QUEM VEM TENTANDO VIRAR ESSE JOGO é a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA). O atual secretário, Eduardo Jorge, acredita que desta vez as coisas serão diferentes, graças ao problema ambiental dos grandes centros. "A crise do automóvel chegou ao limite. O uso excessivo do carro está causando um mal tremendo ao cidadão e exige dos administradores novas soluções para se locomover na cidade", alerta o secretário.
Ele dá o exemplo. Morando perto do trabalho, pedala sempre que possível os quatro quilômetros que o separam do escritório. Para ele, a dificuldade de inserir a bicicleta no trânsito envolve barreiras culturais, econômicas e sociais. "As ruas não foram construídas para as pessoas, e sim para as máquinas. Infelizmente, não se muda uma estrutura da noite para o dia, mas nosso objetivo é viabilizar o uso da bicicleta na cidade a médio prazo", diz o secretário. Para isso, a SVMA vem investindo em programas de conscientização ambiental. Mas o sucesso da empreitada depende de outras áreas envolvidas. "Sozinho ninguém faz nada. O desafio é grande e deve ser feito em conjunto", pontua Eduardo.
É para isso que foi criado o Grupo Executivo Pró-Ciclista, coordenado por Laura Ceneviva, também funcionária da SVMA, e integrado por mais três secretarias (Infra-estrutura, Transportes, Esportes), subprefeituras e por dois órgãos de trânsito (CET e SPTrans). "Como a bicicleta não integra o repertório de experiências da Prefeitura, criamos o grupo para fomentar uma transformação a seu favor. É importante que tudo esteja interligado e as responsabilidades sejam divididas", explica Laura. "Acredito que as leis de 90 não foram pra frente porque eram responsabilidade apenas da SVMA. A gestão mudou e perdeu-se a continuidade", justifica ela.
O Pró-Ciclista faz a análise para a decisão sobre a construção das ciclovias em São Paulo, um processo de muitas etapas. Vários fatores são avaliados antes de se decidir por "abocanhar" uma faixa dos carros, como explica Laura: "Analisamos a demanda do trânsito de bicicletas naquela região, a disponibilidade da via e seus níveis de engarrafamento, os tipos de veículo que essa via comporta e a quantidade média de veículos/hora". Se a via estiver saturada, esqueça a ciclovia. O papel da via no sistema geral de circulação é levado em consideração também. Se a via for um corredor que liga duas regiões da cidade, dificilmente terá uma ciclovia. É o caso da avenida Juscelino Kubitschek, em São Paulo, que com a construção do túnel passou a fazer parte do corredor norte/sul da cidade.
Também é avaliada a topografia da região. "As rampas e ladeiras devem ser acessíveis para a média do público e não para atletas", pondera Laura. E, por fim, se ainda assim houver a chance da ciclovia existir, ela deve ter uma conexão com o sistema de transporte coletivo, estar prevista no plano regional da subprefeitura e vinculada ao orçamento da mesma. Ufa.
Laura enfatiza que o foco do grupo é fazer da bicicleta uma alternativa para distâncias de aproximadamente cinco a seis quilômetros, complementando o transporte coletivo. Na visão dela, essa é a única maneira da magrela se tornar competitiva com os carros. "Nossa intenção é usar o potencial da bicicleta para pequenas distâncias e não criar um sistema viário duplo para a cidade." A integração com o transporte coletivo é a bandeira empunhada pelo secretário Eduardo Jorge, da SVMA. "Ciclovias são difíceis e caras de se construir. A proposta mais segura e confortável são os bicicletários em trens e metrôs", diz Jorge, jogando um balde de água fria nos ciclistas que sonham com uma cidade cortada por faixas exclusivas para suas magrelas.
Foi fiscalizando uma lei que obrigava shoppings a ter bicicletários no Rio de Janeiro que o ativista carioca José Lobo descobriu como contribuir para aquilo que para ele sempre foi um prazer. "A Prefeitura não fiscalizava o cumprimento da lei, então abracei a causa. Eu ia nos shoppings, informava a administração que ele estava fora da lei e dava 30 dias para se ajustarem. Depois levava o relatório à Prefeitura, que passou a fiscalizar, até que todos se adequaram", relembra Lobo, que pedala desde 1990 e não se vê em outro tipo de transporte. Hoje o Rio de Janeiro tem a segunda maior rede de ciclovias da América Latina, com cerca de 140 km. "A opção por defender o uso da bike não significa esforço nenhum. Se cada um fizer o possível pelo que gosta, as coisas podem mudar", insiste.
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