OS CABELOS GRISALHOS NÃO SIGNIFICAM falta de energia no corpo do norte-americano Mark Allen, 49 anos, um ex-atleta que conserva o mesmo peso há 25 anos. Considerado o Papa do Ironman, ele correu 15 vezes a prova mais difícil de triathlon do mundo e ganhou seis, de 1989 a 1995, exceto 94, ano em que seu filho nasceu. Detalhe: a primeira vitória aconteceu apenas quando ele completou 30 anos.
O primeiro Iron de que participou, em 1982, foi surpreendente até para o próprio Mark, que estreava na distância depois de haver se consagrado no triathlon olímpico. Ele terminou a natação em segundo lugar e ficou metade da corrida lado a lado com Dave Scott, que cravou seis vitórias ao longo da década de 1980. Era o começo de uma rivalidade histórica. Depois da prova em 82 - que ele não terminou por causa de um câmbio quebrado -, Mark abandonou o emprego de salva-vidas na praia e focou nos treinos. Até que em 1989, num Ironman que ficou conhecido como The War (a guerra), ele abateu o inimigo, depois de correr 98% da prova ao lado do adversário. "Venci quando finalmente consegui 'limpar a minha mente', tirando o peso da responsabilidade de vencer", explica Mark. Era o começo de uma carreira na qual ele chegou entre os três primeiros colocados em 90% das provas de que participou.
Mark foi um dos precursores da arte de treinar para o triathlon, numa época em que não existiam técnicas específicas para a modalidade. Ele aprendeu "ouvindo" o próprio corpo e perseguindo o sonho de superar o tempo de seu adversário. Aos 37 anos, ele disputou e venceu seu último Ironman, no Havaí. Desde então, treina outros triatletas, surfa sempre que pode e continua em forma.
Boa parte da garra, autocontrole e paz de espírito que o ajudaram a vencer depois de oito anos no esporte ele credita a um xamã (sacerdote místico) mexicano que conheceu nos EUA. Ele conta que este senhor de quase cem anos era feliz pelo simples fato de estar vivo, e isso o inspirou. Paz de espírito mais técnica resultaram num atleta que quase matou de cansaço os desavisados que treinaram corrida com ele no Brasil, na Cidade Universitária (USP), numa manhã nublada de domingo, durante a visita que ele fez em maio ao Brasil para uma série de palestras com o apoio da Go Outside. Entre outras coisas, ele ensinou aos brasileiros que pisar com a planta do pé totalmente apoiada no chão dá mais sustentação, otimiza o impulso e aumenta a velocidade - uma técnica que ele "sacou" ao observar os africanos correndo descalços na terra. Também ensinou que, inclinando o corpo um pouco à frente, o atleta tem a ajuda da inércia e faz menos força de impulso. Leia a seguir o papo que Allen levou com a nossa reportagem.
Go Outside: Como você começou a competir no triathlon?
Mark Allen: Em 1982, assisti na TV a um Ironman e achei mágico. Já na primeira corrida, fiquei perto do líder, o Dave. Consegui algum dinheiro com patrocinadores e resolvi correr de novo no ano seguinte. Foram 15 anos de Ironman.
Quantas vezes por semana você treinava?
Quase todo dia. Iniciava os treinos em 1º de janeiro e só parava em meados de outubro, antes do Ironman. Em cada semana, nadava de quatro a cinco vezes, pedalava de cinco a seis e corria de seis a sete. Eu corria de 45 minutos a, no máximo, três horas por dia. Ciclismo era de 2h30 a treinos de 8 horas. E natação, em média, 3 mil metros, com treinos longos de até 7 mil m. Depois da prova, em novembro e dezembro, eu me mantinha ativo, mas sem treinar forte. Surfava e relaxava.
Você praticamente inventou o treino de triathlon...
Eu lia pesquisas que ensinavam você a fazer um monte de coisas para ser mais rápido. Mas, se o atleta seguisse tudo à risca, todos os dias, ele morreria. Eu trazia as pesquisas para o mundo real, observando o que funcionava. Ia testando. Cada pessoa tem uma resposta diferente ao mesmo tipo de treino e isso também muda com o passar dos anos. Por isso deve-se sempre mudar o treino.
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