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  RADAR RAFTING
  Ouro com pimenta
Equipe Alaya Bozo d'Água, de Brotas (SP), é campeã mundial de rafting na Coréia do Sul

FERNANDA FRANCO

FOTOS DIVULGAÇÃO
BOTE A BOTE: Brasil e Japão emparelhados no descenso, na prova que garantiu o título mundial ao Brasil

PARA IR DE BROTAS À CORÉIA DO SUL é preciso literalmente atravessar o mundo, cruzar oceanos, desertos e continentes. Mas nem o desgaste pelo fuso horário, o baixo nível do rio ou os excêntricos gostos culinários do povo local tiraram a disposição e o alto-astral dos meninos da equipe Alaya Bozo d'Água. Os rapazes foram a atração da competição, contagiando as outras delegações com muita animação e batucada na disputa do 4º Campeonato Mundial de Rafting, que rolou na cidade de Inje entre 30 de junho e 2 de julho.

As melhores equipes do mundo, entre elas as da Eslovênia, República Tcheca e Alemanha, estavam presentes na disputa das modalidades sprint, slalom e descenso. Os brasileiros, locais das corredeiras do rio Jacaré-Pepira, apesar de não serem favoritos, tinham a seu favor a conquista do ouro na categoria sprint no Mundial de 2003, o título pan-americano obtido no ano passado na Costa Rica, muita preparação e, claro, a vibe brasuca. Apesar de parecer clichê, foi exatamente a combinação entre performance e união da equipe que trouxe aos rapazes, ao Brasil e ao continente americano o primeiro título mundial de rafting, desbancando os feras do Velho Mundo e outras equipes que corriam por fora, como o Japão.

"Existe uma comunicação fora de série entre eles, uma espécie de sexto sentido", soltou Jean Claude Razel, empresário da equipe desde 2005, ao tentar explicar a relação vencedora entre os integrantes dentro do bote. Razel fala também que num esporte onde a atividade principal é remar, a diferença está na sintonia da equipe. "Todas as equipes têm uma boa remada. Os rapazes agem como um jogador de futebol que toca a bola sem olhar, pois já sabem onde o companheiro vai estar."

O capitão e fundador da equipe, Lucas Paolino Coré, 25, explica como a Bozo d'Água funciona durante a prova. "Cada um tem sua função no bote e procuramos não desperdiçar energia. Os dois da proa ditam o ritmo, enquanto os do leme conseguem enxergar melhor a sincronia e a posição das mãos, corrigindo quando necessário", diz. "Não sou o capitão e eles os soldados", completa, ressaltando sua humildade e enaltecendo a relação de amizade entre eles.

JÁ NA PRIMEIRA MODALIDADE, O SPRINT - prova de velocidade em que os competidores percorrem um trecho curto de rio, no menor tempo possível -, os brasileiros testaram e aprovaram a receita do sucesso. A monção comum no final de junho não aconteceu, deixando o nível do rio Naerinchon baixo e muitas equipes nervosas, menos a nossa. Os brotenses, mais acostumados a lidar com rios em diferentes níveis por causa das atividades ininterruptas de rafting em Brotas, fizeram o terceiro melhor tempo na fase de classificação. Nas baterias mata-mata, não deram chance para nenhum outro bote, desbancando ingleses, mexicanos, eslovacos e abocanhando o ouro em cima dos japoneses, além de garantirem o melhor tempo da prova. Os tchecos queimaram a largada, ficando com o 16º lugar, o que lá na frente seria de grande importância para os "Bozos".

Na disputa do slalom, prova em que o bote deve fazer um ziguezague entre balizas, os brasileiros fizeram um ótimo tempo, mas acabaram encostando em duas balizas e tiveram um acréscimo, ficando com a quinta posição na modalidade, para decepção dos garotos. "Esperávamos uma colocação melhor, pois somos bem precisos", lamenta Coré, em relação à penalização de cinco segundos no tempo final. A campeã dessa vez foi a Alemanha, empatando agora com o Brasil com um primeiro e um quinto lugares nas duas modalidades.

UM POR TODOS: Samuel Almeida, proa direita, dita o ritmo para a vitória dos meninos de Brotas

O desempate deveria acontecer na modalidade descenso - aproximadamente 40 minutos corredeiras abaixo -, mas outras cinco equipes ainda tinham chance de levar o título devido à combinação de resultados e ao peso maior dessa prova. Depois de um acordo com todas as equipes, a organização transferiu a prova para outro rio, mais cheio. As equipes fizeram o reconhecimento no período da manhã, e à tarde começaram as baterias. Com três botes por bateria, eles competiram com Alemanha e Japão numa disputa acirradíssima, onde mais uma vez a determinação do bote foi fundamental. "Tínhamos que chegar na frente dos alemães de qualquer jeito. Era dar tudo naquele momento, mesmo que chegássemos ao final desmaiados", relembra o capitão Coré.

Após escolherem o lado direito da margem e deixarem as outras duas equipes disputarem a entrada nas corredeiras, os "Bozos" foram surpreendidos por uma "linha" diferente da que encontraram pela manhã, pois o rio havia subido. Ao se enroscarem numa pedra, foram ultrapassados pelas duas equipes. A descida ainda permitiu uma disputa remo a remo com os alemães, que foram vencidos na última corredeira, sucumbindo à força e à união do grupo. "Saímos de trás, ficamos lado a lado com eles e passamos no final. Mas com a vitória do Japão ainda dependíamos de outros resultados para sermos campeões gerais", completa Coré.

Os tchecos, que competiram em outra bateria, venceram a modalidade. Mas mesmo com a conquista, ainda ficaram dois pontos atrás dos meninos de Brotas na classificação geral, graças ao péssimo desempenho no sprint. O ouro estava garantido para a Alaya Bozo d'Água.

OS OITO INTEGRANTES DA EQUIPE vinda do interior paulista comemoraram muito o título e não deixaram de lembrar as dificuldades que tiveram para estar lá. Mesmo com a vaga garantida para o Mundial, a falta de patrocínio ameaçava a ida deles à Coréia do Sul.

Durante os treinos, já em Inje, eles tiveram quatro remos quebrados por causa do baixo nível do rio e enfrentaram dificuldades com a língua e a culinária local. "Trocamos de remo a cada quatro anos e cada um compra o seu, diferente das outras equipes que recebem material das confederações", conta André Brandão, 23. Com relação à comida, ele explica: "Tudo era feito com pimenta e, como eu não ia remar, eu era a cobaia na hora de pedir os pratos. Escolhi um macarrão que parecia à bolonhesa, mas era pimenta pura e tive que cuspir no prato, parecendo uma desfeita", relembra, agora rindo da situação.

Passada a euforia do título e a calorosa recepção em Brotas, a equipe já pensa nas próximas remadas. "Ao vencer esse Mundial, ganhamos responsabilidade. Agora temos que defender o título na Bósnia em 2009", planeja Jean Claude. O capitão Coré cumpre seu papel na liderança natural do time e vai ainda mais longe: quer defender o título do Pan-americano na Argentina em 2008 e ganhar as três categorias no Mundial da Bósnia.

   
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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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