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UM CARRO A MENOS
(FERNANDA FRANCO) FOTOS: ANDRÉ PORTO ILUSTRAÇÕES: MARCELO CALENDA
Essa, aliás, é a recomendação da maioria dos líderes de ONGs ligadas ao desenvolvimento da bicicleta como meio de transporte no Brasil. "A sociedade deve não só se organizar para cobrar e incentivar o poder público, mas também agir diretamente na cidade em que vive, convencendo o síndico do prédio a instalar bicicletários decentes e se organizando em grupos para reivindicar direitos e melhorias nas ruas", cita Thiago Benicchio, ativista paulista que criou o blog Apocalipse Motorizado. "Precisamos passar por uma mudança de cultura. O cidadão precisa ser responsável e participante dos destinos de sua cidade", afirma.
JÁ QUE CONSTRUIR UMA CICLOVIA parece ser mais difícil que completar um Tour de France, resta aos ciclistas munirem-se de coragem e atitude, vestirem o capacete e assumirem seu espaço na cidade. Quanto mais bicicletas houver na rua, mais os motorizados se acostumarão com essa presença e mais respeitarão esse novo colega de sufoco.
Não precisa abandonar os motores de vez. Usar a bike em pequenos trajetos até o banco, a farmácia, a casa de um amigo ou o trabalho (se você não tiver que trabalhar de terno ou puder tomar uma ducha) já melhora um pouco a sua vida e o ar da cidade. E mesmo nos pequenos trajetos lembre-se sempre de pedalar com cautela, usar os equipamentos necessários e obedecer as regras de trânsito (veja nossas dicas nesta reportagem).
Quando você estiver na caranga ou na moto, pense que a bike que está à sua frente ou ao seu lado não é um estorvo, mas sim um carro a menos nessa infinidade de motores. Dê espaço para o ciclista e aguarde um momento seguro para ambos para fazer a ultrapassagem. Não esqueça de SEMPRE dar seta. Isso pode evitar um acidente em que o ciclista com certeza vai se dar bem pior que você. Dissemine essa atitude também aos outros motoristas para que cada vez mais a presença do ciclista nas ruas seja bem-vinda. Se o problema for inveja (afinal, o cara tá de bike, com o vento na cara, e você cozinhando no trânsito), mande a bike que está encostada na sua casa pra uma revisão e entre para o movimento, mesmo que só de vez em quando!
Outra maneira de ajudar a bicicleta a ocupar seu território é aderir aos eventos promovidos pelas prefeituras e ONGs em todo Brasil. O Dia Mundial Sem Carro é celebrado mundialmente em 22 de setembro e em algumas cidades brasileiras é reconhecido como data oficial. Deixe o carro em casa pelo menos nesse dia e faça uma pressão (de leve) nos amigos e nos colegas de trabalho para que a iniciativa ganhe força. Já a Bicicletada - uma adaptação de um movimento gringo chamado Critical Mass (Massa Crítica), que acontece em mais de 200 cidades no mundo - é uma espécie de celebração ao transporte não-motorizado em que a galera coloca a bike, os patins, o skate e qualquer veículo a propulsão humana nas ruas na tentativa de contagiar os motoristas inveterados. Por aqui, o evento é mensal e acontece em várias capitais do país. Consulte a data no site (www.bicicletada.org) e solte o freio para um futuro com menos máquinas e mais pessoas nas ruas.


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REFLEXÕES DE UM PAULISTANO QUE TROCOU O CARRO PELA MAGRELA |
OITO DA MANHÃ. Acordo disposto a enfrentar o lento trânsito paulistano. Mesmo com a Faria Lima mais parada que de costume, eu estava tranqüilo. Sabia que de bicicleta eu chegaria a tempo.
Pedalando sossegadamente, em 15 minutos cruzo a Brigadeiro menos doce de São Paulo. Com um sapatênis nos pés, uma camisa social e um jeans na mochila, não foi difícil arranjar um banheiro para lavar o rosto, mudar de camisa, trocar a bermuda pela calça. Em dois minutos estava como se tivesse acabado de sair do carro com arcondicionado, só que mais acordado e menos estressado.
Me arrependo de não ter ido mais vezes pedalando pra faculdade na Vila Mariana, quando ainda morava em Pinheiros. Era 30 minutos para ir e 25 minutos para voltar. Cheguei a demorar 1h30 atrás do volante, apenas mexendo os pés entre acelerador e embreagem, em pleno pôr-do-sol.
Bike não pega fila no sinal fechado, não paga estacionamento nem polui o meio ambiente. Carro consome gasolina, óleo, água e paciência. Acho que só não temos mais bikes nas ruas por pré-conceito. Tem gente que acha que "pega mal" ir ao trabalho pedalando. Que chegariam suados e avoados. Que cansa muito.
Em metrópoles de Primeiro Mundo, executivos vão trabalhar, donas de casa vão às compras e estudantes vão à escola com suas magrelas. Em Amsterdã, 70% da população possui uma bicicleta e a utiliza. Por esse motivo, seus governantes se viram obrigados a criar ciclovias decentes, semáforos inteligentes e grandes estacionamentos para bikes.
É uma pena saber que o número de carros na China irá dobrar em 20 anos. Me dava uma felicidade enorme ver na TV aqueles milhares de chineses pedalando em Xangai. Ainda vai chegar o dia em que sinal de progresso será o congestionamento de bicicletas na Paulista e não o número de carros vendidos por ano. Enquanto isso, tome coragem e vá de bicicleta. Você verá que não é nenhum bicho de duas rodas.
Francisco Boggio, 28 anos, é publicitário e há anos abraçou a bike como seu transporte preferido. É ele quem aparece nas fotos que ilustram esta matéria |
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