |
Mario Roma, também surpreso com o tamanho da encrenca, levou um tombo que rachou seu capacete e confirmou a suspeita de que a TransRockies, menos famosa que as concorrentes que ele disputou, era a mais casca de todas. "É como o Giro d'Itália, menos falado que o Tour de France e a Volta da Espanha, mas que só é completado por guerreiros", explica, numa comparação com a trinca das principais corridas mundiais do ciclismo de estrada.
Devorar uma macarronada coletiva e jogar-se na barraca, no início da noite, era a melhor fórmula para se recuperar para o dia seguinte. Melhores da cabeça e dos pés, a dupla saltou do colchonete às 6h da manhã, como quem parte para a guerra, sob um frio de 2ºC. A palavra de ordem era "resistência".
MAIS PEDALÁVEL, O PERCURSO a partir do segundo dia evidenciava os pontos fortes de cada um: sem se afastarem por mais de um minuto - como exige o regulamento -, Mario seguia à frente nas subidas e Odair assumia a liderança nas (poucas) retas. A estratégia deu certo, apesar das diferenças de idade, dos históricos e das bikes - Mario correu com uma full suspension e Odair com uma hardtail. E nem parecia que tinham se conhecido praticamente às vésperas da prova, quando Odair fora convidado pela Scott (patrocinadora dos dois) para montar a dupla. Ele teve pouco tempo para adaptar seu treinamento, elevando o tempo diário de bike de 3,5 para cinco horas. Já Mario intensificara a pauleira seis meses antes.
O percurso deixava claro que ninguém estava ali de brincadeira, apesar do clima amigável em provas de longa duração. Como se a natureza mostrasse por que os principais freeriders nascem ali, no terceiro dia um lamaçal fez os atletas carregarem as bikes no ombro, afundados na lama até o joelho. Uma queimada e os 22ºC deixavam o ar seco e especialmente incômodo. Os rios nos vales entre uma montanha e outra congelavam os atletas, obrigados a atravessá-los às vezes com água até o pescoço. Não à toa, 20% dos competidores abandonam a prova, muitos deles resgatados por helicóptero, com graves traumas.
As lesões vistas depois das cinco horas diárias de pedaladas variavam de curativos nos joelhos a deformações por quedas de cabeça. E ao contrário do que se possa imaginar, ninguém desanimava. Em ultramaratonas, o objetivo é terminar a prova, ainda que lentamente (a velocidade média da nossa dupla era de 17 km/ h). A rotina nos acampamentos continuava: jantar às 18h, fila para lavar as bikes, fila para usar os chuveiros do caminhãovestiário e o burburinho entre os que faziam a manutenção das máquinas ao fim de cada etapa. O staff de 150 pessoas e os 400 voluntários se encarregavam da infra-estrutura. Uma das funções deles era carregar as sacolas das duplas, com mudas de roupa, suplementos alimentares e peças sobressalentes.
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