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    Manual de boas maneiras
RESPEITO É BOM E CONSERVA OS DENTES, já diziam nossos avós. Por isso, e para poder praticar seu esporte sempre em paz, é preciso prestar atenção em algumas "regras" da boa convivência nas ondas, nas paredes e nas trilhas.

MARIO MELE
FOTO JOHN CARTER / PWA

WINDSURF SINCRONIZADO: Por muito pouco o inglês Nik Baker (esq.) e o norte-americano Levi Siver não enroscam velas e pranchas na disputa por uma onda

SURF
Os exemplos mais clássicos de desentendimentos estão no surf, já que os picos de ondas boas e solitárias estão cada vez mais raros. Quase sempre, há mais surfistas do que ondas e, quando o mar bomba, é comum ver até oito braços remando numa mesma onda.

AS REGRAS: A preferência será sempre do surfista que estiver mais perto da espuma, e que, portanto, terá uma extensão maior da "parede" para percorrer. Se você for um surfista de fora num mar cheio de locais, o ideal é que não fique disputando ondas na remada, como se fosse surf competição. Tenha paciência que certamente uma virá exclusivamente pra você.

AS GAFES: Rabear (dropar na frente de outro que está na preferência). Dar uma lavada ("rasgar" próximo a outro surfista, jogando a rabeta da prancha para frente e espirrando água) num desconhecido. Revelar seu espírito competitivo num fim de tarde ameno e propício à diversão.

AS TRETAS: Há lugares onde o localismo é levado a sério e qualquer vacilo pode fazer o couro comer - como aconteceu no final da década de 1980, com os irmãos Almir e Picuruta Salazar, em Rocky Point, Havaí. Almir vinha surfando e, ao desviar de um outro surfista que voltava ao outside, deu uma lavada nele. "O cara era um black trunk [surfista havaiano pouco amigável com os haoles, ou surfistas de fora] e juntou uma galera na praia querendo socar o Almir", conta Picuruta. "O Fast Eddie [Eddie Rothman, 'chefão local'] ofereceu cem dólares por cada brasileiro que fosse esmurrado", completa. Os irmãos precisaram recorrer ao consulado dos Estados Unidos no Brasil, porque nem a polícia havaiana estava disposta a ajudá-los. "Demorei quatro anos para retornar ao Havaí. Depois fui até patrocinado pela DaHui, a marca do Rothman, e ficamos amigos dos black trunks", diz Picuruta.

No tow-in, modalidade em que o surfista é rebocado por um jet-ski em ondas que ultrapassam os 20 pés, também rolam umas saias justas. O pernambucano Eraldo Gueiros, grande representante mundial desse estilo de surf, já passou um sufoco em Jaws, na ilha havaiana de Maui. Sem perceber que estava interferindo na preferência da dupla norte-americana Brad Gerlach/Mike Parsons, seu parceiro Carlos Burle insistiu em colocá-lo na onda. "Tive que dropar, não dava pra hesitar. Só que o Gerlach estava na minha frente e atrás de mim tinha um lip monstruoso querendo me esmagar", recorda-se Gueiros.

Nem a presença feminina ameniza a briga pelas valas. "Os homens costumam aliviar uma disputa se o crowd está tranqüilo, mas ceder uma onda para uma mulher eu já acho difícil", conta a surfista Maya Gabeira. Já para Silvia Nabuco, que tem algumas temporadas no Havaí na bagagem, há ainda aqueles que dão uma de joão-sembraço. "Eles simplesmente dizem 'Não te vi', e não gostam quando chamamos a atenção deles. Chego a pensar, será que se essa pessoa estivesse dirigindo um caminhão, ela entraria numa estrada movimentada sem olhar, só por se sentirem maiores?", desabafa.

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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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