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    NÃO CHEGA DE SAUDADES

Se o ano trouxe tantas alegrias nos esportes outdoor, trouxe também duas grandes tristezas. Vitor, primeiro brasileiro a chegar ao cume do Everest sem o uso de oxigênio suplementar, faleceu na descida. Roberta, que este ano escalou dois picos patagônicos de mais de 2 mil metros em apenas dez horas, sofreu um acidente de carro fatídico nos Estados Unidos. Não fosse a morte, Vitor e Roberta certamente estariam entre os Outsiders 2006. Por isso lembramos aqui desses dois atletas que conquistaram montanhas e um lugar na história do esporte brasileiro


(1967 – 2006)

Vitor faria 39 anos dia 13 deste mês. Talvez passasse este aniversário em chão mais firme (os dois últimos foram comemorados no Aconcágua, a mais de 6 mil metros de altura), mas com certeza sua mente estaria em algum cume, planejando a próxima escalada. Paulista, formado em engenharia de alimentos, um dos fundadores do grupo excursionista Gaia, desbravador de trilhas e montanhas, Vitor foi, junto com o parceiro Rodrigo Raineri, o primeiro brasileiro a escalar a face sul do Aconcágua, em 2002, e a escalar a mesma montanha no inverno, em 2004. Em 2005, Vitão chegou ao cume do Everest usando cilindros de oxigênio. Em 2006, voltou à maior montanha do mundo para encará-la de igual para igual, sem sherpas nem cilindros de oxigênio. Chegou ao cume (o primeiro brasileiro a fazê-lo só com os próprios pulmões), mas faleceu na descida, a 8.300 metros de altitude, dentro de uma barraca, às duas da manhã do dia 19 de maio. Não houve dor nem angústia - ele simplesmente adormeceu, exausto, para nunca mais acordar.

O corpo de Vitor descansa na montanha, coberto por pedras. Um memorial foi erguido perto do acampamento-base em sua homenagem pelo parceiro Rodrigo Raineri. Sua alma, porém, sempre foi e será para sempre uma outsider.

(1972 – 2006)

Quando um escalador morre na montanha, a tristeza vem acompanhada de certa resignação - afinal, o risco faz parte desse esporte. Porém, quando um escalador morre como Roberta Nunes, num acidente que nada tem a ver com assumir riscos, o pesar pela perda parece ser ainda maior.

Roberta Nunes, curitibana, escalava desde 1996. Em 2003, ela colocou o Brasil no mapa do montanhismo mundial ao escalar, junto com a espanhola Cecília Buil, a primeira via aberta por mulheres na maior falésia marinha do planeta, a Thumbnail, na Groenlândia. A escalada foi registrada no filme Hidrofilia, que ganhou vários prêmios no exterior. Em setembro de 2005, tornou-se a primeira não-norte-americana a escalar o El Captain, um monolítico de granito que fica no Parque Nacional do Yosemite, na Califórnia, Estados Unidos, em 15 horas. Por esse feito, foi eleita uma das Outsiders 2005. Em fevereiro de 2006, escalou as montanhas Guillaumet (2.593 metros) e Mermoz (2.754 metros) em somente dez horas, tornando-se a segunda mulher a escalar dois picos na Patagônia no mesmo dia. Essa conquista lhe renderia seu segundo troféu Outsiders, este ano.

Roberta costumava passar seis meses por ano escalando em algum lugar do mundo, e em 2006 foi de mala e cuia para uma temporada de treinos no Yosemite, na Califórnia. Foi nos Estados Unidos que sofreu o acidente de carro que a vitimou. "Nunca fiquei preocupada em morrer", ela nos disse em entrevista. Mas nós ficamos muito tristes por você ter-se ido, Roberta.

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Edição nº 54 - Novembro/09
 
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