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    O FENÔMENO

POR KATIE ARNOLD E ANDRÉA ESTEVAM

CLIFF WATTS
DE CORAÇÃO: "Existem diferentes paixões. Nem todo mundo gosta de correr. Se você é músico, seja o melhor músico que puder. Atire-se de coração ao que ama e você se realizará", diz Karnazes

DEAN KARNAZES ENCHEU A CARA DE TEQUILA no seu aniversário de 30 anos, em agosto de 1992. Voltou pra casa trançando as pernas e infeliz com a vida que levava: engravatado num emprego chato, lutando para subir na vida, seguindo a boiada sem questionar o porquê. Nos fundos de casa, achou um velho par de tênis. Fazia muitos anos que ele não os usava para uma corrida - desde os tempos de colégio, quando participava de corridas de montanha e provas de atletismo. Vestiu os sapatos e tirou as roupas, deixando só as cuecas samba-canção e a camiseta. E saiu correndo para parar só 48 km depois. Ele se sentiu ridículo, mas também feliz como há tempos não acontecia. E percebeu que tinha dentro de si um potencial secreto, esperando para ser descoberto e explorado.

Desde então, Dean vem desafiando todos os limites imagináveis da resistência humana, sem nunca encontrar o seu próprio. Correu 560 km sem parar (levou mais de três dias). Venceu a Badwater, ultramaratona de 215 km que é considerada a prova a pé mais dura do mundo. Escreveu um livro, O Ultramaratonista, que se tornou best seller e que acaba de ser lançado no Brasil. Mais recentemente, encarou o Endurance 50, um desafio em que correu 50 maratonas em 50 dias consecutivos, uma em cada estado norte-americano. E agora está entre os indicados para a lista das cem pessoas mais importantes do mundo, elaborada anualmente pela revista Time. Como conseguiu tudo isso? É simples, como você perceberá nesta entrevista exclusiva: não há nada que Dean Karnazes ame mais do que correr pelas montanhas, centenas de quilômetros a fio.

Go Outside: Como exatamente a noite de bebedeira te transformou num ultramaratonista?
Dean Karnazes: Eu me perguntei: "Como seria uma vida perfeita?". Nela eu passaria bastante tempo com minha família e fazendo o que amo, que é explorar os limites da resistência humana. Depois dessa noite, passei anos conciliando a vida empresarial e esportiva, até que decidi viver só do esporte.

Logo em sua primeira corrida "adulta", você fez 48 km. Você acha que tem algum tipo de predisposição genética que te permite suportar tão bem o esforço?
Sim, não sou muito inteligente [risos]. Brincadeiras à parte, acho que tenho uma biomecânica e um alinhamento muito bons - dois fatores essencialmente hereditários. Dizem que a melhor coisa que você pode fazer como ultramaratonista é escolher bem seus pais [risos]. Fora isso, sou um cara normal. Acredito, de verdade, que qualquer um pode fazer o que faço se for apaixonado por isso, treinar e se sacrificar com tanta aplicação quanto eu. Não sou único.

Numa semana normal, quando você não está correndo uma maratona por dia, qual é sua rotina?
Acordo às 4 da manhã e corro 30 a 40 km por um percurso lindo, pelas trilhas de montanha ao longo do Pacífico. Preparo o café-da-manhã e levo as crianças pra escola. Entre os e-mails, telefonemas e o tempo que passo escrevendo, faço séries de abdominais, agachamentos e barras. Pode soar engraçado, mas não me sento para trabalhar. Isso me deixaria louco. Comprei uma mesa alta, onde coloquei meu laptop. Fico de pé em frente a ela. E se alguém quiser fazer uma reunião comigo, será uma reunião andando, correndo ou trotando. As reuniões "móveis" são muito mais eficientes. Três ou quatro vezes por semana, aproveito as tardes para fazer windsurf, andar de mountain bike ou surfar.

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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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