UMA RABIOLA DE PIPA, era o que eu parecia, tremulando em ziguezague pela trilha estreita e íngreme, meio cega e tonta pelo déficit de oxigênio e com as pernas bambas pelo esforço das últimas seis horas. Do peitoral da minha mochila saía uma corda que me unia à mochila de meu companheiro de equipe - uma espécie de cordão umbilical sem o qual eu não sobreviveria àquela subida. Respirando como uma alpinista acima dos 8 mil metros e considerando a cada passo a possibilidade de simplesmente sentar, eu jurava pra mim mesma que nunca mais entraria numa corrida de aventura se não estivesse devidamente (leia-se "muito") treinada. Havíamos largado forte e até ali nos mantínhamos no primeiro pelotão - só que ainda tínhamos no mínimo mais umas 12 horas de montanhas mineiras pela frente. Nas primeiras três ou quatro horas de prova, até que eu tinha conseguido me garantir, dando tudo o que eu tinha (e mais um pouco que eu tirei da mente, e não dos músculos). Depois, minha capacidade de explosão exauriu-se e eu me vi ficando pra trás, até começar a ser arrastada morro acima pelos meus parceiros.
Participar de uma prova dessas, numa equipe forte, sem estar muito treinada é masoquismo, aprendi. Mesmo "tinindo", não é fácil ser a mulher de uma equipe de corrida de aventura e encarar provas de seis horas a seis dias com outros três marmanjos que têm quase o dobro do nosso tamanho. É uma realidade darwiniana: eles evoluíram para caçar, nós para procriar - e essa evolução nos deixa numa desvantagem física que só pode ser igualada com muita dedicação e com um músculo que é igual em homens e mulheres: o cérebro.
Homens têm maior capacidade aeróbia que as mulheres, já que possuem pulmões e corações 25% maiores (em média, e usando os números mais modestos entre os publicados em estudos, para depois eles não dizerem que somos exageradas). O pulmão avantajado permite a eles absorver mais oxigênio do ar cada vez que respiram fundo, e o coração maior faz com que a freqüência cardíaca deles seja de cinco a oito batimentos por minuto mais baixa que a das mulheres. É por isso que chegamos à fadiga mais rápido do que os homens. Somando-se a isso, eles têm mais quantidade de sangue total, eritrócitos e hemoglobina - nomes complicados que, numa explicação simplificada, servem para facilitar o esforço físico. Hemoglobina, aliás, nós temos menos e ainda perdemos um tanto todo mês com a menstruação.
Passemos aos músculos. Homens têm mais massa muscular e uma constituição física maior, o que lhes permite suportar uma carga maior de trabalho físico. São em média 30% mais fortes que nós, o que também lhes garante mais velocidade e potência. Além de maiores, suas fibras musculares são mais numerosas, dando aos homens mais potência e explosão. A gente sai ganhando (se é que se pode usar essa palavra) nas gordurinhas: temos cerca de 10% mais gordura em nossos corpos do que os homens da mesma idade. Em países mais quentes, como no Brasil, essa gordura se acumula principalmente nos membros inferiores - leia-se pernas e bundas -, o que interfere em nosso centro de gravidade e nos torna mais lentas em atividades que envolvam o movimento dos membros superiores.
FIM DAS LAMÚRIAS, COMEÇO DA REVANCHE. Lembra daquela corrida de aventura lá do começo deste texto? Eu não sentei nem parei, mesmo achando que ia desmaiar a qualquer momento. Eu até estava me divertindo com a idéia de descobrir em que ponto meu corpo finalmente entraria em colapso. Nunca "quebrei" numa prova de aventura, talvez aquela fosse a primeira vez. Ironicamente, nossa equipe parou porque um dos marmanjos (não citarei nomes) resolveu desistir. Cansou. Miou. Não estava mais a fim de sofrer, em suas próprias palavras. É, senhores: tantos milênios parindo e cuidando de crianças, maridos e parentes nos muniu de uma enorme tolerância ao desconforto e à dor, sem falar numa paciência (pra não dizer saco) de Jó, para administrar as manhas e fúrias dos outros e manter a cabeça no lugar quando dá vontade de mandar todo mundo às favas. Aliás, taí uma injustiça histórica: Jó era homem. A expressão merecia ter sido cunhada com o nome de uma mulher.
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